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Ordem cronológica: Os Novos 52 (Parte 1)


Na semana anterior, demos uma passada rápida pelos principais eventos do Ponto de Ignição, um arco chave para o desenvolvimento dos quadrinhos DC em 2011. Foi daí que nasceram os Novos 52. Como foi falado no texto anterior, os executivos da Warner nunca fizeram segredo que os personagens reformulados do universo pós-flashpoint são a base de seu universo cinematográfico. Assim, se já sabemos que foi o Ponto de Ignição que nos trouxe até aqui, a partir desta postagem, vamos tentar entender um pouco da origem e traços principais da Liga da Justiça desta nova geração, uma geração talvez muito mais interessada em super-heróis de cinema que de quadrinhos.

Os Novos 52


Aconteceu em 2011. Não sejamos cínicos, não vamos falar apenas de dinheiro e vendas, é fato que Os Novos 52 também foi uma aposta criativa. OK. Estabelecido isso, vamos aos fatos: na época, a editora das lendas começava a encarar os efeitos dos seus baixos índices de venda (excetuando apenas os títulos relacionados a Batman e Lanterna Verde, que desde essa época já vendiam muito bem). Não estava sendo fácil bater de frente com os sucessos cinematográficos da concorrência. De modo que podemos argumentar que Os Novos 52, em essência, foi uma estratégia comercial, focada em preparar seus personagens para um público muito mais direcionado para a ação de cinema, devido ao crescente sucesso do universo iniciado pelo Homem de Ferro, da Marvel, em 2008.

As revistas foram relançadas, então, com a numeração zerada (para atrair novos colecionadores) e personagens renovados e adaptados para esse novo público. A proposta era reinventar o seu universo criativo, apostando em adaptações que, de fato, tiveram forte apelo inicial aos novos leitores. A partir de então, todo mês, 52 novos títulos eram postos à venda.


Não é novidade essa fixação paranoica da DC em torno do número 52. O multiverso no qual seus personagens coexistem também é composto hoje em dia por 52 Terras paralelas. Há uma explicação curta para isso e outra muito mais longa, repleta de teorias da conspiração, com especuladores de internet remontando às tradições Maias para nos explicar a utilização constante de um par de números. Ficamos então com a justificativa simples e mais pragmática: 52 é o número de semanas que constam num ano. Portanto, para o caso de publicações semanais (que a DC faz questão de colocar nas bancas todo ano), é o número exato para preencher uma temporada inteira sem deixar lacunas.

No princípio, se remontarmos a gênesis do universo DC, a editora trabalhava com o conceito de mundos paralelas infinitos. Cada decisão tomada num universo específico gerava um segundo universo, para abrigar a realidade das decisões não escolhidas. Confuso? De fato. Tendo chegado num ponto em que nem os roteiristas entendiam mais a bagunça que seu multiverso havia se tornado, nasceu o primeiro grande reboot DC, Crise nas Infinitas Terras, que exterminou a noção de mundos alternativos e prometeu deixar a casa em ordem.



Uma vez extintos, no entanto, os universos paralelos começaram a fazer muita falta. Na prática, estava ficando cada vez mais difícil explicar certos excessos criativos, pontos soltas e incongruências. Ficou claro que o conceito de universos paralelos precisava voltar. Mas eles tinham aprendido alguma coisa com seus erros. Desta vez, seria diferente, as coisas ficariam organizadas, cada mundo em seu lugar. Nada de possibilidades infinitas agora, existem limites, 52 mundos paralelos e nenhum a mais.

Olhando aqui do futuro, sabemos que o plano não funcionou para sempre. A verdade é que com o passar das edições, uma cronologia abarrotada sempre arranja um jeito de dar problema. Nos quadrinhos, o reboot é sempre uma realidade e é o tipo de coisa que sempre vai acontecer de novo, mais cedo ou mais tarde. 52 terras paralelas passaram a existir desde então. Como o próprio título expressa, esse conceito ainda é válido no mundo dos Novos 52.

Na última terça-feira, foi ao ar pela CW, um especial sobre os vindouros filmes do Universo DC. É fácil identificar esta Liga da Justiça do cinema com suas contrapartes de papel, quase como se os Novos 52 tivessem sido, desde o início, pensados para isso... mas ninguém aqui acredita em conspiração, não é? Mesmo com todo o foco num Superman mais problemática, que já não leva desaforo para casa (e ainda assim essencialmente um homem bom), mesmo com todo o foco num Batman cada vez mais próximo de atravessar a linha entre o herói tradicional e a popular alcunha do anti-herói.

Clark Kent gosta da ideia.
De todo modo, Os Novos 52 tinha a missão de fazer seus personagens tão velhos e clássicos quanto a própria mídia em quadrinhos interessantes de novo e para um novo público. Uma ideia que traz polêmica toda vez. O dilema de sempre: como dosar as mudanças, como escapar de transformações muito radicas? Como deixá-los interessantes para novos tempos sem apresentá-los irreconhecíveis para os fãs ‘originais’?

Neste vídeo, podemos ver um pouco de como fãs de quadrinhos reagem a mudanças 'drásticas' (imagens fortes):


No geral, mudanças são um processo difícil para o fã mais ortodoxo. Fatalmente a balança costuma pesar em favor da novidade. É difícil passar por um reboot sem esbarrar na legião dos haters, mas uma coisa que o mundo dos quadrinhos parece não ter desistido de tentar ensinar é que os personagens vão mudar e continuar a ser publicados infinitamente, ultrapassando uma quantidade sem fim de reboots e deixado os desiludidos para trás. É um processo constante de educação emocional.

