Swift

Grimm: contos de fadas para gente grande


A gente simplesmente não desapega de nossas coisinhas de criança. Pode olhar ao redor e perceber que a cultura da mídia hoje em dia é quase toda feita de releitura e nostalgia. A gente adora reviver as histórias de aventuras, tão populares nos anos 1980 e 1990, por isso que a Netflix nos entregou Stranger Things. A gente não larga de nossos super-heróis, criados há mais de 70 anos, por isso que os calendários dos estúdios estão todos lotados por super-homens, homens de ferro, morcegos, um bocado de heróis com patente militar e amazonas.  

Isso é ainda mais verdadeiro quando pensamos nos contos de fadas. Eles somem às vezes, mas nunca por tempo demais. Voltam toda vez para preencher Hollywood de conteúdo, para marcar as páginas dos quadrinhos, para se reinventar na literatura e virar seriado na televisão.

Pela nostalgia ou pela ousadia de mexer nas histórias da infância de tantas gerações, os contos de fadas parecem sempre dar um jeito de cativar o público e lotar a imaginação da audiência. A Cinderela, por exemplo, aparece de vez em quando adaptada para todo tipo de mídia, sem perder uma década. Às vezes, uma androide num contexto futurista (Cinder, de Marissa Meyer), outras vezes uma adolescente enfrentando as agonias do ensino médio norte-americano. Sempre o arquétipo da menina de coração puro, maltratada pelas aleatoriedades da vida, que encontra o amor e perde um sapatinho no baile da escola ou no espaço sideral.

Nos quadrinhos, Fábulas, de Bill Willingham e Mark Buckingham, foi publicada por quase quinze anos, com grande sucesso de público e tendo recebido as mais diversas premiações.

Os contos de fadas se reinventam, mudam para parecer mais palatáveis para tempos diversos, mas sempre encontram o caminho para mídia.


Assim, na Fall Season de 2011, a televisão americana estreou duas séries com a temática e ambas sobreviveram por muito tempo ao terror do cancelamento. Once Upon a Time, da ABC, fez mais ou menos o que Fábulas já fazia nos quadrinhos há tantos anos, conectou diversos personagens de contos de fadas e jogou todo mundo numa cidade amaldiçoada e precedida pela tragédia. No entanto, ligada tão intrinsecamente ao mundo de magia e finais felizes do universo Disney, Once Upon a Time facilmente se distanciou das propostos mais cruas e agressivas das edições mensais de Fábulas.

Chegando, finalmente, no ponto que mais importa para este artigo, temos o procedural com estrutura de investigação policial, Grimm, da NBC. A série, que escapou durante os últimos seis anos da faca do cancelamento, chegou ao fim na última sexta-feira. De minha parte, apesar de não plenamente satisfeito com esse final, fico aqui cheio de saudades.

Esse texto é sobre isso. Não é uma resenha, exatamente. Não tem como ser. É um texto sobre saudade e sobre como a gente tem que toda vez se despedir dos nossos personagens mais queridos. Não é uma crítica, é uma tentativa de conseguir ganhar alguns de vocês, para que, se ainda não o fizeram, deem uma chance a Grimm agora. É uma série cheia de problemas, que passa raspando muito próxima dos clichês de vez em quando, mas que, sem dúvida, tem toda chance de cativar você com personagens bonitos e inesquecíveis.  


Para quem nunca viu a série, o texto tem spoiler por toda parte. Para quem acompanha fielmente e com amor, mas ainda não viu o final, cuidado com os últimos parágrafos também. Como de praxe, sigam por sua conta e risco.

Grimm nunca chamou tanta atenção quanto sua contemporânea, Once Upon a Time. Na verdade, geralmente saía em desvantagem em termos de audiência. Apesar do tema similar, no entanto, Grimm e Once Upon a Time nunca tiveram muita coisa em comum.

Criada por David Greenwalt (de Buffy, A Caça-Vampiros) e Jim Kouf, Grimm trouxe uma trama adulta, frequentemente trágica, sem recorrer muito a soluções mágicas, mais ligada a violência e ao assassinato. A série, que brincava mais com mitologia geral que com contos de fadas mais específicos, recortava as criaturas dos contos infantis e as inseria no contexto contemporâneo, sempre pensando as feras e monstros como uma entidade reprimida da raça humana.

Nesse sentido, Grimm conseguiu alcançar um caminho que Once Upon a Time nunca teve muito interesse de percorrer. Em Grimm, os roteiristas sempre pareceram muito mais apegados às origens sombrias desses contos de fadas, que, como sabemos, eram narrados geralmente em tom de advertência, com um desenrolar perverso e fatal, para manter as crianças comportadas e dóceis.


