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Crítica: O Lar das Crianças Peculiares


Tim Burton e seu visual cinematográfico inconfundível estão de volta em mais uma adaptação literária. Depois do morno Alice no País das Maravilhas, que tem uma belíssima direção de arte, mas não parece fazer muito em termos de expansão da história, o diretor aposta agora em uma adaptação da trilogia O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs, já comentada aqui.

O primeiro longa, cujo título em português foi encurtado para O Lar das Crianças Peculiares, colocando para escanteio o relativo protagonismo da Srta. Peregrine, diretora do orfanato, saiu finalmente nos cinemas brasileiros no dia 29 de setembro e tem mantido uma bilheteria bastante sólida até aqui.

Na trama, Jacob Portman (Asa Butterfield), herdeiro de uma franquia milionária de lojas de departamento nos EUA, viaja para uma ilhota parada no tempo nas proximidades da Inglaterra para se reconectar com as origens do seu recém-falecido avô. Nas histórias confidenciadas por seu avô sobre sua infância naquele pedaço esquecido do mundo, sempre se destacava o velho orfanato da ilha que abrigava um grupo inusitado de crianças com habilidades especiais, sobreviventes da Grande Guerra. Lá, nos destroços do velho prédio que acolheu um jovem vovô Portman, Jacob descobre os segredos de suas próprias habilidades especiais e da existência das chamadas crianças peculiares, seguras no passado através de uma fenda no tempo, que sempre repete um mesmo dia infinitamente.


A partir daí, numa mistura não muito bem-sucedida de X-men com Harry Potter, Jacob e seus novos amigos peculiares vão ter que se utilizar de seus poderes inusitados para sobreviver à ameaça de uma facção mal-intencionada dentro da própria sociedade peculiar.

Em tese, nunca é muito justo comparar a adaptação com seu material de origem, mas O Lar das Crianças Peculiares fica devendo em diversos aspectos a sua fonte, o que leva o filme por um marasmo de superficialidade que elimina da trama qualquer vestígio de metáfora ou de reflexão sobre o papel da peculiaridade no nosso mundo transpassado pela diferença e, em muitos sentidos, pela negação dessa diferença.
    
Como adaptação, O Lar das Crianças Peculiares deve decepcionar os fãs da trilogia literária. Toda a sequência final, por exemplo, é reinventada para solucionar o problema do final aberto do primeiro livro, o que é louvável em termos de iniciativa, mas a execução é quase cômica, investe em muito mais humor que em soluções inteligentes para o suspense, o que corta parte do clima de tensão que o roteiro vinha tentando construir. A personalidade de Emma, protagonista feminina e par romântico de Jacob, está descaracterizada, de uma jovem forte, cabeça-quente (reflexo do seu poder de manipular o fogo, no livro), protetora e audaciosa, temos apenas o nome. No filme, Emma não manipula o fogo, sua habilidade agora tem a ver com manipulação do ar, uma adaptação da habilidade de uma outra personagem do livro, Olive, que levitava. Essas questões mais evidentes, no entanto, poderiam facilmente ser superadas, se o roteiro mostrasse mais interesse pelos temas desenvolvidos nos livros. Não vemos a difícil relação entre Jacob e seus pais sendo aprofundada (quase sempre é utilizada como recurso de humor, abobalhando o já muito tolo pai do protagonista). A sensação de estranheza que Jacob devia sentir perante sua realidade também não nada muito abaixo da superfície. A peculiaridade como estranheza e incômodo não parece relevante para a história do filme.


À luz do livro, a adaptação de Tim Burton realmente não é de todo satisfatória. Se não pensarmos demais no original, também não é um filme muito interessante também. O roteiro não administra muito bem a variedade de personalidades do grupo, deixando todos os personagens como protótipos ou adereços de seus poderes. No sentido de que eles estão ali para em algum momento usar sua habilidade de maneira extremamente específica durante uma luta ou uma fuga. Como se os personagens não tivessem muita escolha ou utilidade como personas, estando sempre a mercê da história que está sendo contada, diga-se de passagem, de maneira muito mais corrida do que seria o confortável.

Construído em cima dos clichês do gênero, o filme não estimula realmente a curiosidade nem se esforça com as reviravoltas (algumas delas podem até ser vistas no trailer).

As atuações do elenco infantil parecem corretas e sem muitas firulas. No elenco adulto, Samuel L. Jackson, na pele do vilão, e Eva Green, na pele da Srta. Peregrine, são competentes, mas infelizmente não chegam a apresentar nada muito especial.


Não me sinto inteiramente à vontade quando tenho que negativar qualquer coisa em texto. Assim, geralmente opto por resenhar obras que me agradam pelo menos no mínimo (sou monótono a esse ponto). Acho desleal em certo sentido, pois às vezes me soa como tática de desestímulo. Assim, cabe, ao menos, elogiar aqui os acertos visuais do filme.

Como toda obra de Tim Burton, a questão visual – fotografia, figurino, cenário, a própria atmosfera dos peculiares que oscila entre o mágico e o grotesco – é lindamente capturado pelo olhar artístico do diretor. Os figurinos meio bizarros meio intrigantes, que reencenam um mundo de contos de fadas com traços da paranoia do mundo real, é o ponto alto do filme, praticamente vendendo a obra desde o trailer.

O Lar das Crianças Peculiares não funciona realmente como transcrição de uma obra para as telas. Como filme, derrapa em clichês, mas diverte (embora não o tempo todo). Como conto infantil, no entanto, funciona até que bem. Divertido, fantasioso e estimulante para a imaginação do público mais jovem, o filme deve ganhar uma continuação ainda mais discrepante em relação aos originais, já que não plantou de maneira significativa as sementes para desenvolver o enredo apresentado nos dois outros livros.


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