Swift

Ordem cronológica: entendendo o Ponto de Ignição


Todo fã da nona arte deve lembrar a primeira história em quadrinhos que teve nas mãos com um misto de frio na barriga (do tipo, Meu Deus a vida está me obrigando a crescer) e muito entusiasmo. Se não exatamente o primeiro quadrinho, talvez o primeiro super-herói preferido, primeiro filme, desenho animado ou boneco de estimação. Eu certamente me lembro do Superman.

rose titanic rose titanic it's been 84 years

Nem sempre é fácil explicar para os não adeptos que você ainda quer investir uma boa parcela de suas economias em bonequinhos coloridos de papel 20 anos após o seu primeiro personagem. Por sorte, vivemos uma fase de vacas gordas para a cultura geek/otaku/nerd, que já invadiu o mainstream e às vezes até alcança o patamar de cult.

Nos próximos meses, Deadpool, Batman vs. Superman, Guerra Civil, Esquadrão suicida e X-Men prometem esvaziar os bolsos não só dos apaixonados de longa data como também encantar novas gerações.  

Assim sendo, por toda parte, uma legião de calouros parece surgir todos os dias sem saber exatamente por qual porta entrar no deslumbrante universo dos super-heróis. Se você saiu do cinema após uma sessão entusiasmada de Capitão América - O soldado invernal, por exemplo, e decidiu fazer uma visita descompromissada a banca de revistas, provavelmente percebeu que não será muito fácil saber por onde começar. 

Colocar ordem na confusão de sagas, arcos e universos alternativos que se tornou os quadrinhos Marvel/DC pode até não parecer a tarefa mais fácil, mas certamente não deixará de ser empolgante.

Nesta série de postagens, vamos aos poucos tentar entender a ordem cronológico das duas maiores editoras dos quadrinhos norte-americanos, começando com a jogada de marketing da DC iniciada em 2011 e conhecida hoje como Os Novos 52.  

Tendo em seu currículo sagas como Crise nas infinitas Terras, Crise Infinita e Crise Final, as mentes criativas por trás da editora acharam que outro evento apocalíptico de proporções épicas não faria mal a ninguém. Do modo como o universo DC foi construído, temos sempre a impressão que seus personagens já aprenderam a levar suas vidinhas heroicas na esportiva, só esperando a próxima grande ameaça cósmica que vai reescrever suas origens e histórias. E então, num belo dia, numa reunião criativa qualquer, alguém disse “faça-se o Ponto de Ignição” e dali em diante Os Novos 52 passaram a existir.

Ponto de Ignição (Flashpoint)

O novo universo DC começa aqui. Barry Allen, o Flash da Era de Prata, está de volta. Além de super-herói, Barry é um cientista. Suas primeiras versões dão conta de um nerd tímido, apaixonado pelo seu trabalho e pela ciência em geral. Suas histórias quase sempre davam um jeito de transformar alguma curiosidade científica em diversão. Quando morreu, durante os eventos da primeira grande crise DC, deixou uma lacuna que, para os fãs, parecia irreparável. A cena de seu sacrifício é realmente uma pintura linda.

De qualquer forma, uma lição importante que os quadrinhos de super-herói nunca cansaram de nos ensinar: a morte nunca pode ser um fator definitivo quando estamos lidando com publicações a longo prazo. Vamos ficar à vontade para chorar nossos heróis, mas sempre alimentando a certeza que mais cedo ou mais tarde eles voltam.

De volta à ativa, Barry Allen encara em 2011 o Ponto de Ignição.


A história lida com as premissas básicas de viagem no tempo e universos alternativos, dois temas bastante recorrentes nos enredos dos quadrinhos de super-herói. Barry acorda e descobre que o mundo a sua volta foi alterado drasticamente, porque usou sua velocidade para romper a barreira do tempo, voltar ao dia do assassinato de sua mãe e impedi-lo.

