Swift

Crítica: 3%


A primeira produção brasileira do aclamado serviço de streaming Netflix, 3%, chegou no último final de semana envolvida em expectativas e, da parte da maioria, em muita torcida para que desse certo. 3% teve uma jornada curiosa, tendo sido apresentada ao público pela primeira vez em 2011, no Youtube, com um episódio piloto de produção independente. A série caiu nas graças dos internautas por sua proposta inovadora, já que o próprio gênero da ficção científica se desenvolve tão perifericamente no cenário nacional, enfrentando a concorrência desleal das produções norte-americanas, mas parecia ter sido relegada ao esquecimento, até ser salva pela Netflix.

Com já uma semana desde a liberação de sua primeira temporada, tenho lido por aí críticas mistas, às vezes cínicas, desleais ou desregulares, pensando 3% mais friamente do que seria realmente apropriado, já que convém sim, nesse caso, considerar o lugar de produção, considerar quão representativo pode ser um primeiro investimento internacional nas ideias do nosso país, convém, principalmente, jamais esquecer seu baixo orçamento, pouco mais que 10 milhões de reais para a produção de 8 episódios. A nível de comparação, basta dizer que essa quantia não pagaria nem o salário de Kevin Spacy em House of Cards (nem o fio de uma de suas gravatas, sendo mais específico).


Nesse sentido, a verdade é que 3% fez chover com seu orçamento reduzido, trazendo para a tela um cenário distópico crível (até certo ponto) e uma gama variada de personagens (uns melhor desenvolvidos e interpretados do que outros, é verdade).

3% narra as condições alarmantes de uma sociedade futura em franca decadência social, econômica e, principalmente, moral. No contexto da série, 97% da população vive em extrema pobreza e degradação no lado do mundo conhecido como Continente. Os outros 3% vivem isolados, protegidos pelo oceano, no chamado Maralto, jamais visto e apenas sonhado, pelo menos do lado dos desfavorecidos. Todo cidadão do Continente, o lado de cá, tem uma única oportunidade na vida de atravessar para o lado de lá e ascender socialmente. Isso acontece sempre que um indivíduo completa 20 anos, sendo ele, então, submetido ao Processo, uma longa sequência de testes, muitas vezes de vida ou morte, que irá determinar quem tem mérito para viver entre os melhores e usufruir dos benefícios do progresso e quem deve ser devolvido a miséria, sem chance de retorno, sem possibilidade de tentar outra vez. Como uma alegoria para o vestibular, só que levado às últimas consequências.


Nesse cenário, destaca-se ainda a Causa, uma organização dita revolucionária que questiona a divisão aparentemente desleal dos recursos e vem tentando, ano após ano, desmembrar o Processo com o apoio de candidatos infiltrados.

Amplamente comparado com distopias adolescentes como Jogos Vorazes e Divergente, 3% tem muito pouco a ver, em essência, com as séries cinematográficas/literárias citadas (cujas tramas são geralmente conduzidas na direção de um triangulo amoroso). Se o primeiro Jogos Vorazes mostra uma longa prova de sobrevivência na selva, o Processo de 3% traz testes efetivamente subjetivos focados na seleção da personalidade ideal, do intelecto ideal, das condições civis ideais, com entrevistas, debates, cenários analíticos e racionamento alimentar.

A alegoria política apresentada na trama ultrapassa os binarismos de Esquerda e Direita, trazendo uma conjuntura não maniqueísta, muito além do frequente “nós contra eles”. Embora a meritocracia dos conservadores seja o que aparece mais na superfície da proposta da história, a trama, à medida que se aprofunda e se complica, problematiza toda a moral de nossa sociedade constituída. Até que ponto os meios extremos dos revolucionários são benéficos para aqueles que tem uma chance, uma única chance, de ascender? A injustiça (e até certo ponto aleatoriedade) do Processo está às claras desde o primeiro episódio, desde a fala dos funcionários, desde o momento que se evidencia que o mérito, tão pregado pelos habitantes de lá, está firmado em igualdade ao invés de justiça, mas até que ponto podemos defender a justeza da Causa, que também mata, que também ilude, que, principalmente, também manipula e se beneficia do luto e dos sonhos dos candidatos?

Entre os personagens centrais da trama, temos Michele (Bianca Comparato), Rafael (Rodoldo Valente), Joana (Vaneza Oliveira) e Fernando (Michel Gomes). Candidatos ao Processo, é através das experiências deles que acompanhamos e descobrimos as provas e a estrutura social por trás da utopia do Maralto. Além deles, temos o coordenador do Processo, Ezequiel (João Miguel), que começa tentando emular uma fachada de paciência e equilíbrio emocional, mas que parece cada vez mais desequilibrado à medida que a história avança. Vale destacar aqui também a proporcionalidade racial do elenco, que realmente se propõe pensar a diversidade e a multiculturalidade inerente a nossa identidade como nação.

A questão das atuações é realmente desproporcional na série. O Brasil vem de uma tradição em novelas e em séries de comédia, mas ficção científica ainda é um gênero periférico em nosso país.


O primeiro episódio da série, por exemplo, destaca-se realmente como o mais fraco, em termos de atuação, muitos diálogos saem forçados, com uma dicção muito parecida com dublagem de trabalhos norte-americanos, às vezes, realmente passando uma sensação incômoda, como se algumas situações ficassem melhor interpretadas em inglês. Isso vai sendo corrigido e melhor administrado com o avançar da temporada, mas nunca é solucionado de todo. Podemos destacar João Miguel e Vaneza Oliveira como os mais consistentes do elenco, ele, por sua experiência, ela, como a personagem mais carismática e realmente ligada ao público de forma emocional.

Longe da perfeição, 3% acerta na honestidade de um roteiro bem escrito e no acervo temático pertinente. Com apenas 8 episódios e um texto bem amarrado e estimulante, 3% encerra sua primeira temporada com uma virada curiosa no status quo de todos os seus personagens, deixando promessas para uma segunda temporada focada em novos plots e novos temas, abrindo ainda mais espaço para a ambiguidade moral e política já insinuada nesses primeiros episódios.



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