Swift

Resenha: Valente, de Vitor Cafaggi


Criado pelo quadrinista brasileiro Vitor Cafaggi, o cachorrinho adolescente Valente protagoniza uma série de tirinhas fofinhas e muito carismáticas, que brincam com o primeiro amor, com os desencantos, com o tipo de humor meio ingênuo dos filmes de aventuras e descobertas tão populares na Sessão da Tarde dos anos 1990. Cafaggi, junto com sua irmã, a também quadrinista Lu Caffagi, cresceu com essas histórias e quando precisou elaborar um personagem para uma série de tiras dominicais, Valente nasceu em sua mente e logo se tornou seu trabalho mais conhecido e celebrado no país.

As tirinhas seguem todas uma mesma linha de paixão juvenil, tentando rir da falta de preparo emocional da infância e da adolescência. Os roteiros brincam o tempo todo com os clichês mais populares do romance, partindo do bom e velho Garoto conhece Garota e desenrolando tudo o mais que precisar a partir daí. Já nas primeiras páginas, somos apresentados ao distraído Valente, que se descobre perdidamente apaixonado quando cruza os olhos com uma estonteante gatinha, chamada Dama, parada na calçada com um sorriso meigo estampado nos lábios. Valente não sabe que o sorriso de Dama é só uma feliz coincidência, que ela estava naquele momento exato pensando numa piada recentemente contado em seu ouvido, e confunde sentimentos com distração.

A maior parte das aventuras do protagonista ficam então oscilando entre esperança e frustração, enquanto Valente faz de tudo para chamar a atenção de seu amor quase nunca correspondido.


Com pouca história para desenvolver, toda a graça da tirinha depende do carisma de seu protagonista (e dos tantos coadjuvantes que vão aparecendo quanto mais as páginas avançam, naturalmente). O cachorrinho atrapalhado e meio bobo é mesmo cativante o suficiente para carregar a premissa simples dos roteiros sem esforço nenhum. Isso é mérito tanto do texto quanto do traço. As linhas tão fofinhas e adoráveis que compõem o tema básico das tiras faz gosto de acompanhar e ler. Tanto o Valente quanto sua amada, Dama, são lindamente construídos num traço tão simples quanto único e facilmente associável ao autor.

É fácil perceber também as influências de Bill Watterson (e seu Calvin e Haroldo) e de Charles Schulz (e seu clássico Peanuts) dando forma as ideias e tiradas irônicas no texto.

Quem já conhece o trabalho do Cafaggi, seja por seu outro famoso personagem de tirinhas, o Puny Parker (a mais linda homenagem ao Homem-Aranha, uma verdadeira carta de amor do Vitor para seu personagem preferido), seja por seu trabalho, ao lado da irmã, com a Turma da Mônica para as publicações da MSP, não vai ter dificuldade em identificar aqui os temas e o frescor já tão típicos de seu trabalho, que encontra beleza na simplicidade, nos sentimentos mais sutis e bobos, às vezes a amizade inabalável de uma turminha liderada por uma baixinha zangada e dentuça, outras vezes a sublime encarnação do amor brega da juventude.

Puny Parker encontra Wolverine, por Vitor Cafaggi. Imagem retirada do blog do autor.
As tirinhas do Valente estão sendo reunidas numa série de coletâneas publicadas nacionalmente pela editora Panini. A coleção já conta com cinco títulos: Valente para sempre, Valente para todas, Valente por opção, Valente para o que der e vier e Valente, para onde você foi?

Valente faz parte das leituras de abril para o nosso Desafio Literário. Todas as dicas de leituras referentes às temáticas de cada um dos próximos meses, vocês podem conferir aqui.



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