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Critica: Sherlock, Especial de Natal The Abominable Bride


Seguindo a tradição já estabelecida pela popular Doctor Who e seus aguardados especiais de fim de ano (alguns de ano novo até), um especial de Natal de Sherlock foi ao ar pela BBC britânica no último dia primeiro.
Sherlock sempre sabe como manter a expectativa. Os intervalos entre as curtíssimas temporadas, de apenas três episódios cada, são sempre desproporcionais.

Desde 2010, o ano de estreia da longínqua primeira temporada, só foram ao ar três temporadas e, claro, a custo de muita espera. Sherlock se tornou um hit quase que instantaneamente, conquistando fãs do mundo inteiro com uma premissa envolvente, com a óbvia qualidade dos roteiros mirabolantes da dupla Steven Moffat e Mark Gatiss, e com o trabalho assertivo de um elenco que conta com nomes de peso, como Benedict Cumberbatch (Doutor Estranho) e Martin Freeman (O Hobbit).

Se você ainda não viu o episódio, coloque o marca-página neste parágrafo, assista o teaser a seguir e deixe a leitura para uma outra oportunidade.


Quando esse especial de Natal foi anunciado, o foco da sinopse apresentada pela produção sempre parecia ser o fato de que a trama mostraria um retorno à era vitoriana, o cenário dos escritos originais de Sir. Arhtur Conan Doyle, o criador do personagem. Não se viu muito espaço para cogitar, então, outra possibilidade que não a de um episódio alternativo, sem vínculo com a trama principal abordada nos episódios anteriores.

De fato, um episódio alternativo não teria sido um incômodo. Com a pausa de quase dois anos desde o final da terceira temporada, a notícia de um episódio especial já era motivo de comemoração. Afinal, não parecia mesmo provável manter vigente a cronologia da série com uma premissa de época.

No entanto, o que vemos em The Abominable Bride é uma trama que pretende começar exatamente do ponto onde a temporada passada parou. Exilado, Sherlock está deixando a Inglaterra, mas é chamado de volta quando, numa virada súbita do roteiro, somos todos informados que Moriarty parece estar vivo e de volta aos serviços, desafiando Sherlock para mais um de seus jogos de sangue.

O episódio já começa no século XIX, querendo nos fazer acreditar que ainda estamos muito longe de entender sua relação com o exílio de Sherlock e com o retorno de Moriarty. Apesar da época, nada parece ter mudado na vida dos protagonistas. Sherlock ainda é o investigador mais popular da Inglaterra. Watson ainda está casado com Mary, ainda escreve sobre as aventuras de seu melhor amigo. A própria Mary, mesmo que reprimida pelos valores conservadores da época, mantém sua personalidade assertiva e questionadora, muito mais empolgada com mistério e investigação que com o seu papel de esposa recatada. A Sra. Hudson ainda reclama. Lestrade ainda é incapaz de desvendar um mistério sem envolver Sherlock.


A noiva abominável do título é Emilia Ricoletti. Certa manhã, trajando seu vestido de noiva, a senhorita Ricoletti vai até a varanda de sua casa e se suicida diante de uma plateia horrorizada. À noite, no entanto, ela reaparece como algum tipo de assombração medonha, assassina o marido e depois some na noite. A população supersticiosa da época fica subitamente em pânico e, de tão impressionados, passam a fazer de bode expiatório a chamada noiva abominável. Um autêntico caso do Scooby-Doo. Incrédulo diante da explicação sobrenatural proposta por Lestrade, Sherlock decide pegar o caso. Tendo aí a oportunidade perfeita para trazer, direto da obra de Conan Doyle, uma de suas citações mais famosas: Quando você elimina o impossível, o que sobrar deve ser a verdade.

No meio do episódio, torna-se concreto aquilo que todos já esperavam, tudo não passa de uma alucinação promovida por drogas pesadas. Sherlock ainda está naquele avião, voltando para a Inglaterra, e o caso da noiva abominável está todo sendo construído no seu Castelo Mental, onde, tudo indica, um reflexo de Moriarty chegou para lhe assombrar. Que a revelação era óbvia, ninguém discorda. Afinal, o roteiro não parecia querer fazer muito segredo, já que, no início do episódio, cometeu um anacronismo mais que proposital ao citar a guerra do Afeganistão. Mesmo assim, é preciso elogiar a habilidade do texto em nos fazer embarcar na mentira evidente de uma atmosfera vitoriana.

Como em alguns episódios mais recentes do Doctor Who, Moffat consegue elevar, na primeira metade do episódio, as expectativas até a estratosfera, mas acaba mais ou menos decepcionando no fim, com uma solução talvez mirabolante demais para o paladar de uma parcela considerável do público. Embora condizente com o teor da obra original, a solução do complô das empregadas domésticas não deve ter sido uma grande surpresa para ninguém.


Assim como os taxistas de A Study in Pink, as domésticas confiam no subterfúgio de que todo mundo as olha, mas ninguém parece realmente as ver. Da mesma forma que no piloto da série, o roteiro brinca com o truque de apontar para os culpados o tempo todo e sem nenhuma discrição.

Toda a trama, no fim das contas, é um jogo de gato e rato psicológico, no qual Sherlock tenta, por meio do exemplo do caso da noiva, determinar as circunstâncias que teriam permitido que Moriarty sobrevivesse aos eventos da segunda temporada.

Infelizmente, esta solução não é exatamente dividida com a audiência. Não ficou explícito se a quarta temporada vai nos mostrar um segundo embate entre as duas rainhas do drama. Mas, quem sabe?

Se pode parecer, ao final, que a história não teve muito andamento com a alternância entre presente e alucinação, a constatação final de que o legado de Moriarty continua, mesmo que ele tenha morrido de fato, é certamente uma maneira empolgante de se iniciar uma temporada.

Sem perder a oportunidade de brincar com um universo alternativo, este especial de Natal nos entrega uma verdadeira homenagem a trama principal.

Os novos episódios da quarta temporada só devem chegar mesmo em 2017.






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