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Nunca mais donzela em apuros: o que 2015 nos ensinou sobre as mulheres nas tramas de ação


Whoopi Goldberg contou esta história uma vez: “Quando eu tinha nove anos, Star Trek estava passando na televisão, eu estava assistindo e de repente saí gritando pela casa: ‘Venha aqui, mãe, todo mundo, venham logo, porque tem uma mulher negra na televisão e ela não é a empregada’. Foi naquele momento que eu soube que podia me tornar absolutamente o que quisesse”.

Representação importa e faz toda a diferença. Você vai ver por todo lugar da internet gente sem rosto chamar isso de “politicamente correto”. Mas representação é uma outra categoria de coisa. Na verdade, se a mídia e sua cultura (seja a televisão, o cinema, os quadrinhos ou a literatura) já podem ser entendidas hoje em dia como o espelho das nossas vidas, como alguém pode existir nessa sociedade globalizada se a televisão não lhe permite se ver?

Em 2015, algumas hegemonias quase milenares foram enfraquecidas. Seja por causa da presença mais significativa e menos caricata da cultura negra, seja porque o cinema decidiu mostrar mulheres que não precisavam ser salvas por ninguém, protagonistas femininas fortes e decididas, imaginem só!, em filmes de ação. Um ano que começou com a alma inquieta da Imperatriz Furiosa e suas deslumbrantes sequências de ação no aclamado Mad Max – Estrada da Fúria, e terminou com a centralidade de Rey no ressurgimento de uma das franquias intergalácticas mais populares do cinema norte-americano, Star Wars.

Não é incorreto dizer que a cultura pop tenha sido por muito tempo um mundo construído em torno da figura protagonista do homem. Tente listar suas protagonistas femininas preferidas e vai perceber que a maioria delas é um fenômeno muito recente. A ideia geral era a de que a mulher estava ali para que o herói tivesse por quem se apaixonar ou alguém para salvar, qualquer coisa diferente disso era quase uma anomalia.



Nos quadrinhos, por exemplo, os dois arquétipos mais populares eram (e muitas vezes ainda são):

  • a super-heroína ultra-sexualizada (o termo ultra-sexualizado está sendo usado aqui com a implicação de um fetiche exagerado. Pois naturalmente podemos argumentar que as roupas justíssimas dos super-heróis masculinos também têm algum caráter de sexualização);
  • a namorada do herói;
A super-heroína ultra-sexualizada provavelmente nasceu da noção de que quadrinho é brinquedo de menino. Esse arquétipo parece estar caindo em desuso a medida que editoras e estúdios atentam para o fato de que mulheres também consomem, produzem e se interessam por este mercado.

Já a namorada do herói, mais recorrente que qualquer outro arquétipo, tem como base uma espécie de mulher idealizada, auxiliadora incansável do herói e complemento dele. A donzela em apuros não possui trama própria, tendo sua identidade vinculada ao homem e à missão dele. Em alguns casos, ela até move a história do herói para frente, mas não caminha em uma história própria. Ela se depara com o perigo, mas não é capaz de sair dele sozinha. Ela precisa ser salva.

É fácil identificar exemplos. Lois Lane é uma repórter eficiente, trabalha em um dos maiores jornais do universo dos quadrinhos e até já foi premiada por seus talentos como jornalista. Mesmo assim, nem sempre Lois Lane pode ser forte e emancipada. Na ação, na aventuram e no confronto com vilões, só os atributos masculinos são necessários. Se uma ameaça aparece, sua vida fica por um triz. Até que o Superman apareça. Na verdade, durante décadas, os roteiristas ficaram obsessivos pela ideia de uma Lois louca casamenteira. Todas as tramas envolvendo a personagem tinham a ver com suas tentativas de descobrir a identidade secreta do Superman, para poder se casar com ele.


A roteirista da DC, Gail Simone (Aves de Rapina, Batgirl) chegou até a criar o termo mulheres na geladeira em referência à morte prematura dessas donzelas. Essa expressão faz referência à revista Green Lantern #54, onde um dos membros da tropa dos Lanternas Verdes, Kyle Rayner, encontra numa geladeira o corpo de sua namorada brutalmente assassinada. Para Simone, há uma abundância de personagens femininas assassinadas de forma violenta com o único intuito de dar andamento ao arco dramático do herói. Mulheres espancadas, estupradas e assassinadas para originar um arco no qual o herói recorrerá a vingança como forma de restabelecer de sua honra, mas certamente não a vida delas.

Mas se nos anos 60, Whoopi Goldberg já podia acreditar em si mesma, na sua cor, no seu gênero e na sua cultura quando assistia televisão, é correto supor que em muitos sentidos a nossa geração também não deu muito para trás.

As já mencionadas Rey e Furiosa são só os dois exemplos mais óbvios de que existe espaço para algum tipo de protagonismo feminino nas histórias de ação. Os mais óbvios, mas certamente não os únicos.

Nos quadrinhos, tivemos um desenvolvimento mais apurado para as cada vez mais populares Miss Marvel (Khamala Khan) e Arlequina. Com seus títulos próprios indo cada dia mais longe no ranking de vendas.

2015 também foi o ano para a Supergirl tomar seu espaço na televisão. Assumindo sem constrangimento a chamada temática de mulherzinha, em alguns momentos, a série pareceu sofrer algum tipo de resistência inicial. Críticas majoritariamente baseadas no público alvo. Como se o fato de se fazer uma série direcionada também a meninas fosse em si mesmo motivo de rejeição.

A Netflix entregou, entre outras coisas, DemolidorSense8 e Jessica Jones. Três séries que usaram do tema da representatividade das formas mais variadas.

Apesar de seu personagem título ser masculino, Demolidor não poupou esforços para tornar a sua mais importante coadjuvante feminina uma personagem interessante e relevante para o andamento da trama. Karen Page, interpretada por Deborah Ann Woll, é uma donzela e está mesmo em apuros na maior parte da primeira temporada. Nem por isso, ficou de braços cruzados esperando ser salva. Rompendo os parâmetros de um arquétipo, ela tem motivações próprias que nem sempre estão de acordo com as motivações do herói, ela soluciona o mistério e derrota o vilão sem o auxílio dele também.

(Se ainda não viu Demolidor inteira, vá ler o resto e esqueça este vídeo. Para sempre)

Com oito protagonistas, quatro homens e quatro mulheres, Sense8, escrita por Straczynski e pelos Wachowski, trouxe a representatividade para o primeiro plano e falou de diferença com uma sensibilidade única. O mote principal da série é a ideia de olhar para o outro e ser capaz de compreender suas diferenças sem ter que julgar.  

Jessica Jones, seguindo o caminho trilhado por Demolidor, trouxe para a televisão uma heroína com a força de um Superman, mas sem nada de seu temperamento tranquilo. Muita gente argumenta que a série é um grande ensaio sobre o abuso. Não deixa de ser verdade. Essa representação da vítima que se torna um espírito vingador pode, de fato, ser muito catártica.

2015 parece que quis mostrar que há mesmo todo tipo de público e que o caminho para as vendas (seja de revistas, de publicidade ou ingresso) é quebrar os monopólios e deixar que todo mundo se sinta mais ou menos representado.  

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