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Resenha: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares



O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares passou por uma publicação mais ou menos turbulenta aqui no Brasil. A trilogia escrita pelo americano Ransom Riggs teve seus direitos rapidamente comprados para o cinema, para uma adaptação de Tim Burton, o que certamente colocou o título no radar das editoras nacionais. O primeiro livro da saga foi publicado pela Editora Leya, os outros dois, bem como um derivado de contos, foram publicados pela Editora Intrínseca, com acabamento e tratamento gráficos diferentes. A trilogia é composta pelos títulos: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, Cidade dos Etéreos e Biblioteca de Almas (além de Contos peculiares, o derivado, lançado este mês).

Em O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares (doravante Livro 1 e nada mais), somos apresentados a Jacob Portman, um pobre menino rico, meio desmotivado com a vida frustrante de nosso século, preguiçoso e meio descompromissado para com o emprego de meio período numa das diversas lojas pertencentes ao legado de sua família. Jacob não se identifica com o plano de vida proposto por seus pais e nem encontra em sua fortuna consolo para o tédio perpétuo. Só sente confortável ao lado do avô paterno, que desde sua infância lhe conta histórias incríveis e, até certo ponto, inacreditáveis sobre seus dias na guerra, caçando monstros (humanos e sobrenaturais) e protegendo seus amigos peculiares.

Jacob já havia crescido o suficiente para entender que seu avô vivia de contos de fadas. Toda sua família considerava o velho um caso perdido, atormentado por fantasias e pela loucura, de modo que o próprio Jacob também já começava a desacreditar do legado peculiar de seu avô. Até o dia que o velho é atacado por uma criatura bizarra e sobrenatural, deixando Jacob com a responsabilidade de realizar o seu último pedido: encontre a Ave no Orfanato, ele insiste.

Imagem da adaptação cinematográfica.  

O menino parece ser o único capaz de perceber a estranheza do caso. Assim, não muito diferente de seu avô, Jacob é considerado anormal e encaminhado a psiquiatria. Daí em diante, sua jornada começa.

Viajando para uma ilha próxima da Inglaterra, Jacob irá encarar o cenário das fantasias de seu avô ao lado das crianças peculiares do título (ele também é uma, como tenho certeza que vocês já adivinharam), lidando com viagens no tempo, com os horrores da guerra, da raça humana e de uma ou outra assombração. Veja bem, embora todo o contexto sobrenatural não seja descartado em nenhum momento da história, os monstros não são realmente o mais assustador do mundo peculiar. E esse talvez seja o principal mérito deste universo ficcional proposto por Ransom Riggs: uma aproximação constante do fantasioso e do grotesco com a realidade do horror imposto pela própria humanidade.

Os antagonistas da trama, chamados de acólito (quando mais ou menos humanos) e etéreos (quando monstruosos) não diferem muito em seus métodos e ideais das filosofias nazistas e demais totalitarismos, o que certamente não é coincidência, já que grande parte da trama se passa em meio a Segunda Guerra Mundial e os acólitos até se utilizam da estrutura militar nazista para alcançar seus fins.


A própria peculiaridade da maioria dos protagonistas carrega essa ambiguidade entre o fascínio e o aberrante, suas habilidades podem parecer úteis em certos contextos, mas também podem facilmente se tornar um fardo. Jacob vê assombrações, o que pode salvar a vida dele caso uma decida arrancar sua garganta, mas também foi o que o levou a psiquiatria. Enoch é capaz de trazer os mortos a vida, mas para tanto, precisa tirar uma vida de valor equivalente. Millard é um menino invisível e, embora existam vantagens em passar despercebido, não ter a sensação visual de seu próprio corpo em alguns momentos da trama parece abalá-lo. Horace tem sonhos premonitórios, mas a maioria só o deixa confuso ou apavorado. Até peculiaridades aparentemente mais úteis como a de Emma, que produz chamas com as mãos, ou a de Bronwyn, força avantajada, se revelaram pesadas de se carregar quando a primeira foi sequestrada por um circo e a segunda matou acidentalmente o padrasto abusador.