Na trama, Nick Burkhardt, um policial de Portland, Oregon, começa a perceber um padrão de violência um pouco fora do comum durante suas investigações de assassinatos. As vítimas em sua cidade nunca parecem morrer de causas previsíveis ou lógicas, nunca são meramente baleadas, afogadas ou sufocadas, mas sempre dilaceradas, partidas ao meio, desfiguradas por mordidas, órgãos extraviados ou mortos fugindo do necrotério. Nick também parece ver o mundo um pouco fora da curva, os suspeitos em seus casos frequentemente se transformam em algum tipo de fera absurda que ninguém mais parece perceber.

O caso é que o nosso protagonista logo descobre ser descendente de uma longa e antiga linhagem de guerreiros sobrenaturais, que identificam e caçam monstros mitológicos e criaturas folclóricas. O velho truque narrativo do “todas as histórias são reais” tão comumente utilizado em tramas de fantasia aparece aqui ao pé da letra, já que, na série, os irmãos Grimm não só contavam essas histórias de seres sobrenaturais e os perigos que se escondem nas sombras da floresta, mas também viviam e apuravam cada uma delas.

Dia a dia.
Com essa premissa simples (e até bastante elegante para uma série policial), Grimm poderia se manter no ar por muitos anos, seguindo a estrutura tão popular na TV americana do caso da semana, mas o que realmente vai tornado a série cativante a medida que a trama avança é como os roteiristas conseguem construir e enriquecer a mitologia da série, criando eles mesmos seus próprios contos, suas próprias regras para explicar os elementos de fantasia, dando dimensão a esse mundo estranho até cercá-lo de uma aparência muito firme de verossimilhança e plausibilidade. Afinal, para mim, esse sempre será o grande desafio de qualquer trama de fantasia: não deixar que os aspectos mágicos de sua história se tornam de repente muito aleatórios. Numa série de TV de longa duração, é imprescindível que a mágica não torne a vida dos protagonistas fáceis demais.

Em Grimm, como, inicialmente, a única habilidade do protagonista era ver essas criaturas, soluções mágicas não se tornaram uma saída constante do roteiro. Nick é um policial, tem habilidades investigativas e intuitivas, maneja muito bem diversos tipos de armas e sabe lutar e se defender. É tudo que ele tem contra um bando de monstros imprevisíveis que teimam em aparecer em sua cena do crime.

No geral, em séries desse tipo, eu teimo em não prestar muita atenção no herói, porque a jornada de descoberta deste tende a ser repetitiva e um pouco chata, me apegando muito mais aos coadjuvantes divertidos que provém algum alívio cômico e tiradas sarcásticas. Não dá para ignorar Nick, no entanto. Foi uma das coisas que realmente me chamou atenção para série. Nick é um protagonista relevante. Mesmo que a série tenha um grupo de coadjuvantes interessantíssimos, a história simplesmente não vai a lugar nenhum sem seu protagonista, que realmente corre sempre em direção a ação e não tem receio de enfrentar os vilões de punhos cerrados.


Nick é um elemento imperativo da história e só quando ele vai à luta é que as coisas conseguem se solucionar. A gente realmente se importa com ele, quer que ele vença, quer que todo mundo que enfrenta ele perceba logo quanto ele é badass. É o tipo de coisa que tem feito falta em séries de ação hoje em dia. Sem querer jogar um shade em Arrow, mas já jogando, embora Nick realmente tenha um grupo de amigos muito carismático e útil, para os quais ele tem que recorrer de vez em quando, é estimulante perceber que ele não precisa levar cinco ou seis heróis consigo sempre que decide entrar em uma batalha.

Mesmo com um protagonista de peso, Grimm também tem tempo para desenvolver bem seus coadjuvantes e tornar a maioria deles até muito interessante.


No núcleo doméstico, temos Juliette, a namoradinha do herói, odiada por uns tantos (que sempre acharam a personagem sem carisma nem presença), queridinha de outros (que viam potencial para desenvolvimento dentro da trama), ela passa por uma longa jornada de transformação ao longo da série. Talvez de todos os coadjuvantes, a que mais muda e se reinventa. Inicialmente, nada mais que o porto seguro e consolo para um Nick frequentemente fora de sua zona de conforto, a personagem ganha mais espaço a partir do final da segunda temporada, envolvendo-se mais diretamente com o enredo, com as investigações e com os confrontos. Numa virada surpreendente que deixou muito fã de cara virada e cabelo em pé, Juliette se transforma na grande vilã da quarta temporada, meio que morre, volta na temporada seguinte, passa por algum tipo de lavagem cerebral e aparece muito mais poderosa e controlada, de volta ao grupo dos mocinhos, mas nunca mais volta a fazer par romântico com Nick, o que desagradou alguns, mas abriu espaço para novas oportunidades na série.


No núcleo das caçadas, temos Monroe, um dos favoritos de grande parte da audiência. Monroe é blutbad, a fera lupina que deu origem ao conto do lobo mau. Apesar das tendências violentas de sua espécie, ele é um pacato relojoeiro, vegetariano, apaixonado por antiguidades, mitologias e histórias. Meio atrapalhado, do tipo que tem sempre muita coisa para dizer, mesmo quando ninguém está muito interessado em ouvir. Ele se torna um dos melhores amigos de Nick já no primeiro episódio e meio que assume o papel de guia para assuntos wesen (que é o termo alemão para designar as criaturas em geral), junto com Rosalee, a dona de uma loja de especiarias, que chega à cidade para investigar o assassinato do irmão e logo descobre que Nick é um Grimm e que ela pode ajudar.


