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Por que a gente ainda se importa com a Mulher Maravilha


Em tese, as histórias de super-heróis sempre tiveram as boas intenções de serem muito inclusivas e tratar de temáticas universais. É a tendência de qualquer produto da cultura da mídia, atingir o mundo inteiro para lucrar muito e cada vez mais. Mesmo assim, é inegável que a maior parte desses personagens foi criada pensando num público adolescente e do sexo masculino. Superman, saindo da fachada medíocre de um tímido e desengonçado Clark Kent para se tornar o primeiro e mais reconhecido super-herói de todos os tempos, apareceu pela primeira vez como a projeção ideal de todo menino inseguro e desengonçado que passava despercebido na escola pela garota de seus sonhos. Os tantos heróis militares que surgiram junto com o Capitão América no contexto da Segunda Guerra Mundial também apelam aos meninos de maneira semelhante, também contam a história dos mais fracos se tornando de repente os maiores, os melhores e mais cobiçados pelas mulheres.

Nesse sentido, as revistas de super-heróis passaram muito tempo estereotipando a si mesmas como um gênero masculino e infanto-juvenil, interessando-se pouco pelos mais velhos, pelos menos brancos, menos norte-americanos, menos heterossexuais e menos femininos.

A dinâmica da inclusão, do deixar todo mundo se ver em todo lugar da mídia, que nos parece tão corriqueira hoje em dia, demorou a se popularizar e antes que se popularizasse passou por um período sofrido de tentativa e erro. Mais ou menos por isso que a maioria das super-heroínas chegou até nós como vedetes sensuais e quase nuas, cujas cinturas e pernas não seguiam nenhuma lógica de anatomia.


Apresentada em 1941, a Mulher Maravilha é até hoje o mais famoso e importante símbolo feminino no universo das histórias em quadrinhos. Seu criador, William M. Marston* não era um sujeito muito empolgado com tradições, nem se intimidava pela tendência masculina dos quadrinhos de sua época. Ele e a esposa eram bastante desinibidos quanto as questões de gênero e seus interesses sexuais, tanto que dividiam uma amante muito mais jovem que ambos, uma aluna de Marston, que, dizem, foi o modelo de corpo para a criação dos primeiros esboços da Mulher Maravilha.

Diferente das mocinhas de roupas muito coladas, sensuais e nada confortáveis que estampavam as capas dos quadrinhos e das revistas Playboy, a Mulher Maravilha** surgiu com uma sensualidade diferente, mais voltada para o mundo das mitologias, seus traços prezavam sempre por um corpo muito robusto e forte. Tanto Diana quanto suas irmãs amazonas apresentavam um porte atlético e togas de gladiadoras. Sem dúvida, tinham que ser garotas sensuais também, mas a praticidade das roupas e a realidade de um corpo feito para a luta eram aqui muito mais conscientes e evidentes que em qualquer revista anterior.

A personagem nos foi apresentada em sua história de estreia justamente invertendo um dos papeis mais populares dos quadrinhos de heróis. Na primeira edição, um avião da força área americana cai na paradisíaca Ilha Paraíso, local desconhecido do continente e habitado exclusivamente por mulheres guerreiras e musculosas. O Capitão Trevor, futuro par romântico de Diana, surge, então, como uma donzela em apuros às avessas, sendo, literalmente, carregado nos braços pela Mulher Maravilha, como a Lois Lane foi tantas vezes carregada pelo Superman.

Em sua reclusão utópica, essa sociedade de mulheres tinha construído um mundo de tecnologias avançadas que se somavam a tradições místicas e avançavam em escala muito maior que a sociedade patriarcal do lado de fora. Sem a violência e a brutalidade do mundo dos homens, aquela comunidade alternativa tinha fundado um sistema de governo ideal.

Com a chegada de Trevor, no entanto, primeiro homem a pisar naquelas praias, o mundo das amazonas é obrigado a mudar e se abrir pra tragédia do lado de fora. A rainha consulta suas deusas e desvenda o proposito por trás da chegada daquele homem. Diana, prestes a se tornar a Mulher Maravilha, deixa a ilha com Steve Trevor e vai salvar o mundo dos homens da terrível guerra mundial que devastava os últimos vestígios de bom senso lá fora.

              

Em termos gerais, a Mulher Maravilha não parecia muito distante das temáticas de guerra já tão popular nas páginas do Capitão América. No entanto, não se pode ignorar a força, tanto simbólica quanto comercial, de escrever uma protagonista feminina no centro de uma indústria patriarcal e dotá-la de tudo que se espera dos melhores dos homens, a força avantajada, a musculatura proeminente, o manejo das armas, o poder de acabar com uma guerra. Não dá para ignorar o impacto de uma mulher, uma supermulher, na verdade, que sabia se defender e defendia os outros também numa sociedade que ainda nem tinha começado a encarar a violência doméstica com um problema social grave.

Não é por acaso, portanto, que a Mulher Maravilha tenha sobrevivido em destaque até hoje. Ao lado de Superman e Batman, como os três mais importantes e rentáveis personagens da editora DC Comics.


A personagem vai finalmente ganhar seu primeiro longa-metragem live-action daqui a alguns meses. A atriz Gal Gadot é quem ficou responsável pelo papel. Dirigido por Patty Jenkins, o filme recebeu recentemente elogios de um grupo de jornalistas que foi convidado para assistir algumas poucas cenas selecionadas pela diretora. Se Mulher Maravilha for mesmo um sucesso comercial como se espera, a personagem, no cinema, como nos quadrinhos, deve abrir novamente as portas para mais e mais filmes de ação protagonizados por heroínas.

Se o filme da Mulher Maravilha der certo, não são só os fãs da DC que vão ter muito o que comemorar.

* Na ficção, como na vida: Marston, o mesmo cara que deu a Mulher Maravilha a sua mais famosa arma, o laço da verdade, que obriga qualquer um envolto por ele a dizer tudo com sinceridade, também é o inventor do polígrafo, instrumento usado até hoje em interrogatórios policiais, para medir os sinais que indicam a intenção de mentira. 


** Cordas, correntes e cadeados: a temática da liberdade sexual era muito mal disfarçada nas primeiras histórias da Mulher Maravilha. Não só Marston e sua esposa, como já mencionado no texto, tinham uma vida sexual nada convencional, como as amazonas pareciam viver num estado perpétuo de voluptuosidade, frequentemente aludindo ao bondage também. No livro A Sedução do Inocente, Frederic Wertham, psicólogo meio obsessivo por qualquer indício de sexualidade, disseca e critica as histórias em quadrinhos como um antro de perversão sexual que estavam ali tão somente para destruir a moral e os bons costumes dos decorosos jovens norte-americanos. Wetham jamais poderia ter visto o potencial de representação da Mulher Maravilha e tudo que ela viria a representar nos anos seguintes, já que, para ele, a personagem e suas irmãs amazonas eram meramente um bando de lésbicas vivendo de orgias numa ilha do sexo. O que não deixava de ser verdade, considerando os interesses de Marston, mas certamente não era a verdade toda. Nem a verdade mais importante. 

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