Swift

Primeiro contato: Riverdale


A nova empreitada teen da CW não tem vampiros, nem lobos, nem feiticeiro, nem alienígenas e nem super-heróis. É engraçado, na verdade, pensar que depois do sucesso de Crepúsculo, na literatura e no cinema, a inovação do século XXI seria voltar às fórmulas de quinze anos atrás.

Riverdale, livremente baseada nos quadrinhos do universo da turma do Archie, chega para, de algum mudo, reviver o clima de empolgação de clássicos como Gilmore Girls, The O.C e One Tree Hill.

Na série, somos apresentados aos habitantes de uma pacata cidadezinha americana, que mistura nos filtros e na arquitetura, um clima agradável de década de 90, mesmo com as referências a cultura pop de 2017 vazando em todos os diálogos (é difícil até de acompanhar a metralhadora de referência inteligentes em alguns momentos). Em Riverdale, todo mundo parece viver em casas arrumadas de bonecas, sem segredos nem vergonha alguma a expor ao mundo de fora.


Até que o corpo de um adolescente é encontrado baleado no rio e as peças de um quebra-cabeça de violência começam a se mostrar. A premissa do "Quem matou Jason Blossom?" não é inovação nenhuma, mas é com esse fio condutor de mistério que a série consegue começar a costurar a vida dos seus diversos personagens.

Betty é a garota perfeita, apaixonada pelo melhor amigo e vizinho, Archie Andrews. Betty tem as melhores notas e provavelmente vai entrar para a universidade de seus sonhos quando a escola acabar. Mas sua irmã mais velha está trancada numa instituição, tentando se recuperar de um colapso e da dependência de drogas, tudo porque Jason Blossom, antes de morrer partir seu coração (bem como as cobranças de sua mãe controladora).

Archie pode herdar a empresa do pai, tem talento para música e está no time de futebol da escola. É o menino de ouro, com seu cabelo ruivo atraente e os músculos que conquistou trabalhando em construção (é uma piada da série que o modelo clássico de quem passa o dia na academia tenha ganhado seu corpo do trabalho duro de reformar casas). Cresceu com Betty e pensa nela quase como uma irmã, mesmo que ela esteja decidida a daqui a pouco confessar todo o amor que sente por ele. Mas ninguém sabe que ele anda transando com a professora de música e está escondendo um segredo da polícia, um segredo que poderia fazer andar as investigações em torno do corpo encontrado no rio.

Aos dois, se junta Veronica, vinda de Nova York para a cidade, a personagem logo se torna interesse tanto de Betty quanto de Archie. Betty e Veronica se tornam do dia para noite melhores amigas e Archie pode estar um pouco interessado em se apaixonar por ela, mas, por enquanto, nada muito sério.


Embora o triângulo amoroso, a garota perfeita, o popular jogador de futebol e a patricinha rica chegando na cidade pequena possam, num roteiro menos habilidoso, tornar-se os clichês mais irritantes da ficção jovem, em Riverdale, a ironia que perpassa a trama faz tudo funcionar com perfeição. É cativante de tão despretensiosa e bem pensada.

O primeiro episódio, principalmente por ser bem escrito e montado, nunca perde a graça, com um frescor de novidade muito presente na auto depreciação que a própria trama parece perceber em sua construção, no modo como os diálogos não se importam em apontar diretamente para cada lugar-comum que seus personagens tentam representar, só para depois desconstruir tudo e nos entregar desenvolvimento de enredo.

Riverdale traz, portanto, velhas ideias muito bem adaptadas. Os personagens dos cômicos e animados quadrinhos da turma do Archie ganham contornos de mistério e drama enquanto o mosaico de informações sobre o assassinato de Jason Blossom vai sendo jogado na nossa tela. Todo esse quebra-cabeça sendo didaticamente montada para nós pela narração eficiente de Jughead, o blogueiro meio estranho e gótico que decidiu escrever um livro sobre os segredos por trás da fachada da cidade.


A esse quarteto de protagonistas se juntam ainda, a complicada e perfeitinha, Cheryl, irmã do falecido Jason, que tem as reações mais estranhas ao luto pelo irmão e parece decidida a infernizar sadicamente a vida de todo mundo, Kevin, filho do xerife e melhor amigo gay de Betty e Veronica, e ainda Josie as Gatinhas, a banda de sucesso ascendente da escola.

Com uma variedade interessante de personagens, um sopro de novidade em velhos temas e a acertada decisão de não transformar ninguém em vampiro ou super-herói, Riverdale deve conquistar facilmente uma parcela do público já carente do verdadeiro e típico drama adolescente, que não precisa ter a ver com uma grande batalha de bem contra o mal. Toda em tons de cinza, a série é, no fundo, sobre crescer em meio as expectativas de uma cidade perfeita, sobre amizade e de como se relacionar com a vontade dos pais.

Numa parceria da CW com a Netflix, Riverdale, apesar da audiência tímida na sua estreia, não deve ter problemas para conseguir sua renovação, tendo alcançando as graças da crítica e tendo o serviço de streaming como uma importante contribuição.

LEIA TAMBÉM