Na delegacia, o núcleo profissional, temos Hank, o parceiro de Nick, e Wu, um tenente que está sempre envolvido com Nick e Hank nos casos atípicos de assassinatos envolvendo wessens. Por muito tempo, nenhum dos dois percebe que Nick é um Grimm, nem fazem muita ideia de como ele chega nas conclusões mais estranhas para cada investigação. É legal no início, mas a série realmente fica muito melhor quando o time todo se integra a respeito das criaturas.

Além dos dois, temos Renard, o capitão da delegacia, que também é um wesen e sabe até mais do que Nick sobre o universo no qual nosso protagonista está se metendo. Renard é o tipo de personagem ambíguo que tem interesses próprios e pode às vezes ajudar Nick em sua jornada, mas só se isso tiver de acordo com seus próprios planos. Sua moralidade conturbada é um dos principais pontos de flexão da trama, que constantemente mexe com o status quo do personagem e o coloca muitas vezes mais como antagonista que coadjuvante.


Correndo por fora, temos Adalind, a personagem mais controversa da trama. Adalind começou como figurante, tornou-se levemente recorrente, subiu para o patamar de vilã importante, começou a conquistar os fãs com se jeitinho cínico de sempre levar Nick ao limite da ira. A jornada de Adalind é uma complicação atrás da outra. Por ser o tipo de vilã com habilidades mágicas, intuição e estratégia, sempre pareceu um problema maior do que Nick podia resolver, já que as habilidades de Nick são físicas e agressivas em sua maioria. Foi impossível evitar que uma boa parcela dos fãs começasse a investir num shipper. Os próprios roteiristas parecem que não se aguentaram também. Então, quando Juliette se torna uma vilã ao longo da quarta temporada, ela está na verdade meio que trocando de papel com Adalind, que deixa de ser a bruxa astuciosa das primeiras temporadas para se tornar o par romântico de Nick.


Posso estar me alongando um pouco demais nesta postagem, mas eu realmente precisava falar um pouco desses personagens e de como uma série que deveria ter sido só mais uma trama de investigação policial com monstros se tornou uma trama consistente e firmada numa mitologia própria e bem amarrada. Esses personagens realmente conseguem ganhar você. Eles têm dramas interessantes, eles têm um relacionamento interessante (embora de vez em quando Grimm gostasse de se tornar um novelão com gravidez inesperada e traição), eles têm química entre si, eles funcionam dentro desse mundo de fantasia, esse mundo de monstros e sobrenaturais, mas funcionam principalmente como meramente humanos, como foco de identificação.

Grimm poderia mesmo ter sido mais um procedural, mais uma série do mundo pós-CSI, sobre mais uma dupla qualquer de policiais com algum talento acima da média,  sem muito apelo nem carisma. À primeira vista, realmente não parecia ter pretensão de ir muito além de uma estrutura de investigação, com um pouco de suspense e um único elemento diferencial, o terror associado às criaturas de contos de fadas. Mas a mitologia que a série conseguiu construir tirou a carga cansativa do modelo caso da semana e nos presenteou com um mundo rico que sabia muito bem como dosar realidade e fantasia, sem nunca pesar demais para nenhum dos dois lados.


Mesmo que para muitos as constantes reviravoltas no status quo do grupo de personagens tenha feito a série perder bastante seu fôlego nas duas temporadas finais, o saldo final de Grimm é definitivamente positivo. Uma série que fez muito com pretensão nenhuma, que conseguiu romper com a prisão de sua estrutura pré-definida e fixar as particularidades de sua mitologia, conseguiu, sobretudo, construir relacionamentos e interações entre personagens cativantes e inesquecíveis.

Embora já viesse amargando sucessivas quedas em sua audiência regular, Grimm ainda era uma série bastante firme para idade e tinha uma base fiel de fãs que vão sentir falta do carisma, do terror, do suspense e dos roteiros ás vezes quase um pouco trash, mas bem executados mesmo assim.


Grimm terminou e não foi o melhor final que poderia ser. Queria ter visto tanta coisa antes que os créditos subissem, mas tenho que me apegar àqueles últimos dois minutos, aquela promissora cena que se passa vinte anos depois. Ver Kelly e Diana adultos, levando o legado de Nick adiante, falando sobre os pais como os grandes caçadores que foram, mencionando os trigêmeos, filhos de Rosalee e Monroe, foi tudo tão simples e bonito, queria que o último episódio tivesse sido mais sobre isso, sobre legado e sobre, só dessa vez, um final feliz.

Quem sabe um spin-off sobre Diana, Kelly e os triplos? Nunca te pedi nada, NBC.

LEIA TAMBÉM