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Ordem cronológica: Os Novos 52 (Parte II)

Os primeiros textos da ordem cronológica podem ser encontrados nos links:



Não deixe de conferi-los antes de ler este aqui!


Batman, de Scott Snyder, Greg Capullo

Batman é o grande hit da editora. Ele vende bem suas revistas solos e aparentemente precisa aparecer nas capas das revistas de todos os outros títulos da DC. É uma situação comercial, mais que de coerência narrativa. De modo que, porque o Batman é uma garantia de sucesso, a DC sempre parece trabalhar com mais afinco para que ele se sobressaia. Antes dos Novos 52, Batman já vendia muito bem. Assim, as diversas reinvenções propostas pelo reboot não apresentou muitas consequências para o universo criativo do personagem. Como já explicado no texto anterior, Batman e Lanterna Verde entraram no universo pós-reestruturação quase incólumes. O primeiro pelo valor agregado de sua imagem e o segundo devido ao trabalho de Geoff Johns após o sucesso de venda e de crítica A Noite Mais Densa (preciso insistir que você não ignore o aviso acima e confira a Parte I aqui). 

Com roteiros de Scott Snyder e arte de Greg Capullo, a fase dos Novos 52 da revista solo Batman durou por 52 meses, sendo talvez o único título mensal que não sofreu com as constantes reformas nas equipes criativas durante os cinco anos do rebootSnyder abriu um arco na edição 1 e se manteve a frente da revista até o Rebirth, a mais recente iniciativa da DC, finalmente ganhar forma. É principalmente por isso que Batman consegue impor, mais que qualquer outro título da editora, uma noção de continuidade mais palpável e evidente; um mesmo autor, com mais liberdade criativa que a maioria, seguindo uma única linha narrativa por cinco anos sem grandes intervenções externas. Neste texto, vamos percorrer o longo caminho através do trabalho da dupla durante os anos do reboot.


Com uma tendência a tramas longas, intrincadas e um pouco megalomaníacas, que se estendiam por meses sem fim, a próspera fase de Snyder e Capullo foi divindade nos seguintes arcos: A Corte das Corujas, A Morte da Família, Ano Zero, Fim de Jogo e Peso-pesado.

No arco de estreia, A Corte das Corujas, vemos uma organização milenar, infiltrada desde a fundação de Gotham, finalmente resolvendo sair das sombras para investir contra o Homem-Morcego. Silenciosos e fatais, os membros da Corte realmente impõem medo nas páginas. Organizados, sombrios, sempre ocultos atrás de máscaras cínicas, esse grupo de vilões consegue atacar o Batman tanto num sentido físico quanto emocional e psicológico. Mesmo mantendo a inteligência prodigiosa do Morcego, Snyder captura aqui um momento de fragilidade do herói, colocando sua vida em verdadeiro risco e mostrando a Corte das Corujas não só como um inimigo do Batman, mas como uma ameaça à memória dos Wayne. Snyder, tão afoito por metáforas, simplesmente não podia resistir à utilização das máscaras de coruja, considerando que as corujas são os predadores naturais dos morcegos.


Lamentavelmente, A Corte das Corujas não é um arco contido em si mesmo, espalhando-se por diversos outros títulos relacionados ao universo do Batman, que nesta época eram muitos e a maioria com pouquíssima qualidade. A ideia era mostrar os parceiros e protegidos de Bruce lidando com a ameaça das corujas ao redor da cidade, mas, no geral, esses tie-ins não mantiveram nem metade do bom ritmo da revista principal.

Um ponto interessante a ser ressaltado é que o Coringa, o mais famoso arqui-inimigo do herói, permaneceu oculto durante todo esse primeiro ano de publicações dos Novos 52. Isso porque o plano era trazê-lo de volta com muita pompa numa jogada de marketing que ficou conhecida como A Morte da Família. Anunciado pelas chamadas da editora como um clássico contemporâneo, A Morte da Família foi mais ou menos decepcionante para todo mundo, apesar do início promissor.


Ter o Coringa para brincar é sempre um luxo, principalmente depois de uma longa ausência. E Snyder traz uma ótima introdução, mantendo o suspense e apresentando o personagem com um novo visual, desenhado por Capullo, mais assustador, mais grotesco, perfeitamente coerente com o novo status quo do personagem. 

No entanto, a alta expectativa e as promessas não cumpridas (talvez você perceba ao longo da leitura deste run inteiro do Snyder que ele tende a decepcionar no final de cada arco), jogaram A Morte da Família muito longe da alcunha de clássico. Um arco mediano, com bons capítulos, mas que no todo não chegou realmente a marcar a narrativa do personagem. O título, que faz referência ao fatídico capítulo da morte de Jason Todd no final dos anos 1980, fica aqui parecendo mera pretensão. Alerta de spoiler: ninguém morre no final. Com um título assim tão impactante, o retorno do Coringa e a homenagem ao assassinato inesquecível do segundo Robin, A Morte da Família não teria como escapar, no fim, de tantas comparações. Toda a afobação do marketing, como de praxe, acabou por atrapalhar o andamento da narrativa.


O arco seguinte é o imenso, às vezes redundante e um pouco cansativo, mas no geral muito interessante: Ano Zero. Na trama, Snyder volta no tempo para contar o início da carreira do Batman. A proposta inicial dos Novos 52 era, de fato, novos começos para todos os seus velhos personagens, mas Batman, por já vir de uma fase de sucesso, nunca teve realmente essa oportunidade de começar de novo, entrando no universo pós-reboot já contra uma nova equipe de vilões. 

