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Leituras de Janeiro: comentários e expectativas


Em 2017, é meta nossa trazer um pouco mais de literatura aqui para o blog. De minha parte, não vai ser tanto no sentido de resenha, porque só publico aqui um texto por semana e gosto de escrever sobre tudo um pouco. Como acaba lendo pelos menos um livro toda semana, fiquei entre resenhar um livro por mês e fazer um post ao estilo lista comentando as leituras de cada mês.

Fiquei com a segunda opção. De modo que todo mês, devo trazer, então, uma lista de leituras, temas e gêneros variados para indicar ou varrer para debaixo do tapete. Com o tempo, podemos estabelecer algumas metas de leitura para cada mês, um livro de um gênero específico para cada mês e outras coisas do tipo. Segue as leituras de janeiro.

A luz entre oceanos, de M.L Stedman



O drama A luz entre oceanos foi uma indicação indireta do Markus Zusak, autor de A Menina que roubava livros e Eu sou o mensageiro, em seu twitter.

Na obra, um casal vive sozinho na ilha de um farol e estão tentando ter um filho, mas os abortos repetitivamente tiram da mulher a oportunidade de ser mãe. Desesperada e já quase entrando em depressão, Isabella e seu marido encontram um barco se aproximando da ilha. Lá dentro um homem morto e uma garotinha chorando. Eles deveriam reportar o acidente, mas preferem ficar com o bebê para si mesmos e fingir que a última gravidez não terminou tão tragicamente quanto as outras. Daí para frente, o que se desenrola é uma profusão de tragédias, culpas e algum terror psicológico.

A luz entre oceanos, apesar desse título poético, tem pouco de beleza estilística em sua própria estrutura e condução. O texto é extremamente direto e sem rodeios. Parece um artigo científico às vezes. Pouquíssimos devaneios, o que me parece estranho para a situação de solidão, de dúvida, de distanciamento e de culpa que permeia toda a vida de seus personagens.

O livro é interessante. Escrito com a sinceridade de quem realmente amava a própria história. E hoje em dia isso é muito importante. No entanto, não consigo ir muito além desse reconhecimento. O ritmo não me empolgou. E certamente a paternidade ainda não é um tema que converse comigo de maneira intensa. É melodramático em diversos momentos e embora isso não seja exatamente um defeito, foi algo que me afastou da história. Tem uma cena, lá perto do final, que realmente achei belíssima. Vou guardá-la como uma memória boa sempre que pensar nesse livro. Tive uma professora de literatura que dizia que no meio de tudo se houver ao menos uma única frase que lhe toque todo o resto já terá valido a pena. Vou considerar assim.




Objetos Cortante, de Gillian Flynn



Objetos cortantes, primeiro romance de Gillian Flynn, se diz romance policial, mas os personagens me deixam desconfortável como num filme de terror. Até o título é desconfortável, uma vez que você lê a personagem descrevendo sua condição, seu impulso em se machucar (eu pensava que as linhas brancas na capa eram agulhas, mas são como cortes na pele, percebo agora).

Na trama, uma jornalista de Chicago volta a sua cidade de origem para investigar o desaparecimento e possível assassinato de duas meninas da região. A cidade que deveria parecer pacata e receptiva como qualquer lugarzinho de interior é um caos de mágoas, machismo, ofensas, violência e bullying.

Embora bastante interessante, com personagens fortes e marcantes, Objetos cortantes tem um problema de estrutura que me incomodou demais no final. O livro estava indo muito bem até às últimas dez páginas. Corridas, sem muita conexão entre uma coisa e outra, só desesperadamente correndo para acabar. Uma pena, antes disso eu estava realmente pronto a considerá-lo melhor que Garota Exemplar, obra mais famosa da autora.




Caçadores de Trolls, de Benicio del Toro e Daniel Kraus 



Caçadores de Trolls pode parecer a princípio um clichê muito bem executado. É bem escrito e o protagonista é divertido com sua narração em primeira pessoa. Esse clima amistoso de histórias ao estilo Spielberg e Hughes, com seus filmes sobre grupos de crianças nos anos 80/90, segue bem até a metade da história. Dali em diante, o protagonista vira um irritante herói relutante, seu melhor amigo perde o timing de todas as piadas, a única personagem feminina relevante vira uma mocinha em apuros e o mundo fantástico povoado por monstros vai perdendo a graça num mais do mesmo infeliz.

Caçadores de Trolls acerta ao apostar em fórmulas e nostalgias. Mas pouca coisa se salva nas 50 páginas finais dessa história. Deus ex machine diversos chegam de todas as direções numa batalha final repetitiva, monótona e pouco satisfatória. A batalha tentando criar tensão e dificuldade se prolonga e se complica e logo em seguida já aparece com uma solução mais ou menos constrangedora e eu só queria que aquilo tudo acabasse. É como um filme que ficou ruim porque já passou 12x na sessão da tarde.




