Swift

Crítica: Fragmentado (sem spoiler)


M.Night Shyamalan está de voltando aos poucos

O diretor possui uma carreira bem inconstante. Tendo sido apelidado logo no início como "o novo Hitchcock" por filmes como O Sexto Sentido e Corpo Fechado, em algum momento Shyamalan se perdeu. Talvez tentando superar suas maiores obras ou por ter se tornado refém de plot twists previsíveis, o diretor nos últimos anos entregou produções abaixo do esperado como A Dama na Água e Fim dos Tempos. Sendo compreensível a hesitação de algumas pessoas em conferir seus novos trabalhos.

Contudo, desde 2015 este vem ensaiando uma volta, tendo lançado o competente A Visita e recentemente "Fragmentado", tema desta análise. Marcando a volta de Shyamalan a um gênero que conhece bem.

Em Fragmentado, somos apresentado a Kevin Wendell um homem que sofre Transtorno Dissociativo de Identidade, possuindo 23 personalidades, e que acaba sequestrando três adolescentes em razão de um misterioso propósito.

Primeiramente é importante mencionar que TDI (ou Transtorno Dissociativo de Identidade) é real e que existe uma parcela da população que sofre este tipo de doença. É uma condição psicológica complexa que pode ser desencadeado por inúmeros fatores, incluindo traumas graves durante a infância (abuso físico, sexual ou emocional geralmente extremo e repetitivo). 

Este tipo de psicopatologia diz respeito a dissociação da mente humana, resultando, no surgimento de novas identidades, ou de estados de personalidade dentro de uma só mente, cada qual com sua própria forma independente de se relacionar, de se perceber, de pensar, com sua própria personalidade, princípios e valores distintos entre si. Contudo, é importante mencionar, que o TDI não ocorre na dimensão que o filme explana (ao assistir você vai entender), pois o elemento do sobrenatural também exerce uma grande influência.

Sendo isto esclarecido, vamos a análise. Ao mesmo tempo que o filme é um suspense que gira em torno de um sequestro, somos apresentamos a outras narrativas bastante interessantes. A introdução da psiquiatra de Kevin na história, Dra. Fletcher (Betty Buckley), e sua busca pelo reconhecimento de seus pacientes através da comunidade científica, faz uma alusão há uma problemática atual, pois até hoje pesquisas que discutem TDI geram bastante controvérsia. Ao mesmo tempo que sua relação com o personagem na trama, indica os sinais de instabilidade deste.


Outra narrativa em que é dada bastante destaque é a de Casey (Anya Taylor-Joy), uma das meninas sequestradas, que diante de tal situação revive seus próprios demônios, fazendo a trama um paralelo muito intrigante entre sua personagem e Kevin.

Por conta da construção deste paralelo, um dos ponto negativos do roteiro é como em boa parte da história as outras duas meninas sequestradas, Marcia (Jessica Sula) e Claire (Haley Lu Richardson), simplesmente desaparecem, tornando-as completamente descartáveis. Dando a entender que seus personagens servem apenas como uma escada para o protagonismo de Casey.

Há momentos também que o roteiro se utiliza de soluções bem convenientes, podendo tais aspectos terem sido desenvolvidos com mais cuidado do que simplesmente se basear ao acaso. No entanto, não é nada de tão grave que venha a comprometer a experiência do espectador.

A atuação de James McAvoy também deve ser destacada. Ele consegue interpretar as inúmeras personalidades de Kevin com maestria, não se rendendo a uma atuação caricata. É impressionante como ator muda sua fisionomia e expressão corporal de acordo com cada personalidade, ao ponto de você simplesmente acreditar na existência delas e conseguir distingui-las no decorrer do filme, esquecendo-se por completo que estas são interpretadas pela mesma pessoa.

Anya Taylor-Joy, que vem me chamando atenção desde A Bruxa, consegue através de uma performance mais comedida passar os problemas de sua personagem, como também, seu desenvolvimento ao longo da trama faz com que está ganhe uma força, o que ajuda a criar uma empatia com o público. Alias, vale ressaltar, que é tão bom ver uma personagem que realmente pensa, suas decisões são inteligentes e completamente críveis. Fazendo com que o espectador torça ainda mais para que ela saia daquela situação.


Por falar em situação, Shyamalan acerta em trazer um ambiente claustrofóbico e opressor para a trama. Utilizando planos fechados, consegue transmitir a confusão dos personagens perante o local em que se encontram. O trabalho com os elementos de cena também é ótimo, conseguindo dar uma função orgânica a estes durante o decorrer da história.

Ademais, outro fator que ajuda a trazer todo o clima a produção é a fotografia Mike Gioulakis, que acerta bastante na transição do suspense para o terror. É bem eficiente como este transforma cenários "comuns", dando a eles uma atmosfera sombria e pitoresca. Passando uma insegurança em tela de que o perigo pode estar em qualquer lugar.

No geral, Fragmentado é um filme de suspense com toques de terror em que Shyamalan consegue lidar com bastante fluidez. Apesar de algumas falhas de roteiro e a ausência de uma trilha sonora com maior destaque, tais detalhes não irão atrapalhar a experiência do espectador. Definitivamente, M. Night Shyamalan está voltando e caso continue a trilhar este caminho seu futuro parece promissor.



LEIA TAMBÉM