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12º Natal com o Doctor Who: The Return of Doctor Mysterio


Criada em 1963, Doctor Who é até hoje a série de ficção científica mais importante da televisão britânica, fazendo estranhezas e histórias do absurdo parecerem palatáveis para um público de todas as idades, com roteiros inventivos e muita liberdade imaginativa, já tendo contado com as ideias de alguns dos mais influentes escritos britânicos, como Neil Gaiman e Douglas Adamas. Com temporadas geralmente curtas, pelo menos para os padrões norte-americanos, Doctor Who popularizou o investimento em episódios especiais, geralmente focados em feriados importantes, para encurtar os longos períodos entre uma temporada e outra. E aí que entraram os hoje tão tradicionais especiais de Natal da série.

2016 foi um ano de saudades para os fãs, sem o prazer de uma temporada nova, o que deixou muita responsabilidade em cima do especial de Natal que foi ao ar na semana passada. Apesar de frequentemente criticado por uma parcela mais saudosista dos fãs, o roteirista e showrunner, Steven Moffat não faz feio em The Return of Doctor Mysterio, sabendo dosar as expectativas de uma temporada inteira e a necessidade de dar sentido ao episódio de Natal passado, quando nos despedimos de River Song, a esposa do Doutor.


Embora não tenha sido um especial de Natal dos mais tradicionais (o Natal só protagoniza os primeiros 10 minutos), neste texto, vamos conversar um pouco sobre as circunstâncias inusitadas que levaram os whovians esperarem mais pelo Doutor que pelo Papai Noel neste Natal. Sem árvores natalinas assassinas dessa vez, mas ainda com a ideia fixa de que todos os alienígenas do universo querem dominar a Terra, The Return of Doctor Mysterio traz ainda uma linda homenagem a um outro homem de capa vermelha, o Superman.

"Clark Kent e Superman são a mesma pessoa", Doctor Who.
Com a perda de River Song, o doutor se afastou das responsabilidades de patrulhar o universo e ter que acabar toda vez, de um jeito ou de outro, indo salvar a Terra. Mas se alguém já vem salvando a Terra de ameaças alienígenas por 36 temporadas, chega sempre uma hora que o hábito vence a melancolia.

No início do episódio, somos apresentados ao pequeno Grant, um garoto relativamente introvertido, que deixa o Doutor entrar pela janela de seu quarto, quando o confunde com o Papai Noel. Grant é apaixonado por super-heróis, está cheio de quadrinhos espalhados pelo quarto e o Doutor, não sem certo espanto, acaba descobrindo ao ler uma delas que Clark Kent é a identidade secreta do Superman. Como toda boa história de super-herói, então, o episódio começa com um acidente idiota para explicar a origem dos superpoderes de Grant. E é tudo culpa do Doutor dessa vez, que meio que confunde um cristal intuitivo capaz de realizar os maiores anseios do portador com uma pílula para dor de cabeça. Ao engolir a “pílula”, Grant continua com dor de cabeça, mas começa a desenvolver as habilidades do Superman.


Daí em diante a história avança 24 anos para conhecermos os análogos de Lex Luthor (um empresário que tem seu cérebro literalmente substituído por uma consciência alienígena que, pasmem!, quer dominar o mundo), Lois Lane (Lucy, uma jornalista intrometida por quem Grant é secretamente apaixonado) e do próprio Superman (The Ghost, basicamente Grant sem óculos de grau e vestindo uma capa). Para qualquer fã de quadrinhos, The Return of Doctor Mysterio é um deleite para os olhos e para a nostalgia. Moffat escreve como um fã, enaltecendo os estereótipos que pareceriam ridículos se não tratados com tanto respeito. As habilidades exageradas de The Ghost, mais poderoso até que sua fonte de inspiração, suas roupas espalhafatosas, a identidade civil atrapalhada e insegura, supervilões discursando sobre seus planos. É tudo tão nostálgico e ingênuo, ao mesmo tempo que bem construído e estruturado, que só me faz considerar: por que os maneirismos do universo dos quadrinhos demorou tanto a se integrar ao teatro de absurdos do universo do Doutor? Digo isso, principalmente, porque vi com um misto de incredulidade e desespero uma parte expressiva do fandom, sempre tão engajados em odiar Moffat, desacreditar o plot do episódio desde o seu trailer. A verdade é que o próprio Doutor é um super-herói das antigas, dá para enquadrar sua nave espacial no formato de uma cabine azul de polícia, suas roupas inusitadas e sua chave de fenda sônica perfeitamente nos quadros amarelados de uma revista antiga de super-herói.


Para esses, que tanto desprezam a megalomania dos roteiros de Moffat, há o consolo de The Return of Doctor Mysterio de fato retornar a proposta mais descontraída da fase de Russel T. Davis, já que não é difícil traçar alguns paralelos entre este episódio e The Christmas Invasion, pelo menos no que concerne ao tom e ao tema, ambos tendem a leveza e descontração, mas sem ignorar o peso da cronologia da série. Do mesmo modo que o Doutor de David Tennant, em 2005, renascia de uma regeneração, o doutor de Peter Capaldi, também está em busca de consolidar sua identidade após a perda. É sobre começar de novo tanto quanto uma regeneração.

"Tudo acaba. E é sempre triste. Mas tudo começa de novo também... e isso é sempre divertido", Doctor Who.
Outro ponto alto do que promete ser uma nova fase da era Moffat é o retorno de Nardole, o primeiro acompanhante não-humano em muito tempo. Nardole é tanto bobo e ingênuo, do tipo que se distrai facilmente (“Olhe, um elefante!”), mas também consegue ser perspicaz e útil, como quando dirige a TARDIS sozinho e parte ao resgate do seu chefe. Como dito pelo próprio showrunner, Nardole não foi criado para ter assim tanta importância na trama, mas o bom desempenho do personagem e de seu intérprete, Matt Lucas, foi ganhando naturalmente mais espaço na história. E nós só temos a agradecer por uma TARDIS cada vez mais dinâmica.

The Return of Doctor Mysterio consegue cumprir a dupla jornada de entregar um bonito e esperançoso especial de Natal, com as típicas mensagens de amor, paz e prosperidade que os festejos natalinos pedem, além de dar significado mais amplo a encarnação do Doutor vivida por Peter Capaldi, que parece cada vez mais a vontade no papel, subindo ao status de Doutor preferido de muita gente (pelo que andei lendo nos fóruns internacionais). Capaldi consegue dosar com maestria os trejeitos do doutor louco com a seriedade da função do personagem para o mantimento da paz no universo, sendo tanto tolo, para as cenas de humor, quanto ameaçador, para os momentos de combate.


Com um elenco afiado, que conta ainda com Justin Chatwin, no papel de Grant, e Charity Wakefield, no papel de Lucy, um roteiro divertido (mais pé no chão e tradicional, eu diria) e a promessa de uma nova temporada eletrizante (afinal, um ano de pausa não se justificaria sem um retorno melhor trabalhado e coeso que a temporada anterior), The Return of Doctor Mysterio é tanto uma homenagem ao universo dos super-heróis quanto a própria mitologia do Doctor Who, que o Moffat, confesso, de vez em quanto gosta de jogar de ponta a cabeça. Com um sorriso contagiante no rosto e uma piscadela para os céticos, este especial de Natal se encerra com um empolgante comercial do que vem por aí. Não sei vocês, mas eu não vejo a hora de conhecer a adorável Bill, a vendedora de batata frita, que irá preencher o espaço deixado por Clara como acompanhante principal.




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