Fallen, de Lauren Kate



Vi o filme recentemente. É um péssimo filme, mas a mitologia ao redor me interessou, de modo que serviu ao menos para despertar o interesse em relação ao livro. Fallen é o típico YA (Jovem Adulto) que ganhou fôlego com o sucesso inexplicável da Saga Crepúsculo (gosto do primeiro livro, porém não entendo o que de tão especial tem ali para criar tamanha tendência). Um protagonista masculino sobrenatural perdidamente apaixonado por uma protagonista feminina humana que não parece ter grandes atributos. Ela pode ser desastrada e apática (como Bella em Crepúsculo) ou pode simplesmente ser estranha, deslocada e atormentada, como Lucinda, a protagonista de Fallen realmente é.

A trama em si segue essa fórmula e não muda nada com o intuito de ser surpreendente, mas Fallen tem alguns contornos que valem a pena. Os coadjuvantes conseguem ser muito mais interessantes que a trama principal, são curiosos e roubam a atenção em todas as cenas que aparecem. E a mitologia pensada pela a autora realmente é cuidadosa. Dá vontade de seguir com a série, embora eu ainda não tenha certeza se vou querer ler qualquer coisas de Lauren Kate muito em breve, na verdade.




As Melhores histórias de viagem no tempo, de autores diversos



Como todo livro de contos, As melhores história de viagem no tempo tem seus altos e baixos. Mas, no geral, é leitura obrigatória para qualquer fã de ficção científica. Repleto de histórias clássicas e autores renomados, a coletânea, publicada pela editora Jandaia, consegue apresentar um panorama bem amplo do que a literatura de ficção científica já conseguiu pensar em relação ao intrigante e popular tema do tempo. Autores como Ray Bradbury, Arthur C. Clarke e Ursula K. Le Guin emprestam seus nomes aqui.

Minha maior dificuldade com o formato conto é o quão pouco espaço o autor tem pra criar personagens empáticos. O conto é quase sempre focado na trama, que precisa se desenrolar rapidamente. Não temos tempo pra conhecer e se apegar aos personagens, o que pra mim costuma ser bastante problemático. Principalmente, numa trama de ficção científica, que corre pra explicar a ambientação. Quando os contos são curtos, isso não tem tempo de incomodar, mas nos contos mais longos não é uma tarefa fácil continuar se interessando por um grupo de protagonistas muito bidimensionais.

Entre os melhores textos destaco O armário do tempo, O homem que chegou cedo, Projeto de aniversário e Outra história ou Um pescador do mar interior.




Mansfield Park, de Jane Austen



Entre as comédias de costumes de Jane Austen, Mansfield Park é muitas vezes considerada sua obra mais madura. Há muitas diferenças notáveis entre esta e a seu texto mais famoso, Orgulho e Preconceito. Fanny, nossa protagonista, não é uma mulher forte e atrevida como Elizabeth. Nem tem a mesma independência financeira. Fanny sofre muito mais que qualquer uma das outras protagonistas de Austen, mas sofre principalmente em silêncio. Ela não reclama ou bate de frente com os homens. Está sempre de cabeça baixa e com a saúde frágil prejudicada pelo mal humor de uma terrível tia.

Na história, Fanny é adotada pelo lado rico da família de sua mãe e sai da pobreza para catar migalhas na alta sociedade, sem nunca realmente se encaixar.

O final feliz, característico das obras da autora, traz dessa vez um amargor de realidade, o que é provavelmente o sentido de maturidade que muitos críticos observam na obra.




Sobre a escrita, de Stephen King



Meio autobiografia meio manual de escrita, Sobre a escrita, de Stephen King é uma dose certa de autoestima para escritores inseguros, que nunca sabem muito bem por onde começar suas histórias.
Na primeira parte do livro, King narra sua infância, adolescência e os primeiros anos de sua vida como escritor, a publicação de sua primeira obra de grande sucesso, Carrie, a estranha, e sobre como o alcoolismo entrou na sua vida profissional. É uma primeira parte sincera e visceral, que cria simpatia pelo autor tanto quanto cria por muitos de seus personagens.

Mas é na segunda parte que o ouro do livro se encontra. Aqui, ele trata de truques de escrita e de práticas de escrita, qualquer coisa que possa fazer você vencer a preguiça e começar a se dedicar. Fala sobre linguagem, sobre criação de personagens, sobre segurança na hora de elaborar sua trama. Trata, no fim, mais sobre o autor que sobre a escrita em si, e essa é, pra mim, a chave que diferencia esta obra de diversos outros pretensos manuais de escrita. Sobre a escrita nunca quis ser um manual, mas dar os meios para você descobrir como gosta de escrever.




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