A imagem de uma pedra lançada num lago, gerando uma série de ondulações na água, é frequentemente utilizada como um aviso didático para os aspirantes a viajantes no tempo. Qualquer ação para evitar o passado gera ondulações desconfortáveis através da história.
O fato é que décadas de ficção científica parecem não ter ensinado muita coisa ao nosso herói. Uma boa ação nunca fica impune. Ou melhor: quando o assunto é viagens no tempo, pontos fixos numa cronologia temporal e alterações irresponsáveis, uma boa ação não pode ficar impune de jeito nenhum.

Talvez a lição maior a ser apreendida, caros viajantes no tempo em potencial, é a mesma que as crianças traquinas entendem ao entrar numa loja de brinquedos: pode olhar, mas, por favor, mantenha suas mãos encardidas no bolso da calça e deixa cada coisa em seu devido lugar.


Ao salvar sua mãe, o Flash pode ter condenado todo o universo DC, criando uma linha de eventos alternativos e reescrevendo a história dos maiores heróis da Terra. No mundo de Flashpoint, Thomas Wayne é um Batman amargurado pela perda de seu filho, Bruce, e de sua esposa, Martha, que nesta realidade enlouqueceu de tristeza e se tornou o Coringa. Aquaman e Mulher Maravilha estão em guerra. Essa guerra desastrosa e inexorável entre Atlantis e a Ilha Paraíso, assim como nos anos da Guerra Fria, aproxima pouco a pouco o relógio do fim do mundo dos números do meio dia. Se os dois não forem parados, muito em breve, o mundo irá afundar. A nave do Superman se desviou um pouco das coordenadas ideais e caiu no meio de Metrópolis, devastando a cidade e matando milhares de pessoas. Superman não foi salvo pelos adoráveis e compreensivos Kent, não cresceu numa fazendo nem tem os modos de um caipira gentil. Ele foi criado pelo exército. Quando criança, foi forçado a testes e experimentos. Cresceu para se tornar um adulto deprimido, escondido sob a cidade, bem longe dos raios do sol, que deveriam proporcionar seus poderes. Hal Jordan morreu num acidente de avião e nunca se tornou o Lanterna Verde. Shazam é a soma de seis crianças, cada uma carregando uma das habilidades de seu nome.

Cabe ao Flash se aliar aos heróis desta nova Terra e tentar impedir o colapso do universo DC. A série principal é contada em cinco edições, tendo Flash, Cyborg e o Batman de Thomas Wayne como protagonistas. No último segundo, eles salvam o mundo, não surpreendendo ninguém.

Estão vendo a senhora misteriosa com um capuz? Não a percam de vista, ela será importante nas próximas postagens.

São as circunstâncias e as consequências que importam neste tipo de trama.

Na verdade, algumas dessas consequências nunca ficaram realmente claras para o público. Aliás, nunca ficou realmente claro o que permaneceria como válido e o que seria descartado da cronologia anterior com o advento dos Novos 52. Foi divulgado que a cronologia original do Batman e do Lanterna Verde (que eram sucesso de público) não sofreriam grandes alterações, mas todo o resto ficou sendo um mistério.

Editorialmente, Flashpoint representou, no fim, a união de personagens de diversos selos de publicação da editora num universo só. John Constantine, por exemplo, sai das páginas mais maduras da Vertigo e se torna oficialmente um personagem do universo principal. Os personagens esquisitos e até então considerados inadequados do selo Wildstorm também ganham um novo lar. Como muitos dos personagens da DC tinham sido adquiridos de outras editorias, esta foi a forma de se resolver o problema de alguns personagens introduzidos de forma mal planejada no panteão da editora.

Assim, um novo e unificado universo surge para substituir uma cronologia considerada ultrapassada para o paladar de novos públicos. Bem-vindos ao mundo dos Novos 52, onde personagens clássicos vão mudar muito só para continuar sendo a mesma coisa.

Ordem de publicação

Ponto de Ignição 1-5, Panini.
Ponto de Ignição Especial 1-3, Panini.

Outras mídias

A saga foi adaptada em um longa animado intitulado Justice League The Flashpoint Paradox.



Na próxima semana, teremos uma introdução aos Novos 52 e um pouco do Superman de Grant Morrison em Action Comics. E na sequência: Batman!

LEIA TAMBÉM