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Crítica: Passageiros


Passageiros, do diretor norueguês Morten Tyldum, conhecido pelo suspense Headhunters e pelo aclamado O Jogo da Imitação, chegou aos cinemas neste fim de semana depois de uma massiva divulgação nas redes sociais e nos mais diversos programas de entrevistas ao redor do mundo. Com um cartaz estampando os rostos dos queridinhos do cinema hollywoodiano atual, Jennifer Lawrence e Chris Pratt, o longa parecia prometer um combo de ação e suspende num aparentemente inovador e complexo roteiro de ficção cientifica.

No entanto, quem saiu de casa esperando reviravoltas, suspense e muita ação, vai ter um bocado para se queixar da publicidade em torno do filme. Nos primeiros dez minutos, a trama já deixa claro seu pouco interesse por esses temas, que joga tudo para o segundo plano, ao contar uma inusitada encenação de um conto de fadas no espaço.


Num futuro indeterminado, a humanidade já conquistou o espaço. Não no sentido de mandar sondas e macacos para os nossos imponentes vizinhos aqui no Sistema Solar, mas com tecnologia para mapear os recônditos distantes das estrelas. Não há menção alguma na trama à vida alienígena, mas as viagens espaciais agora podem alcançar galáxias inteiras por nós apenas sonhadas. Nesse contexto, com uma pequena piscadela crítica para o capitalismo das grandes corporações, somos apresentados a uma companhia de viagens com propósitos de colonização. A Homestead Corporation negocia assentos para classes variadas numa nave imensa, com capacidade para 5 mil passageiros, que atravessa as estrelas rumo a planetas já previamente identificados e relativamente preparados para receber a vida nova de sua clientela.


Já que as distâncias no espaço são, naturalmente, calculadas em anos-luz, a Homestead Corporation faz uso de uma supostamente infalível tecnologia criogênica para manter seus passageiros num sono de juventude confortável pelas longas décadas de seu percurso até um novo planeta.

A trama é carregada inteira pelo casal de protagonista, que praticamente só tem um ao outro para se apoiar pelas quase duas horas do longa. Com suas quatro indicações ao Oscar e o protagonismo da popular franquia juvenil Jogos Vorazes, Jennifer Lawrence interpreta aqui a relativamente antipática e melindrosa Aurora, uma escritora famosa na Terra que busca novas aventuras para dar mais fôlego às suas obras. Chris Pratt, ex-melhor amigo gordinho de qualquer protagonista de comédia romântica, dá continuidade a nova realidade de sua carreira, a de galã carismático, com a qual ele parece cada vez mais confortável, depois de Guardiões da Galáxia, Jurassic World e o faroeste 7 homens e um destino, ao assumir o papel de James Preston, um engenheiro mecânico que aparentemente precisou deixar o mundo para encontrar alguma coisa que precisasse de conserto.


Numa nave colônia rumo ao planeta Homestead II, James, um passageiro da classe menos privilegiada, acorda sozinho muito antes do tempo devido de sua viagem. Ele está noventa anos adiantado e, a menos que ele conserte sua cápsula de hibernação, irá morrer ali naquela nave sem nunca pisar na Terra Prometida. Ao se constatar sozinho num transporte imenso jogado num espaço mais opressor ainda, comendo a gororoba desagradável dispensada à classe econômica, não demora muito até James se desesperar. O que parece, a princípio, um suspense de ação que moderniza a Arca de Noé e o Exodus, logo assume sua forma real quando Aurora entra na trama.


Não por coincidência, a protagonista feminina vem com uma referência a Bela Adormecida estampada já no seu nome. Se tirarmos a fina camada de suspense (a nave parece estar gradualmente dando os defeitos mais inesperados) e as poucas (e belissimamente montadas) sequências de ação guardadas para o terceiro ato, o que realmente se impõe na trama é uma história de amor futurista, que se aproveito do fundo de ficção científica para narrar o encontro de uma garota privilegiada e um mecânico cheio de boas intenções, que provavelmente nunca teria acontecido na tumultuada e superpopulosa Terra de sua época.

Muito mais próximo de obras da literatura Jovem Adulta (YA), como A Hospedeira, de Stephenie Meyer, ou a trilogia de Beth Revis, Através do Universo (este último, aliás, com uma premissa bastante similar a do filme), do que de clássicos da literatura intergaláctica como 2001: uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke, ou os livros da Fundação, de Isaac Asimov, Passageiros deve decepcionar quem esperava duas horas de ação ininterrupta ou alguma discussão filosófica muito profunda sobre o lugar do homem na imensidão da existência, já que 70% de sua trama se foca no desespero da solidão e na gradual aproximação romântica dos protagonistas.

Diferente dos seus pares na literatura jovem, no entanto, Passageiros se sobressai ao emocionar com a beleza sublime do tema da solidão, principalmente, em seu primeiro ato. Com uma fotografia sensível, preocupada com as grandes imensidões espaciais que os protagonistas precisam encarar, o filme nos entrega uma perspectiva de consciência que consegue justificar qualquer das atitudes extremas e desesperadas de seus personagens.

Como um romance de ficção científica, Passageiros é extremamente eficiente. A grande questão é que parecia propor muito mais em sua divulgação. Como todo blockbuster contemporâneo, portanto, não parece ter vergonha de criar com seu trailer expectativas pouco proáveis de serem cumpridas com a história em si.


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