Superman

Entre os títulos principais da primeira leva dos Novos 52 está o já clássico Action Comics, escrito por Grant Morrison e com artes de Rag Morales.


Depois de entregar Grandes Astros Superman, uma carta de amor ao herói e tudo que ele vem representando para o universo da superaventura desde sua origem, Morrison mostra com sua passagem por Action Comics que o Superman não tem que necessariamente ser um herói defasado. Se em Grandes Astros, Morrison optou por contar a história dos últimos dias do protetor de Metropolis, nas páginas de Action Comics, o autor tomou para si a responsabilidade de recontar os primeiros dias de Clark Kent como Superman, ainda sem uniforme, com um visual alternativo do tipo feito em casa, ainda aprendendo com seus erros a nunca confiar nos ideais militares ou em Lex Luthor. Com seu jeito marrento, com sua imaturidade explosiva de quem ainda está começando, o novo Clark Kent estava de fato pronto para a identificação de um outro público. Seus meios extremos de lidar com o crime, algo que na verdade estava presente na mitologia do herói já na sua primeira versão, nos anos 1930, parece ter sido o ponto de maior impacto dessas novas tramas. Em entrevista, Morrison relevou certa vez que estava de fato muito cansado de um Superman atormentado e inseguro de suas responsabilidades e poderes, em Action Comics, seu plano principal era mostrar um cara que queria e tinha as habilidades necessárias para fazer a coisa certa. Um herói que, apesar de inexperiente, já era confiante até demais. Nunca mais o mocinho boçal aprisionado pelas inconstâncias do sistema.


Ao mesmo tempo que nos entregava esse Superman mais temperamental e menos benevolente, Morrison, como fã de longa data do herói, não esqueceu as temáticas que tornaram o personagem relevante. Ainda é a história de alguém deslocado no mundo, tentando encontrar um sentido de pertença. Ainda é a história de Clark Kent, repórter do Planeta Diário, assalariado, caipira, vivendo num apartamento apertado na área mais pobre da cidade. Ainda é a história de um super-homem que tem o poder para ser o maior de todos, o mais arrogante, e que, mesmo assim, optou por ajudar.


Pessoalmente, sou um entusiasta da forma um tanto confusa e não linear que Morrison atribui às suas tramas, conseguindo testar os limites da mídia e da metalinguagem, o que é sempre divertido de acompanhar. Na trama, até certo ponto autocontida, o autor extravasa com seus enredos mirabolantes e personagens aparentemente caricatos, indo desde uma invasão tecnológica, liderada por Brainiac, até a ameaça das imprevisíveis criaturas da quinta dimensão, passando pelas maquinações de um Lex Luthor tão cínico quanto prepotente, tão bem dosado pelo roteiro habilidoso do escocês.

Entre os confrontos corriqueiros com marginais e políticos corruptos, Morrison encontra tempo ainda para voltar ao início, reencenando a destruição de Krypton, e viajar até o distante futuro do século XXX, numa visita a Legião dos Super-heróis. Vai ao espaço, mostrar o resgate de astronautas, ameaçados em Marte por uma multidão de anjos carnívoros e assassinos, e vai também a um universo alternativo, nos mostrar as aventuras de um Superman negro e sua Liga da Justiça. Numa história especial de Halloween, encara até mesmo assombrações vindas direto da Zona Fantasma.


No âmbito de seus relacionamentos, temos o humor cínico dos diálogos entre Clark Kent e sua paixão platônica, Lois Lane, além do desenvolvimento de sua amizade com Jimmy Olsen.

Apesar de inicialmente parecer focar em arcos curtos, explorando o gradual amadurecimento e estabelecimento do Superman como o maior herói de Metropolis, o estilo megalomaníaco de enredo tão típico do autor se desenvolve ao fundo, conseguindo no fim conectar todas essas tramas à ameaçadora presença de Mxyzptlk e de outras figuras da quinta dimensão. O estilo extravagante do autor parece casar adequadamente com a personalidade cômico e ao mesmo tempo aterradora desses vilões.  

A passagem de Morrison pelo título se encerra na edição de número 18. No encerramento, vemos uma batalha tanto física quanto metafórica, na qual Superman tem que defender a cidade, sua vida, sua moral, sua história e todo o conceito do que significa ser o Superman. O capítulo final é, acima de tudo, uma grande alegoria repleta de metalinguagem, que provavelmente não dá pra ser entendido apenas com uma leitura superficial.



Além disso, Jim Lee e Snyder, paralelo ao lançamento de O Homem de Aço, lançaram o título Superman Unchained. Uma trama bem mais hollywoodiana, mais simples e concisa. Bem executado, com um roteiro consistente, cheio de viradas intrigantes e cenas de ação bem enquadradas pelo traço eficiente de Jim Lee. Embora, certamente, não seja uma história ruim, não é realmente tão empolgante quanto os exercícios de escrita propostos por Morrison. É uma história de ação, com desenhos de tirar o fôlego, mas que não trabalha tão os conceitos, temas e imagens marcantes do personagem.

Ordem de publicação

Action Comics em:

Superman 1-18, Panini (inclui a edição ZERO).

*O mix Superman é publicado com mais ou menos 68 páginas, incluindo três títulos americanos. Nesta fase os títulos são: Superman, Action Comics e Supergirl.

Superman à prova de balas, Panini.

*Encadernado contendo a fase completa de Morrison, em capa dura e com alguns extras.

Superman Unchained em:

Superman 22, 23, 24, 25, 29, 30, 32, 33 e 34.

Na próxima postagem, vamos focar nos diversos títulos que giram em torno do Batman! Na sequência, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Flash e Aquaman!

Postagens anteriores:
Ordem cronológica: Ponto de Ignição

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