Swift

Crítica: Power Rangers


Podia aparecer na capa de um jornal: Power Rangers salvam a cidade da destruição completa ao enfrentar um mostro gigante dourado. Na chamada, logo abaixo, um repórter engraçadinho talvez fizesse questão de acrescentar: Embora a cidade toda tenha ficado meio destruída no processo. Não parece mesmo com os velhos tempos, tudo outra vez? Para mim, pareceu. Power Rangers é um filme cheio de monstros gigantes, robôs gigantes, muitas explosões, efeitos visuais cafonas, com luzes borradas, com roupas coloridas e cheias de texturas, com um androide como alívio cômico e uma cabeça gigante que se faz às vezes de guia espiritual. Tudo funcionando perfeitamente coeso num filme que não tem pretensão de ultrapassar as bordas de seu gênero nem de se fazer de complexo ou inteligente. É sobre crianças, para criança e para quem ainda acredita em super-heróis. E tenho que dizer para vocês: é um alívio.
A manchete acima não apareceu no filme, mas não acho que os roteiristas se incomodariam de colocar. O filme é tão genuinamente brega que não vê mal algum rir às vezes de si mesmo. Power Rangers sabe o que tem fazer e faz tão bem. É muito verdadeiro na essência do seriado original, que é brega e infantil. Não peça mais que isso e será muito bem recompensado.

Na história, Jason, Kimberly, Billy, Zack e Trini por motivos diversos acabam explodindo uma pedreira e achando as medalhas alienígenas coloridas que salvam um pouco mais tarde suas vidas e lhes dão habilidades especiais. Unidos pelos poderes em comum e pela estranheza da situação, os cinco voltam juntos ao local e descobrem uma nave espacial e muita coisa estranha acontecendo ali dentro. Dali a gente já corre para o lengalenga maravilhosamente típico desse tipo de produção sobre o destino do universo e um terrível mal que vai tentar roubar algum objeto muito poderoso.



A gente já viu tudo isso antes, então, relaxem, esqueçam qualquer ideia de reviravolta ou spoiler e tentem lembrar de como essa história bobinha sobre amizade, união e diferenças foi importante, justamente pela redundância, durante os anos de nossa infância, durante os prósperos e mirabolantes anos 90.

O início meio realista, que brinca com nossas expectativas de chegar logo no elemento sobrenatural da história, introduz muito bem os protagonistas, destacando cada um como esquisito ou problemático, cada um a seu próprio modo, estranho ou deslocado. Isso é muito importante na hora de criar um herói, pensar no elemento de identificação antes de incluir o elemento de projeção, os perdedores em quem podemos nos enxergar sempre devem aparecer primeiro, os heróis poderosos que gostaríamos de ser só vêm depois.

Jason é o jogador de futebol, o garoto mais popular da escola, que põe tudo a perder com sua delinquência e rebeldia (até pouco justificada na história, mas simpática mesmo assim), Billy é o garoto autista e meio inseguro que tem que lidar com o os valentões da escola e com a perda do pai, Kimberly fez algo terrível e foi de garota modelo a pária na pirâmide social da escola, Zack é meio doido e imprevisível, cuida sozinho da mãe doente no estacionamento de trailers da cidade, Trini é silenciosa e misteriosa e prefere não se misturar nem se apegar a ninguém.




Com esses problemas juvenis a vista, a trama consegue ser sentimental na medida certa. É, na verdade, um tipo de sutileza até bastante surpreendente para esse tipo de produção. As personalidades funcionam muito bem juntas, a relação que vai sendo construída entre os personagens é muito bonita e eficaz, desenvolvendo bem todos os protagonistas e tornando todos eles rapidamente carismáticos.

O jeito como Billy, todo retraído, as voltas com seus transtornos obsessivos compulsivos, sente de repente que Jason tem que ser seu melhor amigo e seu parceiro de aventuras é tanto um alívio cômico quanto algo profundamente tocante.

É muito bom de ver também como Zack e Trini meio que se reconhecem na loucura um do outro.

Esse lado tão emocional, focado nas relações, ocupa a primeira metade do filme, a minha metade favorita. A ação começa em seguida e traz o enfoque para os elementos sobrenaturais e para mitologia.

Tem todo aquele processo de morfar, cada um assumir suas cores, enfrentar os homens de massa, lutar contra Rita Repulsa, vencer a Rita, a Rita trazer um monstro grandão, juntar os robôs se transformar num robô gigante e lutar com tudo, pisoteando a cidade e soltando faísca para todo lado.

De modo que Power Rangers é exatamente o que poderia ser. Um filme brega e cheio de clichês bobinhos, com monstros extravagantes e vilões que param a luta justamente quando estavam ganhando para narrar o plano inteiro, bem a tempo dos heróis se reagruparem e salvarem o mundo.

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Alguns de vocês talvez fiquem bem decepcionados ao sair do cinema. Mas só se você esqueceu como foi crescer durante os anos 90, ficar de pé na frente da televisão de tubo e repetir os movimentos na hora de se transformar. Eu sempre quis ser Billy, mas talvez você preferisse ser Jason ou Kimberly ou Zack ou Trini. Quando ficamos mais velhos, nós todos queríamos ser o Tony. Se você não se lembra disso, se não se lembra de como Power Rangers era repetitivo e previsível e ainda assim tão bom, se está pensando agora que vai sentar no cinema e ver um filme adaptado para o seu gosto de adulto ranzinza, que quer tudo coeso e muito bem explicado, que arranca os cabelos porque não entendeu qual era o plano de Lex em Batman v. Superman, lamento um pouco por você e sinto até um pouquinho de pena, porque esse definitivamente não é o filme para você. E é um filme tão incrível.

Os produtores bem que poderiam ter optado por uma trama madura, toda cheia de justificativas sensatas, conflitos mais pé no chão, cores mais sóbrias, elementos bem embasados de ficção científica, uma carga dramática que costurasse todo mundo e a história toda. Mas eles acharam que era muito melhor e mais sincero fazer um filme infantil. Porque nós erámos crianças quando nos importamos com esses personagens. Se quisermos nos importar de novo, vamos ter que lembrar.

Acho que a grande lição aqui é que a gente tem que aprender a desapegar também. Os personagens não pertencem a nós. Nem tem a obrigação de ficarem maduros e sóbrios só porque a gente não quer mais se importar com essas coisas de menino. Não são mais nossos personagens. É importante que a gente saiba disso. Depois, basta aproveitar a brincadeira, os robôs gigantes, a ação coordenada para montar o Megazord, os discursos bobos sobre amizade, união, motivação, sobre enfrentar as próprias limitações com a ajuda dos seus melhores amigos. Power Rangers é tudo que uma nova geração de fãs precisava para acreditar de novo em super-heróis.



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