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Sobre sonhos, androides e ovelhas elétricas: Philip K. Dick e a reinvenção de Hollywood


Você provavelmente conhece Philip K. Dick. Se não pelo nome, talvez por causa de alguma de suas obras. Dick é hoje talvez o autor de ficção científica com mais obras adaptadas para a TV ou para o cinema. Mesmo que nem sempre o grande público faça as devidas associações. Seja por causa de Blade Runner, dirigido por Ridley Scott, seja pelo Minority Report – A Nova Lei, de Steven Spielberg, as obras do autor se infiltraram no imaginário dos fãs de cultura pop como clássicos de um gênero marcado por tantos grandes nomes.


Philip K. Dick morreu aos 53 anos, em 1982, apenas três meses antes do lançamento de Blade Runner, de modo que nunca pôde assistir nenhuma de suas adaptações (todas posteriores a esse que foi o seu mais difundido sucesso). Neste texto, vamos conversar um pouco sobre a vasta filmografia e programas televisivos que se beneficiaram de sua mente próspera e de seus intrigantes universos que, muito antes de Black Mirror, já questionavam a conturbada relação entre o homem e suas tecnologias, focando aqui nas suas obras mais conhecidas.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?


Provavelmente sua obra mais famosa, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? só não conseguiu se tornar mais popular que sua adaptação para o cinema, Blade Runner, dirigida por Ridley Scott, em 1982. Embora muitos aspectos tanto da narrativa quanto do universo sejam consideravelmente diferentes do original pra o filme, o próprio PKD foi o primeiro a admitir que as duas obras, em todas as suas diferenças, se complementavam perfeitamente (mesmo que, como já dito, ele nunca tenha assistido o filme em sua totalidade, somente acompanhado a produção). 

O escopo central da trama apresenta um futuro distópico, devastado pela ganância e confusão entre as grandes nações da Terra. Quase inabitável, a Terra, permeada por uma química corrosiva, matou grande parte da vida do planeta e reduziu as capacidades cognitivas de uma grande parte da raça humana. 

A maioria partiu, assim, para colônias no espaço, utilizando androides para facilitar sua difícil adaptação em outros mundos. Os androides naturalmente não devem ter ficado muito satisfeitos. Extremamente similares aos humanos fisicamente (e, como discute tanto o livro quanto o filme, também emocionalmente bastante similares), os androides fugiam, quando possível, para a Terra, tão hostil agora ao homem. O protagonista, Rick Deckard, é um caçador de androides (daí o mais empolgante porém muito menos filosófico nome do filme), ele vive na Terra e aposenta os fugitivos. No livro, diferente do filme, seu maior sonho é ter um animal de estimação. Ele tem uma ovelha elétrica, mas não lhe parece muito diferente dos androides que ele caça.


Este ano, uma continuação para o filme será lançada depois de 35 anos, Blade Runner 2047, também dirigido por Ridley Scott. 


Lembramos para Você a Preço de Atacado


Este conto, de 1966, foi adaptado duas vezes para o cinema. A primeira em 1990 e a segunda em 2012. Na história, Douglas Quail é um pacato assalariado cujos sonhos de grandeza são constantemente oprimidos pela esposa mal humorada. Seu maior desejo é um dia poder visitar Marte, que, na realidade desta história, é praticamente um destino para férias paradisíacas. Destino esse, no entanto, muito caro para os seus padrões. Sem jeito de se tornar um figurão do governo ou poder, de repente, pagar pelas mordomias da viagem, Quail contrata os serviços da Rekord Associados, que implanta memórias falsas em seus clientes, prometendo o sentimento vívido de um dia já ter mesmo passado férias em Marte. Acontece que durante a cirurgião, fica constatado que Quail já esteve realmente em Marte certa vez, o que leva a uma série de complicações. As adaptações para o cinema receberam o título de Vingador do Futuro (Total Recall), a primeira é protagonizada por Arnold Schwarzenegger e a segunda por Colin Farrell.

