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CLAMP: Mais de 30 anos e muito talento


Um belo dia um grupo de garotas - 12 especificamente - decidiram se reunir e produzir doujinshis para serem vendidos em feiras especializadas. Dessa união, surgiu um dos maiores grupos de mangakás da atualidade: CLAMP.

Sua origem se deu por volta de 1984 quando o grupo resolveu criar paródias sexuais de mangás famosos como Shurato, Cavaleiros do Zodíaco, Captain Tsubasa voltados para o gênero yaoi. Mas você deve estar se perguntando o que é yaoi ? Simples, são mangás onde o foco é a relação amorosa entre dois homens.

Tal gênero foi criado em meados da década de 70 por mangakás mulheres como uma forma de ironizar a visão machista existente nos mangás daquela época, sob o nome de shonen-ai. Ponto esse importante na qual precisamos explicar. O gênero yaoi é uma ramificação do shonen-ai. Enquanto no ocidente o yaoi, é usado para descrever o gênero como um todo, no oriente há uma pequena diferença.


Shonen-ai é usado para descrever títulos que focam mais no romance e não inclui conteúdo sexual explícito, tal termo é usado para se referir há uma história entre garotos que pedem do platônico para o romântico. Já o yaoi é uma evolução desta, que se popularizou na década de 80, onde as histórias possuem conteúdo sexual explícito.

Após, essa pequena explicação sobre o termo, seu segundo questionamento deve ser: Porque raios essa pessoa está explicando o que é yaoi numa matéria sobre o CLAMP ? Fácil. Nós precisamos entender o termo que basicamente foi o alicerce do grupo e que até hoje continua a ter uma voz ativa em suas obras.

Dito isso, em 1989, o primeiro trabalho do grupo foi publicado: RG Veda. Nessa época, o número de membros já havia sido reduzido para sete e, em 1993, mais três saíram. Restando, ao todo, quatro membros que lideram o grupo até hoje: Ageha Ohkawa (líder do grupo e chefe de roteiro); Satsuki Igarashi (coordenadora de produção e auxiliar na ilustração de mangás); Mokona (ilustradora chefe) e Tsubaki Nekoi (co-diretora do grupo e responsável por corrigir as ilustrações).
O quarteto fantástico: Satsuki Igarashi, Tsubaki Nekoi, Ageha Ohkawa e Mokona (da esquerda para direita)
Apesar de parecer pequeno para a alta quantidade de trabalho, o "quarteto fantástico" - como são conhecidas -  diz não ser necessário aumentar a equipe. Dividindo o mesmo espaço de trabalho há mais de 30 anos, a sincronia e parceria entre essas mulheres, tem nos agraciado com obras como Guerreiras Mágicas de Rayeart, Sakura Card Captors, Chobits, xxxHolic, Kobato, X/1999 etc. 

O sucesso do grupo se deve ao fato de conseguir conciliar beleza gráfica com enredos fortes. Tornando-se essa sua marca registrada. Particularmente, o que mais aprecio no CLAMP são a contextualização de suas histórias, por exemplo, em Guerreiras Mágicas de Rayeart somos apresentados a universo totalmente inspirado nos jogos de RPG, em Chobits o pano de fundo é a discussão sobre Inteligência Artificial, ou ainda em RG Veda onde a trama é totalmente inspirada na mitologia grega e hindu.


Para muitos, suas histórias podem parecer romances açucarados mas estão enganados. Os enredos de Ogeha sempre são preenchidos por algum tipo de critica social e questionamento filosófico. Além disso, os personagens são acinzentados, cheios de camadas -  os personagens mais inocentes pode se tornar os mais cruéis ou o vilão da história ser na verdade o herói desta.

Não posso afirmar que o CLAMP foi o percursor em trazer temas tão adultos aos seus mangás, até porque seria mentira. Mas foi através deles que  eu tive contato com assuntos como quebra do papel de gênero - quem não lembra do pai de Sakura e de Touya exercendo atividades como costurar, limpar a casa ou cozinhar (antes consideradas atividades plenamente femininas) serem exercidas com tamanha naturalidade. Ademais, quem lembra de ler um mangá onde três guerreiras são as responsáveis por proteger uma princesa.


Esse é apenas um dos assuntos abordados em suas obras. Além dele, a representatividade - assunto que o grupo sempre fez questão de trazer a tona em suas obras seja de maneira aberta ou mais sútil, sendo RG Veda um belo exemplo - a conduta do ser humano perante a sociedade e a ele mesmo belamente exemplificado em X/1999 e Chobits ou até mesmo questionamentos filosóficos relacionados a liberdade, religião etc.

Lógico que ao abordar temas considerado "polêmicos", o grupo não escapou de certas problematizações. Insinuações de pedofilia ou incesto em suas obras, assim como, o uso de 'queerbating' já foram amplamente criticados e ainda são bastante discutidos. Sobre tal fato o grupo nunca se manifestou.

Analisando como um todo, a escolha do CLAMP em trazer para suas histórias o fator 'pensar' fez o que ele é hoje. Abordando os mais diversos temas eles conseguem transitar entre os mais diversos segmentos e públicos como shoujo (voltado para garotas abaixo dos 15 anos), shonen (voltado para garotos abaixo dos 15 anos) e até oseinen (voltado para jovens adultos na faixa dos 20 anos).

Tais escolhas nem sempre serão bem recebidas e criticas ocorrerão (dependendo da razão até justificáveis), no entanto, foi por este caminho que o grupo teve sua ascensão e se consolidou no mercado. Através dele, o cenário dos mangás mudou. O protagonismo feminino ganhou mais espaço, assim como, as histórias com mais significado e profundidade.

Por fim, o que posso dizer é que se vocês querem adentrar no mundo dos mangás ou se já são deste mundo e procuram personagens cativantes, enredos bem construídos e um universo apaixonante. Tudo isso envolto em uma arte de cair o queixo. Qualquer obra do grupo é a escolha certa para você. O que você está esperando pegue logo uns dos mangás aqui mencionados e adentre neste incrível mundo!

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