Swift

Critica: Batman v. Superman: A Origem da Justiça


Quando eu era criança e meus pais trabalhavam o dia inteiro, eu sempre voltava da escola e passava as tardes na casa da minha avó. Eu assistia TV o tempo inteiro na época, porque achava que era a coisa mais especial que a humanidade tinha sido capaz de inventar. Estava passando o Superman de Christopher Reeve, certa vez, e eu lembro de ter levantado e ficado pulando de frente para a televisão, acreditando, pela primeira vez, que um homem podia voar.

Muita gente se acostumou a pensar que nunca existiu o gênero cinema de super-herói antes do Homem de Ferro, em 2008. E não digo no sentido de que não saibam que outros filmes existiram antes ou sua importância, é no sentido de que parece que algumas pessoas pararam de admitir qualquer coisa fora do padrão estabelecido pela Marvel.

No entanto, antes do universo compartilhado da Disney, que todos aprendemos a amar (ou pelo menos a maioria), antes do sucesso indiscutível da fórmula Marvel de fazer cinema, havia Batman e SupermanE havia uma geração, como a minha, que achava que nada nunca mais seria igual a emoção daqueles filmes.

Vamos avançar um pouco no tempo agora. Os efeitos especiais estão por toda parte. Parece tão fácil e monótono. Ninguém mais acredita que o homem pode voar. Nem se importa. Estamos em 2016. No que Batman v. Superman nos faz acreditar? De minha parte, no futuro do gênero e em sua capacidade de se reinventar.

Spoilers a frente...


É a primeira vez que o cinema coloco esses heróis frente a frente. As expectativas do público estavam, como o Superman, à prova de balas. Como já vimos nos trailers, temos Batman e Superman em momentos muito específicos de suas carreiras. Esse Superman precisa enfrentar as consequências da grande batalha de Metropolis, do final do filme anterior, O Homem de Aço, não só perante o mundo, mas, principalmente, diante de si mesmo. Ser o herói e a esperança do mundo estão cobrando um preço muito mais alto do que a ingenuidade dos quadrinhos da Era de Ouro nos fizeram acreditar. Como símbolo, este Superman precisa arcar com os olhos de um mundo inteiro voltados para ele, para admirar ou para julgar. Seu medo de atravessar a linha sutil entre um herói e um tirano é o que dita o ritmo de todo o seu arco no filme. Ele tem medo de se tornar o Batman. Ele tem medo, sobretudo, de viver num mundo em que o Batman seja necessário. Ele precisa acreditar que os homens ainda são bons, que ainda existe uma ética maior regendo as civilizações, porque sabe que no momento que sua bússola moral deixar de apontar o Norte certo, ele será mesmo o deus ensandecido que seus críticos tanto temem.

E seu maior crítico é o Batman. Não era só marketing. Este é mesmo o Batman de Frank Miller. No visual, na idade avançada, na desesperança. O mundo que Bruce Wayne enxerga é tão cinza quanto as cores frias do filtro de Zack Snyder. Enquanto Superman se equilibra numa moralidade tênue, Batman já atravessou a linha muitas vezes. E ele não acredita mais que homens ainda podem ser bons. Esse é o cerne do conflito, o que a humanidade significa para cada um deles.

Na verdade, não existe uma razão única para o embate. O roteiro está o tempo todo propondo variáveis, muitas vezes com sutilezas dentro dos diálogos, mas tudo sempre retorna para o contraste moral entre a dupla de protagonista. O contraste entre a crença do Batman de que todo homem (ou super-homem) pode ser corrompido, e os valores ingênuos de um alienígena que quer acima de tudo estabilizar em si mesmo toda a bondade humana.

O drama filosófico apontado e montado nas diversas sequências de jornais e televisão (também isso um presente do Frank Miller) capta a essência dos dois personagens em cenas orgânicas que conseguem ser explicativas sem ser monótonas, cobrindo um longo período de eventos em poucos minutos. Assistir especialistas debatendo a existência do Superman na televisão normatiza automaticamente essa existência. É um recurso interessante e inteligente que consegue falar de muita coisa sem exaurir com diálogos desnecessários.