Segunda Variedade


Também duplamente adaptado, uma vez em 1995 e outra 2009, o conto Segunda Variedade se passa num mundo devastado pela Terceira Guerra Mundial (o fim eminente de toda civilização organizada era um tema frequente na ficção científica da época, não só do PKD). Quase total e mutuamente destruídos, Estados Unidos e Rússia ainda se estapeiam, tentando inutilmente declarar um vencedor que reinaria sobre Terra nenhuma. Os Estados Unidos criaram soldados cibernéticos que praticamente venceram a guerra, no fim, mas aparentemente não para nenhum indivíduo da raça humana, seja lá sua nacionalidade. Capazes até mesmo de se replicar e se modernizar sozinhos, os robôs logo constataram que a raça humana estava obsoleta e dispensável. O conto é uma jornada de sobrevivência contra as carniceiras máquinas, que se voltaram deliberadamente contra o homem, alimentando nossas paranoias. A primeira adaptação recebeu o título Screamers – Assassinos Cibernéticos e o segundo, que é, na verdade, uma tentativa frustrada e frustrante de se apresentar como uma continuação, Screamers– A Caçada.

O Relatório Minoritário


Depois de Blade Runner, Minority Report é provavelmente a adaptação mais conhecida de PKD. Dirigido por Steven Spielberg, o filme trazia ainda Tom Cruise no papel principal.  O conto original, O Relatório Minoritário, trata de um futuro não identificado, mas não tão diverso do nosso, onde os crimes podem ser previstos e impedidos antes que aconteçam. Uma tecnologia baseada nas intenções, identificam focos de violência, permitindo aos agentes deterem o crime. Inegavelmente mais utópica que a maioria dos cenários de seus trabalhos mais famosos, a realidade de O Relatório Minoritário logo sai dos eixos quando o principal agente da Precrime descobre a si mesmo como futuro assassino de alguém que nem ao menos conhece. Pelo menos por enquanto. Seria a tecnologia tão precisa assim, no fim? É mesmo justo alguém pagar por um crime que nem chegou de fato a cometer? O universo criado por PKD aqui deu origem ainda a uma série em 2015, cancelada após sua primeira temporada. A série também se intitulava Minority Report.

Equipe de Ajustes


Um daqueles estranhos casos em que a ficção cientifica se aproxima perigosamente da fantasia, o conto Equipe de Ajustes nos apresenta a consternadora ideia de que nossa realidade é regida segundo os interesses de alguns indivíduos superiores, que observam e garantem que tudo em nossas vidas corro no sentido adequado. É um ponto polêmico na carreira do autor, que não aplica aqui conceitos científicos muito evidentes, mas que nem por isso ficou de fora dos interesses hollywoodianos. Foi adaptado em 2011 com o título Os Agentes do Destino, com Matt Damon e Emily Blunt nos papéis principais. 

O Homem do Castelo Alto


O romance O Homem do Castelo Alto é uma interessante experiência que não precisou viajar ao futuro para criar uma distopia patentemente perturbadora. A trama conta, ao invés do futuro, com uma mudança de realidade. E se os Aliados não tivessem impedido o avanço do totalitarismo nazista? A história se passa nos Estados Unidos de 1962, um contexto obviamente impactado por essa mudança histórica. O romance deu origem a uma série homônima (The Man in the High Castle), que está atualmente em sua segunda temporada.


Além desses, há outros trabalhos do autor que também se popularizaram devido a suas adaptações, como os contos Impostor (que originou o filme de mesmo nome, em 2001), O pagamento (homônimo, em 2003) e O Homem Dourado (O Vidente, em 2007). O romance Um Reflexo no Escuro também inspirou um longa de animação, em 2006, intitulado O Homem Duplo.

Em 2016, Electric Dreams: The World of Philip K. Dick, uma série que promete explorar o vasto mundo literário de PKD, foi anunciada, embora poucos detalhes tenham sido divulgados até agora. A série está sendo escrita por Ronald D. Moore e Michael Dinner. Bryan Cranston, o astro de Breaking Bad, foi anunciado como parte do elenco, mas não foi mencionado sobre o seu papel.


||A Editora Aleph tem se esforçado por resgatar a obra do autor, em português, com novas edições e coletâneas. Pela editora, já foram publicados do autor: O Homem do Castelo Alto, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, Valis, Ubik, Os Três Estigmas de Palmer Edrith, Um Reflexo no Escuro, e Realidades Adaptadas, uma coletânea que reúne todos os contos aqui citados. 

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