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Critica: Caça-fantasmas


A rejeição ao material promocional do novo Caça-fantasmas foi algum tipo de efeito manada que partiu de um foco de desocupados e atingiu o resto da internet de maneira assustadoramente ampla. Não tenho a informação precisa, mas lembro que as notícias no dia seguinte ao lançamento do primeiro trailer já alardeavam fracasso: “trailer mais negativado da história do Youtube” e derivados.

Além da misoginia, o filme também sofreu um certo baque dos ditos puritanos da sétima arte, os que não admitem repaginação de clássicos e bradam aos quatro ventos virtuais o quão incomodado estão, o quão ofendidos estão e que sua infância está de alguma maneira sendo maculada. De modo que a reação morna da bilheteria era certamente esperada pela produtora, que entregou o filme aos leões, mas já confirmou uma continuação para os novos e cada vez mais frequentes fãs da franquia.

Embora relativamente mista, a crítica parece pender para o positivo e abraçar as novidades propostas pela nova trama, que traz um mal ancestral que parece espreitar das sombras de Nova York, de túneis de metrô sombrios a mansões mal-assombradas. Fantasmas estão sendo sistematicamente acordados de seu sono no além por um vilão tolo e socialmente rejeitado que almeja se tornar sinistro e castigar a humanidade por anos de humilhação. Sem disfarçar sua inclinação para o mundo trash, Caça-fantasmas, muito pelo contrário, se insinua o tempo todo com piadas de si mesmo.

Já na primeira cena, vemos gosmas cor de lodo borbulhando do subterrâneo e o humor ingênuo tirado de sustos tão característicos da franquia e da própria década de 1980.


Nossas protagonistas, também conhecidas como as fêmeas que vieram para colonizar o protagonismo masculino, aparecem então como a única solução a ser contatada. São elas: uma respeitada professora da Universidade de Columbia, Erin (Kristen Wiig), que vê sua carreira ir por água abaixo ao ser flagrada caçando assombrações num vídeo da internet. Abby (Melissa McCarthy, rainha do humor atual), amiga de infância de Erin, viciada em paranormal, entusiasta da caça a fantasmas e todo tipo de aberração. Holtzmann (Kate McKinnon), parceira de laboratório de Abby, uma engenheira, cujo hobby principal é criar armas de destruição plasmática. Fechando o quarteto, temos Patty (Leslie Jones), funcionária do metrô da cidade, recentemente perseguida em seu ambiente de trabalho por uma assombração.

Atendendo aos telefonemas do escritório, temos ainda o recepcionista/secretária Kevin (Chris Hemsworth), contratado por questões meramente decorativas, apesar de ser geralmente ingênuo e particularmente burro.



As mulheres na sessão suspiravam a cada reação burra (descritas pelo par de adolescentes sentado a minha frente como “fofas”) do Kevin de Chris Hemsworth. Abobalhado num sentido sensual, o personagem é o corpo estranho no meio de cientistas geniais que poderiam ser bem-sucedidas se não fosse por seus interesses no paranormal. Desse modo, Hemsworth, com sua veia cômica, é muitas vezes o destaque das cenas bem-humoradas. Não fazendo feio perto de um quarteto que é praticamente especializado no gênero. Por ser caricatamente burro, Kevin não chega a perceber os avanços das protagonistas que o objetificam do início ao fim da trama.

Por mais que não seja exatamente o foco do filme, as provocações ao haterismo sofrido pelas protagonistas são constantes no roteiro. A direção de Paul Feig (Missão Madrinha de Casamento e A Espiã que Sabia de Menos) brinca com a ideia de empoderamento a cada oportunidade. Já prevendo que o filme conquistaria um certo ódio gratuito ao inverter as posições (quarteto feminino em foco e um loiro burro, bonitão e objetificado como coadjuvante), o roteiro investe em piadas ao estilo guerra dos sexos, sempre reafirmando um discurso feminino, mesmo não necessariamente feminista. Seja por brincar ao ler comentários ofensivos no Youtube, seja por derrotar monstros atirando na virilha.


Na verdade, quem tornou o filme feminista foi justamente quem se preocupou demais com a dinâmica de quatro protagonista mulheres independentes e cientistas, isto é, os fakes das redes sociais, porque o roteiro, basicamente, só se preocupa em narrar uma divertida aventura de humor sobrenatural. O resto é cereja do bolo para quem quiser.

A grande jogada, no fim, foi trazer as personagens constantemente lutando contra a rejeição massiva do público nova-iorquino, que debocha de sua profissão, num paralelo à rejeição inicial do próprio filme.

Altamente divertido, no seu estilo bobo e autocrítico, Caça-fantasmas marca ainda mais pontos pela nostalgia e pelo respeito e referências aos originais. Não perca de vista Bill Murray, Ernie Hudson e Dan Aykroyd fazendo participações em momentos chaves do filme.

Diretor especializado. Elenco altamente competente, roteiro simples, divertido e transpassado por um quinteto de personagens carismáticos. Caça-fantasma agrada sem esforço o público desavisado e emociona os apaixonados pela franquia, mas certamente não deve conseguir forçar os odiadores profissionais a dar o braço a torcer.




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