Swift

Critica: A Lenda de Tarzan


A "Lenda de Tarzan" não é uma divertida aventura na floresta. É a principal informação sobre este filme. Na sessão em que eu assisti, tinha muita criança e penso que os pais podem ter imaginado esse Tarzan mais como um personagem da Disney, quando, na verdade, me parece mais próximo de sua versão da literatura. Embora, nem mesmo a obra de Edgar Rice Burroughs se esforce em ser tão literal quando o assunto é a violência animalesca da selva.

A Lenda de Tarzan não é uma divertida aventura na floresta, de jeito nenhum. Prefiro pensar esta história mais como um filme de ação montado a partir de muitas sequências de drama. Há muitos momentos de melancolia, principalmente, na primeira metade, há muito significado nos olhares do elenco e dos animais de computação gráfica, e há sequências tensas de violência.

Numa cena, por exemplo, vemos os pais do protagonista sendo massacrados pela fúria brutal de um grupo de primatas. Em outra, vemos muita violência gráfica atribuída a estrutura física dos gorilas, num confronto entre um deles e Tarzan. Dá quase para sentir os ossos do herói se partindo sob os punhos do macaco nesta cena.


O filme nem sempre funciona, há problemas de ritmo no começo do filme, mas quando funciona, pode ser memorável. As cores são lindas. A visão do diretor sobre a selva, os filtros, a fotografia. Há um cuidado realmente artístico com o produto final da imagem, com os enquadramentos, com um uso dos planos que acrescenta tanto para a beleza visual quanto para a história.

Visualmente, na verdade, é um filme muito bem construído. Mas a estrutura do roteiro me incomodou um pouco nos primeiros quarenta minutos. Fashbacks intermináveis intercalados com muitos diálogos que tentavam explicar tudo que já sabíamos sobre Tarzan ter sido criado por macacos nas selvas do Congo. 

Se Tarzan não é simplesmente uma trama de aventura nas selvas, é principalmente porque o diretor, David Yates, preferiu fazer um filme sobre o crime da colonização. E isso é a melhor coisa sobre esta história.

Tarzan, tanto nos quadrinhos quanto na literatura, sempre trouxe uma ideia de colonizador. É só pensar um pouco em quão simbólica pode ser essa noção de um homem branco crescendo entre animais selvagens e, mesmo assim, ascendendo como um lorde inglês no final. A premissa na base da mitologia de Tarzan sempre me pareceu a missão colonizadora. O homem branco deixando os confortos da Europa para tomar seu lugar de direito como rei entre bárbaros e animais.


Em A Lenda de Tarzan dá para perceber que a missão colonizadora se problematiza. Na trama, depois de anos vivendo como aristocrata na Inglaterra, ao lado de sua esposa, Jane (Margot Robbie), John Clayton III (Alexander Skarsgård) precisa voltar para o Congo, rever o mundo de sua criação e se tornar de novo um homem das selvas. Ele não sabe que seu retorno faz parte do plano do vilão Leon Rom (Christoph Waltz), evolvido numa trama de vingança. No Congo, Tarzan terá que lutar para resgatar Jane, mas, principalmente, para impedir a cobiça da colonização, que escraviza e descarta todo mundo no caminho de seus interesses.

Embora ainda tenhamos aqui Tarzan no centro de uma luta que deveria ser dos nativos (a noção velha de que os ‘selvagens’ precisam ser salvos, não podem vencer sozinhos), A Lenda de Tarzan evolui ao explorar no protagonista sua busca por pertencimento. É a jornada de Tarzan para proteger a cultura que lhe abraçou quando criança, que embora não seja inerente a ele biologicamente, é a herança de sua criação. É neste ponto que o filme fica mais interessante. Não é a jornada de um aristocrata perdido na selva (coitado!), criado entre animais (pobrezinho!), que está prestes a ser resgatado pelo progresso europeu. É a aventura inversa, de um homem que conheceu o mundo moderno, a cidade grande, e optou por ser ‘selvagem’.

Quando Jane diz, bem no início do filme, que sente saudades de casa, da selva, a mensagem fica clara. O tema ainda é colonização, mas por um viés muito mais contemporâneo e interessante, o viés da violência, da escravidão, da dominação cruel, tanto física quanto cultural. E o heroísmo de Tarzan se torna aqui o heroísmo da preservação.


Óbvio que o filme não é uma análise complexa dos absurdos do colonialismo nas sociedades africanas (ou sul-americanas, por associação), é um blockbuster afinal de contas, que precisa de tempo para focar na ação, mas sua mensagem não deixa de ser bonita e até um alívio.

Não há personagens difíceis na trama, em termos de atuação, mas vale elogiar o equilíbrio entre civilizado e selvagem na atuação de Alexander Skarsgård, o atrevimento característico da Jane de Margot Robbie e os alívios cômicos promovidos por George, personagem de Samuel L. Jackson. O elenco nativo também se destaca, em alguns pontos, emocionando ao representar sua própria cultura, geralmente descaracterizada nas produções hollywoodianas.

Seria injusto criticar Christoph Waltz, mas difícil afastar a sensação de que ele se especializou num tipo só de personagem. Toda vez que vou ao cinema, ele está fazendo algum vilão sádico e excêntrico. Competente toda vez, mas são muitas similaridades entre alguns de seus personagens. Incomoda um pouco, mas, certamente, não pode ser considerado defeito do filme.


A Lenda de Tarzan não deve fazer história na bilheteria. Não é um filme interessante para todas as idades nem tem um nicho tão expressivo como o dos filmes de super-heróis, mas é uma trama competente que vale o ingresso. 




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