Então, se tivéssemos que pensar a fantasia de Riggs como um Conto de Fadas, seria algo mais parecido com um original dos irmãos Grimm.

Imagens retiradas do livro.

Embora eu possa citar muitos méritos criativos da obra (a inserção de imagens reais, quase nunca alteradas digitalmente, para compor o universo da trama, por exemplo), narrativamente a trilogia tem alguns problemas. O primeiro livro tem um caráter reflexivo, concentrando praticamente toda a ação da trama para o final. O que considero uma decisão acertada. A cadência do Livro 1 passa uma sensação de naturalidade confortável com o fantástico ainda sendo apresentado pelo autor, mas essa cadência e naturalidade narrativas não se repetem nas duas sequências.

Cidade dos Etéreos, o título intermediário da trilogia, é basicamente uma sequência ininterrupta de ação com poucos pontos de respiro. Estratégia eficiente para nos manter apreensivos e sem fôlego, mas que, em certo sentido, deixa a desejar em conteúdo. Parece ser o mal da literatura pensada como roteiro de cinema. Pouco aprofundamento, às vezes. O que não incomoda todo mundo, mas me deixou exausto e incrédulo em diversas partes. A história parece superar os personagens e deixá-los para trás. A narração em primeira pessoa pouca faz aqui para nos lembrar dos sentimentos de seu protagonista em relação ao mundo desgastado pelos horrores da guerra em andamento.

Biblioteca de Almas, por sua vez, embora recupere um pouco da cadência do Livro 1, insiste em situações forçadas para consertar furos na trama e as constantes mudanças de humor do autor.

Imagem retirada do site da Editora Intrínseca.

Ramsom Riggs nunca teve uma ideia muito clara e completa do que queria fazer quando decidiu compor uma trilogia (na verdade, a ideia para o mundo dos peculiares surgiu de fotografias antigas, um dos grandes interesses do autor). Riggs é o tipo de escritor que vai inventando os fatos à medida que acontecem. O que é válido. No entanto, essa falta de planejamento, confessada pelo próprio autor numa entrevista que veio junto do segundo livro, dificultaram minha experiência com a obra diversas vezes ao longo da história, mais precisamente nos dois últimos títulos.

Por exemplo, dois grandes fatos estabelecidos no primeiro livro (a motivação dos antagonistas era um deles) tiveram que ser revistos e contraditos nos livros seguintes, simplesmente porque o autor mudou de ideia. Desfazer o que já foi feito, embora não seja uma tarefa impossível, certamente não é das mais fáceis, e as explicações propostas pela trama não convenceram muito bem.

Depois de um excelente livro de estreia, a trilogia não se sustenta tão firmemente nas bases do primeiro título, terminando com algumas conclusões forçadas e outras simplesmente esquecidas. Riggs criou um universo fantástico bastante original, rico e amplo, mas nem sempre soube exatamente o que fazer com tudo isso (talvez por problemas de prazo). Apesar dos problemas narrativos como trilogia, O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares é um achado interessante no meio do número sem fim de livros-roteiros para o público jovem. Tem uma alma de originalidade em seu conceito, mesmo que se desenvolva com os clichês do gênero.   

Notas:

* O primeiro livro será republicado com nova tradução agora pela Editora Intrínseca, mantendo o acabamento do resto da série.

** Como dito, O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares será adaptado para o cinema por Tim Burton, com lançamento previsto para 29 de Setembro. O título do filme será Lar das Crianças Peculiares.


*** Seguindo a nova tradução da Editora Intrínseca a série passará a se chamar O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Os motivos para a mudança podem ser lidos no site da editora, neste link.


Ramsom Riggs cresceu na Flórida, mas hoje em dia mora em Los Angeles com sua esposa, a também escritora Tahereh Mafi. Tem verdadeira paixão por fotografias antigos e por tirar fotos novas, por viagem, cinema e exploração de mapas. Seu site oficial pode ser encontrado clicando aqui.

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