Ano Zero prometia, então, sanar essa lacuna. O arco que se estende de Batman #21 até Batman #33 (excetuando a edição Batman #28) e tem diversos tie-ins espalhados por variados títulos da editora, foi dividido em três partes: Cidade Secreta, Cidade Sombria e Cidade Selvagem.


Já desapegado de brincar com o Coringa, Snyder coloca aqui o Charada como principal antagonista, o que é mesmo o maior dos méritos desta história. Tão focados no Coringa, os autores às vezes parecem esquecer a vastidão dos vilões criados entre a população de Gotham, mas Ano Zero chega para explorar o Charada como uma mente prodigiosa, realmente a altura do herói.

Bruce Wayne volta a Gotham depois de uma longa ausência. Vai reestruturar sua vida e se tornar o Batman, mas tudo isso é feito de maneira muito gradual (para alguns, um pouco exaustos da paciência do Snyder, gradual até demais). Desde A Corte das Corujas, Snyder se mostrava disposto a explorar as fraquezas de seu protagonista. Em Ano Zero, vemos Bruce muito antes de ser realmente um Batman, então toda a postura de liderança, a inteligência e o preparo ainda não são parte de sua identidade. É o Batman muito mais humano, que apanha, perde as estribeiras, cai frequentemente em armadilhas, esconde-se e foge.


Na história, após uma terrível enchente, Gotham fica parcialmente destruída e desprovida de tecnologia. Isolada do mundo de fora, a cidade agora é governada pelo insano e levemente sádico Charada. Cabe a Batman, Gordon e Fox recuperar o controle da cidade, enquanto lidam com os jogos de adivinhação mortíferos do vilão.

O arco seguinte, Fim de Jogo, trabalha com o conceito oposto. Até aqui, a ideia central era aproximar o Batman de suas características mais humanas, de sua fraqueza e suas limitações. Em Fim de Jogo, Batman se aproxima novamente de sua postura mais olimpiana, como estabelecido pelas animações dos anos 1990 e 2000 e pelos arcos anteriores, escritos por Grant Morrison. A ideia é colocar o Batman contra os membros da Liga da Justiça. E sair ganhando. Esse é o Batman com que a maioria está acostumada.


É também, segundo o próprio Snyder, sua investida final em relação ao Coringa. É perceptível, quando você acompanha os eventos assim cronologicamente, como tudo parece interligado no run de Snyder e Capullo. Batman segue uma linha de ascensão desde o início, vencendo arco a arco suas limitações humanas até finalmente alcançar o status de divindade, para poder cair aqui no final. Batman e Coringa são ambos dados como mortos ao fim deste arco. Mais uma vez o poder da metáfora na opra de Snyder. 

A morte nos quadrinhos é sempre uma transição. Raramente é permanente e quase sempre leva o herói a aprender sobre si. O arco final é todo um alegoria, que pega os pedaços do herói após o Fim de Jogo para remontar.

Bruce não quer mais uma vida de aventuras e é visto pela primeira vez depois de sua morte, sentado num banco de praça alimentando os pombos (os pombos são liberdade poética de minha parte), quer uma vida pacata e acha que outra pessoa pode defender Gotham (na verdade, ele aparentemente não se lembra que é na verdade o Batman). É aí que o Comissário Gordon entra, com um traje robótico que mais parece um coelho azul gigante e se autodenomina Batman, o herói que aquela cidade precisa.


Neste arco, intitulado Peso-pesado, entendemos tanto pela perspectiva de Bruce, cujo fardo é pela primeira vez largado, quanto pela perspectiva de Gordon que precisa preencher a lacuna, a responsabilidade de ser o Batman e o peso de se importar com uma cidade tão ingrata quanto Gotham. É neste arco também que Snyder entrega um novo vilão excêntrico para a longa lista de inimigos do Batman, o bizarro Mr. Bloom.

Com sua tendência à literatura e às analogias, Snyder encerra sua próspera passagem pelo brinquedo preferido de qualquer autor de quadrinhos, o Batman, homenageando o homem por baixo da capa, sua cidade e todos aqueles que poderiam, como Gordon mostra aqui, ser muito mais que meros coadjuvantes. 


A Corte das Corujas quebra o herói em sentido fundamental e psicológico. A Morte da Família ataca sua emoções ao brincar com a vida de sua família. O Batman nunca foi tão humano. Ano Zero é a apresentação didática de todo o processo de transformar essa humanidade em algo mais. Fim de Jogo é a queda de um deus. Peso-pesado é uma reconstrução, uma nopa oportunidade, é começar tudo outra vez.

Além deste título principal, o Batman protagonizava outras duas revistas mensais Detective Comics e The Dark Knight. Detective Comics, sendo casa de sua primeira aparição nos quadrinhos muitas décadas atrás, merece todo respeito ao seu nome. No entanto, durante a fase dos Novos 52, não teve realmente nenhum arco profundamente memorável (até por falta de liberdade criativa de seus autores talvez). The Dark Knight, por sua vez, foi cancelada antes que Os Novos 52 chegasse ao fim, na edição #29.

O universo do Batman também foi bastante explorado nas revistas: Asa Noturno (que se tornou depois a revista Grayson), Batgirl, Batman e Robin, Batwing, Mulher-Gato, Capuz Vermelho e os Fora da Lei e Batwoman.

Ordem de publicação

A Corte das Corujas: 
Batman #01-#12

A Morte da Família:
Batman #00, #13-#17

Ano Zero:
Batman #21-#27, #29-#33

Fim de Jogo:
Batman #35-40

Peso-pesado:
Batman #41-#50

*Essa numeração se refere ao mix Batman, da Panini Comics, que publica as revistas tanto da Marvel quanto da DC no Brasil.

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