Quando Bem Affleck foi primeiro anunciado como Batman, eu também destilei meu desagrado pela internet. Nada muito dramático, mas tenho certeza que há em algum lugar um tweet perdido, dizendo como eu estava pessoalmente ofendido com a escolha. Eu estava enganado, é claro. Neste ponto, vou precisar recorrer ao chavão famoso dos fãs do Morcego: talvez não o Batman que queríamos, mas certamente o Batman que precisávamos. Nunca fui um entusiasta do trabalho do ator, e talvez continue sem ser por mais algum tempo, mas devo a ele a versão mais fiel, mais bem escrita e representada de um Batman para o cinema. À Bruce o que é de Bruce. Este Batman tem, de fato, uma grande dívida com Frank Miller, mas não só com ele. É, para mim, principalmente a versão encarnada do Batman das animações clássicas de Bruce Timm, estrategista, neurótico, muito mais focado no fim do que nos meios. Um homem adulto revivendo o filme inteiro o trauma da perda de seus pais. Bem Affleck entrega, assim, um herói cínico e sisudo, transitando entre o boêmio Bruce Wayne (a verdadeira máscara) e o inesgotável e implacável vigilante das sarjetas sujas e escuras de Gotham.


Henry Cavill, por sua vez, sem ter mais que lidar com a expectativa de seu primeiro filme, está muito mais à vontade em seu papel, nos entregando um Superman menos amargurado que no filme anterior, mais próximo da figura do escoteiro que consagrou o personagem. Entre as maquinações de Luthor e a ameaça de um vigilante implacável, este Superman ainda encontrou tempo para sorrir, revertendo o principal desagrado dos fãs do personagem com o que vinha sendo mostrado até aqui nos trailers. Não se preocupe, Clark Kent nem sempre é o sujeito carrancudo que o marketing nos fez acreditar.

Mais do que um fã do Superman, sou um fã de Clark Kent, o repórter. E aqui está algo que Snyder tinha ficado devendo em O Homem de Aço. Clark Kent, o repórter, no seu ambiente de trabalho, no seu relacionamento estável com Lois Lane, nas suas conversas com sua mãe ao pé da varanda, numa pacata fazenda em Smallville. Se você é fã desse Clark Kent, bem-vindo ao universo cinematográfico da DC, porque ele está vivo de novo.

"Procurando o monumento dele? Olhe ao seu redor".
Já Lois ainda tateia pelas bordas. Sem dúvida, conseguiram lhe dar muito mais significado e relevância neste filme, não só como jornalista, mas como o porto seguro do Superman também. É um avanço em relação a como a personagem foi retratada em O Homem de Aço, onde ela me pareceu forçadamente utilitária demais. Aqui, Lois investiga, como o Batman, e vai para o meio dos eventos, como o Superman. Ainda que não consiga se libertar da mesquinhez de uma donzela constantemente em apuros, ela consegue em certo ponto salvar Clark também.

Se a donzela aparece constantemente em apuros é por conta do Lex Luthor de Jesse Eisenberg. Sem dúvida não é aquele com o qual estamos acostumados. Ele é excêntrico, estranho, bipolar, muito mais jovem do que o esperado. Se veste como um milionário que se disfarça de mendigo. Na verdade, está muito mais próximo do cientista louca das suas primeiras versões do que do empresário bem-sucedido e megalomaníaco das versões mais consagradas. A megalomania continua, é claro. Ele quer dominar o mundo! Mais ou menos.

Se tirarmos todas as camadas, no entanto, o que nos leva a reconhece-lo como o Luthor é a essência principal de suas motivações: estamos diante de um homem incrivelmente inteligente que nunca aprendeu a lidar com o tamanho do seu ego e principalmente com o absurdo de sua inveja patológica de um Superman. Isso é Lex Luthor, senhoras e senhores. Em qualquer versão do personagem, é isso que prevalece e permanece, muito mais que um empresário ou um cientista louco, um megalomaníaco invejoso, que nunca quis destruir o mundo, ele quer salvá-lo, só que em seus termos, e antes do Superman.

A sua cena com o Superman no clímax do filme, no momento mais marcante do segundo ato, consegue com eficiência dimensionar um personagem gigante. Jesse Eiseinberg nos apresente ali um Lex sem precedentes no cinema. Ele foi criado ali. Naquela cena, para encenar aquele diálogo. E aqui, preciso creditar os diálogos ambíguos, metafóricos e multi-significativos escritos pelo vencedor do Oscar, Chris Terrio. O roteiro consegue amarrar a bagunça aparentemente desconexa do primeiro ato com uma única cena, sem precisar forçar em nada a ação dos personagens. O discurso de Luthor não é só uma explicação para quem não conseguiu acompanhar o desenrolar de seu plano, são as palavras de um menino mimado que passou o filme inteiro esperando pelo momento de humilhar aquela espécie de deus.


