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Crítica: Doutor Estranho


Como parte da iniciativa da Marvel de expandir seu universo cinematográfico, Doutor Estranho, um dos principais personagens místicos da editora, foi anunciado com certo alarde e recebido pelos fãs como uma promessa de renovação. A internet, sempre inclemente, já vinha acusando as produções da Marvel de mesmice desde do criticado Vingadores – A Era de Ultron.

Com Doutor Estranho, novas portas, novos temas, novas estruturas narrativas prometiam se abrir, mas quando as apostas são muito altas, nestes tempos de discussões acaloradas nos fóruns de internet, há sempre muito espaço para se decepcionar. De maneira semelhante ao que ocorreu com Esquadrão Suicida, da produtora concorrente, toda expectativa em torno da originalidade da proposta (vilões no comando, no caso de Esquadrão Suicida, e a abordagem mágica, no caso de Doutor Estranho) parece ter levado a uma recepção morna (embora, no geral, positiva) dos fãs que, como de praxe, repetem o mantra de que esperavam mais.

Por não ser tão popular quanto Vingadores, X-men ou Homem-Aranha, trindade de vendas da Marvel, Doutor Estranho pode ter pego boa parte do público de surpresa, mas a trama trata, em suma, da história de Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um médico arrogante, pouco tolerante para a inépcia ao seu redor, que perde, em um acidente, a firmeza de suas mãos. Em busca de uma cura e de restabelecer sua carreira, Strange viaja ao Oriente e descobre os segredos místicos deste mundo, guiado pelo misterioso Ancião (no filme, uma mulher ocidental interpretada por Tilda Swinton). Daí em diante, forças do mal, sempre à espreita, decidem destruir toda a realidade como a conhecemos, cabendo ao nosso herói desenvolver suas habilidades o mais rápido possível para deter a ameaça.


Como a sinopse já demonstra, em termos de narrativa e estrutura, Doutor Estranho não vai muito além dos super-heróis apresentados até aqui, tanto pela própria Marvel quanto pela concorrente, DC. Ainda somos apresentados à história de um sujeito excepcional tendo que sobrepujar seu ego (para outros heróis pode ser o medo, a insegurança, algum senso de dever ou um tipo de trauma) para salvar o destino da humanidade dos interesses malignos de um terrível vilão. Mas Doutor Estranho investe numa mitologia mágica, o que o separa do foco científico que vimos até aqui. Não há soros nem cientistas loucos, ao invés disso, mantras e feiticeiros mais ou menos perturbados e gananciosos.

Visualmente, por outro lado, o filme traz conceitos interessantes para o gênero. A utilização harmoniosa dos efeitos visuais, não como meros adereços que vislumbram os olhos, mas como parte integrante da narrativa, é um trunfo importante da produção. Principalmente, se consideramos o baixo orçamento de filmes como Deadpool e as críticas ao excesso dos efeitos visuais nas grandes produções.

Na primeira cena, por exemplo, vemos um combate instigante entre a Anciã e o vilão Kaecilius (Mads Mikkelsen), onde o cenário e os efeitos visuais interagem com a história e as habilidades dos personagens em cena. Infelizmente, as cenas seguintes logo tratam de colocar o filme de volta nos trilhos de uma narrativa convencional, com o humor já característico do universo Marvel brindando alguns, mas incomodando outros tantos que esperaram uma proposta mais séria para esse tipo de personagem. O desenvolvimento de Stephen Strange como personagem, embora coerente, não consegue fugir das comparações evidentes com o Tony Stark de Robert Downey Jr.


Com atuações corretas, mas nem sempre empolgantes, e pouco destaque, na verdade, para nomes de peso e talento como Mads Mikkelsen, Benedict Cumberbatch e Chiwetel Ejiofor, é mesmo Tilda Swinton quem se destaca no seu tão pouco convencional (alguns podem até achar inconveniente) papel de Anciã.

Em suma, Doutor Estranho mantém o status quo do Universo Cinematográfico da Marvel, certamente um filme de altas bilheterias e de diversão garantida, como seus antecessores, agradando aos fãs do gênero, sobretudo, os fãs da Marvel dos cinemas, mesmo que não todos os fãs de quadrinhos. A sensação de decepção que parece estar cada vez mais associada as novas produções do gênero pode ser culpa das promessas sem fundamento do marketing, sempre anunciando o próximo clássico de super-heróis, sem que as produções tenham muito interesse de se arriscar com outras estruturas. 



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