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Resenha: Deuses Americanos, de Neil Gaiman


Para o aniversário de 15 anos da obra literária mais conhecida e aclamada do autor britânico Neil Gaiman, Deuses Americanos, a editora Intrínseca lançou pela primeira vez no Brasil a chamada Edição preferida do autor, com acréscimos variados ao longo da narrativa, intervenções do autor com prefácios, posfácios, entrevistas e introduções. De modo que essa nova edição traz sim algumas diferenças (bem como um acabamento mais cuidadoso) se comparada à primeira versão lançada no Brasil pela Editora Conrad, em 2002.

O próprio Gaiman descreve Deuses Americanos como sua obra mais ambiciosa e, em certo sentido, também a mais controversa, por mexer com as crenças e a identidade de um país inteiro. Como um escritor britânico e orgulhoso de sua nacionalidade, ao se mudar para os Estados Unidos em 1992, Gaiman começou a pensar cada vez mais seriamente sobre a situação da diáspora, sobre a realidade de ser um imigrante, um estrangeiro, mesmo num mundo tão globalizado. As pessoas pareciam sair de todo lugar do mundo para construir um lar no Novo Mundo. Essas pessoas chegavam à América e traziam com ela seus mitos e deuses; deuses nórdicos, africanos, asiáticos e gregos, a partir de certo ponto deuses americanos também todos eles. No cerne de Deuses Americanos há uma grande curiosidade: o que aconteceria com os velhos mitos e deuses em novos mundos e novos tempos? Quanto poder tem um deus se nos esquecemos dele?



É essa mitologia tão rica e vasta do nosso mundo, reimaginada pelo autor, que costura e conduza a narrativa da obra, centrada na figura enigmática de Shadow. Depois de passar três anos na cadeia, Shadow é liberado de sua pena só para descobrir que sua esposa e seu melhor amigo morreram, como amantes, num acidente de carro. Na volta para casa, a partir de uma série de coincidências extremamente suspeitas, ele conhece e passa a trabalhar para Wednesday, um sujeito insistente e de índole claramente questionável. Perpetuamente anestesiado diante da vida, Shadow presta os devidos respeitos a sua amada morta e parte em seguida numa estranha jornada, perpassada por misticismo e situações sobrenaturais, pelos recantos dos EUA, preparando homens e deuses para a guerra que se aproxima, uma guerra pelas superstições da humanidade.

A partir dessa premissa simples e seguindo a estrutura popular de um road trip, Gaiman revisita a cultura do mundo e até cria deuses novos, deuses da tecnologia, da economia e da televisão, dando corpo aos alvos de nossos cultos modernos.



Como em sua série de quadrinhos mais premiada, Sandman, em Deuses Americanos, Gaiman usa sua criatividade privilegiada para dar carne e personalidade para essas entidades. É interessante pensar na Media, a deusa da televisão, como uma mulher jovem, perfeita em sua superficialidade, acostumada a adulação e sempre tratando o resto do mundo com um misto de pena, condescendência, desprezo e dissimulação. Os deuses do mercado são chamados de intangíveis, como a bolsa de valores, são fluidos e instáveis, tendem a não se envolver diretamente em guerras e conflitos, pois para eles, a economia se regula por si só, a economia é sua arma e com ela movem o mundo. Anúbis, o deus egípcio da morte, é uma espécie de legista, dono de uma funerária, mortalmente sério e pragmático como a sua profissão. Bilquis, a Rainha de Sabá, aparece na história como uma prostitua que devora seus clientes pela vagina.

Nesse sentido, há uma experiência criativa e de ressignificação que frequentemente se destaca na obra. É um processo de referências (e auto-referências quando no caso dos novos deuses) multiplicado a exaustão, o que não só torna a leitura envolvente (apelando para seu aspecto de entretenimento) quanto enriquece os significados da trama, pensar Odin como um personagem ao invés de mito, por exemplo, dando a ele personalidade e trejeitos, nos aproxima da história e apela para nossa identificação.  Embora Shadow pareça quase sempre letárgico e indiferente, pouco empático em relação a público, é sua personalidade em branco que nos conecta a esse mundo de deuses mesquinhos e humanizados.

Apesar de não reservar grandes surpresas para seu final, Deuses Americanos joga o tempo todo com as expectativas do leitor e com sua curiosidade sobre o mundo das histórias antigas, cativando nosso interesse ao apostar nessa humanização de nossos mitos como uma forma de pensar a existência humana. Com suas alegorias bem trabalhadas e sua prova inconfundivelmente habilidosa, Neil Gaiman entrega uma obra acima de tudo de entretenimento, mas que não se desapega da profundidade proposta por seu tema. Apesar de alguns pontos da trama (muito inflada em alguns momentos, diga-se de passagem) parecerem ir perdendo a importância a medida que a trama avançava para o seu clímax, Deuses Americanos se encerra como uma narrativa bem executava, fechada em torno de si mesma e sem furos evidentes.



Tantos anos após seu lançamento, Deuses Americanos continua até hoje conquistando novos públicos, principalmente pela atualidade de seu confronto entre o moderno e o tradicional. Em 2017, a emissora Starz lançará a primeira temporada de uma série baseada na obra.


Neil Gaiman já é, hoje em dia, um daqueles autores sagrados no mundo nerd, principalmente por sua produção em quadrinhos, como Alan Moore ou Grant Morrison. Sandman, seu personagem mais famoso, foi publicado pela primeira vez em 1989, pelo selo Vertigo, da editora DC Comics, sendo até hoje constantemente republicado em versões especiais em capa dura e com material extra. É também o autor da graphic novel Livros da Magia, além de ter escrito histórias de super-heróis populares como o Batman. Tão vasta quanto sua produção nos quadrinhos, é sua carreira literária, sendo o autor de coletâneas de contos, como Coisas Frágeis e Alerta de Risco, de romances de fantasia para adultos, como Lugar Nenhum, Deuses Americanos e Os Filhos de Anansi, e de romances infanto-juvenis, como Coraline e o recente O Oceano no Fim do Caminho


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