Não que fosse difícil de prever que era Luthor colocando os heróis um contra o outro, dá para ver desde o trailer, mas é neste momento que o cinema começa realmente a vibrar. Dali em diante, temos o tão aguardado embate. Algo que eu já não acreditava que um dia fosse ver numa tela de cinema.

Mas não é só Batman contra Superman. Muito mais importante que isso, no filme, é a origem da justiça. Neste sentido, os pesadelos e ilusões eram um mal necessário. Foi o modo mais orgânico que eles conseguiram propor para trazer a Liga da Justiça para dentro do roteiro.

Mas tem que se admitir que a confusão e estranheza geradas pela sequência do pesadelo no deserto, com a subsequente aparição de um Flash do futuro, prejudicaram o andamento do primeiro ato. Para quem vem acompanhando a produção desde seu início, não foi difícil conciliar a aparição dos para-demônios e aquele Batman de uma realidade distópica, mas o púbico mais geral provavelmente deve se sentir deslocado. Um sonho dentro de um sonho, que na verdade é um futuro provável. Não parece tão simples, não é?

As demais aparições dos membros da Liga, no entanto, são um espetáculo à parte. É divertido ver o Flash de Ezra Miller (outra escolha com a qual tive ressalvas) sendo flagrado pelas câmeras de vigilância, e assombroso ver a imponência de Jason Mamoa como Aquaman, surgindo como uma criatura das profundezas.


Visualmente o filme é encantador. Zack Snyder é de fato um diretor muito visual. Mesmo os seus críticos precisam concordar com isso. Não vou entrar no mérito de debater a má vontade dos odiadores profissionais de Zack Snyder, porque o estilo do diretor sempre me deixou entusiasmado. No entanto, algumas escolhas de filtro, principalmente, em Gotham, prejudicaram o desenrolar da ação. Não é fácil acompanhar, por exemplo, a longa sequência da perseguição com o Batmóvel. Em muitos momentos, tive que perder de visto o carro ou as explosões. É o tipo de coisa confusa que não se justifica meramente com estilo.

Dito isso, já canso de fazer o advogado do diabo e volto a falar do que é bom: nada estraga a grandiosidade de um épico construído sobre as bases morais dos dois super-heróis mais reconhecidos em todo o mundo e em todas as épocas. Poder finalmente ver Superman e Batman lado a lado (ou em lados opostos) no cinema é um mérito por si só.

O terceiro ato nos mostra a ascensão do Apocalypse, que remete ao controverso arco A morte do Superman. É aqui que a mágica realmente acontece. Garotos sozinhos, hoje em dia, não conseguem derrubar a grande ameaça de um filme de ação, não é mesmo? Isso é um trabalho para uma mulher. Nem um pássaro. Nem um avião. Nem mesmo um homem, é a Mulher Maravilha que rouba a cena na execução das últimas sequências (aplausos para Hans Zimmer e a incrível trilha Is She With You, com guitarra e tambores marcando o ritmo da ação ao melhor estilo Mad Max: Estrada da Fúria).

Embora, inicialmente o jogo de gato e rato utilizado como introdução da Mulher Maravilha possa parecer mera tensão sexual entre Bruce e Diana, o que realmente torna a inserção da personagem interessante é o foco que o roteiro dá a ela na principal cena de ação (beijo para Lois Lane).

Quão grandioso é poder finalmente ver a Mulher Maravilha, par romântico de ninguém, perfeitamente desleal ao clichê da donzela em apuros? O cinema começa finamente a pagar sua dívida com a maior super-heroína de todos os tempos. Vida longa a rainha.

E estamos aqui finalmente diante da trindade, em carne e glória.


Por meses, o filme amargou campanha contrária e baixas expectativas de venda, mas agora nada disso importa. Chega de espernear e bater os pés. As lendas estão vivas. Estão aqui, andando entre nós. E é isso que a maioria dos críticos de cinema não vão conseguir entender. Porque é para os fãs que esses personagens mais importam.

Se como obra cinematográfica, Batman v. Superman pode até errar em alguns pontos (não é perfeito, é quase perfeito...), como lenda, como evento de quadrinhos, é desleal comparar com qualquer outra coisa.

E se isto não é uma resenha, pode chamar de carta de amor.





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