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Crítica: Desventuras em Série


Desventuras em Série, série baseada na obra de Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), estreou na última sexta-feira no Netflix. Diferentemente da versão cinematográfica que passou de forma despercebida nos cinemas, a nova produção consegue trazer o universo gótico/surrealista para a TV de maneira eficiente.

Na trama, somos apresentados aos órfãos Baudelaire - Violet (a inventora), Klaus (o leitor) e Sunny (a caçula que possui dentes afiados e que se comunica por meio de uma língua incompreensível) - cujo os pais pereceram - "perecer" significar "morrer" - em um terrível incêndio que ocorreu na mansão da família, destruindo-a por completo. Diante de tal desgraçada as crianças são levadas ao Conde Olafseu tutor, que só pensa em roubar a herança destas.

Com isso, acompanhamos a jornada dos órfãos Baudelaire para se livrar do tirano Conde e eventualmente encontrar um lar. A série composta por oito episódios, adapta os quatro primeiros livros da coleção - Mau Começo, A Sala dos Répteis, O Lago das Sanguessugas e a Serraria Baixo- Astral - sendo dois episódios destinado a cada livro.


Nesta primeira temporada, vemos os Baudelaires sendo levados a cada aventura a um novo tutor e, consequentemente, sendo sempre descobertos por Conde Olaf, que aparece com disfarces ridículos e planos mirabolantes para roubar as crianças. Apesar de ser considerada uma história infantil, Desventuras em Série, por meio de sua narrativa irônica e depressiva - como sempre advertida por Lemony - traz temas adultos. 

O simples fato de Olaf não ser visível aos adultos mas as crianças, é uma inteligente crítica ao homem dentro da sociedade. Ou seja, somos tão voltados a nossas ambições e desejos que ficamos cegos diante dos fatos por mais óbvios que sejam. Além disso, há inúmeras referências literárias que podem ser 'fisgadas' por leitores mais ávidos já que muitos dos personagem fazem alusões à obras ou pessoas. Um bom exemplo, é o nome Baudelaire, referência a Charles Baudelaire - famoso poeta francês -, ou o fato de Sr. Poe e seus dois filhos (Edgar e Albert) serem uma referência a Edgar Allan Poe. Outro fator curioso, é que Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe se conheceram, e Allan morreu de uma doença que tinha como sintoma tossir sangue, enquanto uma das características do sr. Poe ao longo da série é sua tosse contínua. 


Com Daniel Handler com um dos roteiristas e uma ambientação atemporal - com um visual que remete ao século XIX quanto aos anos 30, mas que possui um conhecimento científico contemporâneo - os inúmeros infortúnios vividos pelas crianças são sempre narrados por Lemony Snicket. Para muitos, esse pode ter sido um fator desagradável, uma vez que o autor constantemente interrompe a narrativa para conversar com nós espectadores - quebrando a quarta parede -. Contudo, devo confessar que amei que eles trouxeram para a tela está característica tão presente nos livros. Devemos entender, que Lemony não é apenar um narrador mais um personagem dentro da história. Patrick Warburton, está excelente com seus comentários cínicos, fornecendo um humor negro a trama. Além disso, suas interrupções ao longo da história sempre tem um fim informativo.

Por falar em atuação, não poderia deixar de comentar atuação de Neil Patrick Harris. Sempre que lembramos de Conde Olaf, instantaneamente associamos a atuação caricata de Jim Carrey, porém Neil conseguiu dar vida ao real Conde Olaf, um personagem que chega a beirar ao ridículo mas que possui uma aura bem ameaçadora. O ator soube dosar muito bem as partes cômicas e dramáticas do personagem, sem que este perdesse seu aspecto vilanesco. 


Não posso deixar de mencionar também, Malina Weissman, Louis Hynes e Presley Smith -respectivamente Violet, Klaus e Sunny - que estão ótimos na pele dos órfãos Baudelaire. O mais interessante na narrativa é que seus personagens se complementam, cada um possui uma função. Trabalhando sempre em equipe, cada um dos personagens possui destaque, não havendo um "centro das atenções". Instantaneamente, me identifiquei com as desgraças vividas pelos irmãos, assim como, pela união existente entre eles. 

Como dito inúmeras vezes por Lemony Snicket,  Desventuras em Série não é uma história típica com um final feliz, pelo contrário, é melancólica. Contudo, possui uma trama bem construída e excelentes atuações, fazendo com que você torça para que essa série de eventos infortúnios na vida dos irmãos Baudelaire chegue ao fim.


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