Swift

Crítica: Sense8 (2ª Temporada)


Depois de quase dois anos de espera, podemos finalmente anunciar que Sense8 está viva e voltou para sua segunda temporada na semana passada, com dez novos episódios adicionados ao catálogo da Netflix (em tese, a temporada é composta por onze episódios, sendo que o especial de Natal lançado no ano passado compõe a estreia). Apesar de muito amada nas esquinas escuras da internet, a série também foi bastante criticada em seu primeiro ano, por suas temáticas polêmicas, por algumas abordagens bem bregas mesmo, por um roteiro bem inusitado em estilo, sem meias palavras, sem especificidade de gênero, às vezes didático e lento, mas escapou, sem muitos problemas do fantasma do cancelamento, mesmo exigindo uma complexa e caríssima logística de produção, que não só inclui os gastos de viajar o mundo inteiro com uma equipe imensa, mas que tem que lidar também com as despesas de ter grandes nomes no roteiro e na direção (o popular roteirista de quadrinhos e televisão, J. Michael Straczynski, e as irmãs Wachowski, criadoras do clássico contemporâneo Matrix).

Com sua proposta estranha, intrigante e emocionante, Sense8 chamou a atenção em sua estreia por propor a análise de um mundo tão conectado, globalizado e expansivo como o de nossos tempos num contexto de ficção científica que dava forma ao tema e escancarava as questões da diferença, da aceitação e da empatia. Na história, oito pessoas em oito cidades diferentes do mundo acordam para uma nova percepção da realidade quando se descobrem empaticamente conectados uns aos outros. Tudo que um sente é sentido através do mundo na vida dos outros sete. Tudo que um sabe se espalha pela rede emocional para os outros sete também. Todo conhecimento e habilidade é devidamente compartilhado entre todos os membros do chamado cluster, um termo americano que, na série, designa uma espécie de família de renascimento, um grupo de oito indivíduos aproximados por um mistério em comum.


Os membros do nosso cluster de protagonistas são: Will (Brian J. Smith), um policial de Chicago com uma conturbada relação com o pai, Riley (Tuppence Middleton), uma D.J islandesa popular nas noites europeias, Capheus (Aml Ammen, na primeira temporada, Toby Onwumere, na segunda), um motorista de ônibus do Quênia, fã número 1 do Van Damme, tentando salvar a mãe que precisa constantemente de remédios caros em uma região carente, Nomi (Jamie Clayton), uma transexual de São Francisco engajada em causas sociais e ataques digitais, Sun (Doona Bae), uma empresária sul-coreana numa batalha de vida ou morte contra o irmão, Lito, um ator de filmes de heroísmo masculino brega no cinema mexicano, Wolfgang (Max Riemelt), um ladrão de cofres de Berlin, e Kala (Tina Desai), uma farmacêutica indiana.

Da noite para o dia, os oito começam a se ver uns na vida dos outros e precisam tentar se descobrir e se entender ao mesmo tempo que correm para ficar a salvos de uma perigosa e misteriosa organização secreta que os caça.

Mais centrada nas questões emocionais de seus oito protagonistas, a primeira temporada da série, apesar de bem escrita e dirigida, sofre com problemas de ritmo, com um mistério arrastado e pouco abordado, que não cativou o fã típico de ficção científica (que provavelmente sonhavam com algum tipo de reinvenção de Matrix), mas o carisma de seus personagens, a original e muito inteligente dinâmica de compartilhamento entre eles, bem como a química do elenco, acabou por conquistar uma base fiel e muito engajada de fãs no mundo inteiro (com destaque, na verdade, para nós, aqui no Brasil, que demos nosso jeito de chamar a atenção da Netflix e dos próprios criadores), garantindo um novo ano para a série, que, embora tenha tardado, certamente não falhou com a expectativas da espera.

O segundo ano de Sense8 é muito melhor, maior em sua proposta, mais à vontade com seus temas e suas estratégias, mais simples na tela, o que, inevitavelmente, traz uma sensação boa de coerência e quase conserta qualquer desconforto que a primeira temporada possa ter causado em parte do público.


Sense8 traz uma segunda temporada muito mais ágil, voltada para um plot principal, sem abandonar seus temas de caráter humano nem esquecer o desenvolvimento emocional de seus personagens tão queridos. Uma vez estabelecidos os personagens e os conceitos fundamentais para trama, a série parece de cara muito mais confiante em usar suas habilidades e a empatia do grupo.

A dinâmica de compartilhamento aparece de modo tão mais natural nesta nova temporada. Vemos o grupo interagindo o tempo inteiro, sem mais o recurso da desconfiança, do “ainda estou aprendendo”, utilizado à exaustão no ano anterior. Aqui, todo mundo faz uma boa ideia do que está acontecendo, entende seus outros corpos, suas outras mentes, visitam-se com frequência, conversam sobre o mais profundo de suas almas, mas também sobre as minúcias do dia-a-dia, ajudam quando a vida de um corre perigo, mas também se unem para defender a existência do grupo todo, já que agora, não são só Will, Riley e Nomi que estão diretamente envolvidos com o mistério principal, mas todos se sentem um pouco acuados pela ameaça sempre presente de Sussurros (Terrence Mann).

"Você acha que está nos caçando? A gente está indo pegar você". Will, vai com calma enquanto pisa no Sussurros, eu imploro.
Quem assistiu com ansiedade os compartilhamentos um pouco tímidos da primeira temporada, foi devidamente recompensado com a segunda. É comum, nos dez capítulos deste segundo ano, ver o grupo completa em cena desde o primeiro episódio. Há uma sensação satisfatória de naturalidade presente nessas interações: vê o grupo todo aparecendo para socorrer Will, reconhecer sua dor e se mostrar todos tão gratos pelo tanto que ele vem lutando para proteger a si mesmo e os outros sete, vê a lindíssima, tensa e emocionante cena em que Sun escapa da prisão, nos dois primeiros episódios, a sua quase morte sendo filmada com o corpo de todos, a sua luta sendo mostrada a partir dos golpes de todos, seu alívio ao finalmente escapar tocando de um jeito agradável às emoções de todos os outros.

Esses momentos de compartilhamento são a costura adequada do roteiro, que, embora não trate muito profundamente, ponto a ponto, os dramas pessoais dos personagens principais desta vez, mergulha em definitivo, sem volta, na trama principal, na mitologia em torno das habilidades dos sensates, descobre novos poderes, novos personagens, novas esquinas deste complexo cenário de ficção científica.


A introdução de novos personagens, aliás, tem alguns destaques interessantes. Com Sun finalmente fora da prisão, por exemplo, temos uma volta completa em seu arco dramático, dando mais espaço de ação para personagem. Agora, Sun está livre e quer vingança contra seu irmão cruel e mesquinho. O responsável por investigar a fuga da personagem, o detetive Mun, não consegue escapar dos encantos dos mistérios de Sun (a gente entende, porque nunca conseguimos também, não é verdade?) e ao invés de caçá-la parece muito mais interessado em desafiá-la para combates em cemitérios ao nascer do sol, acertando não só o roteiro como a plasticidade da cena que é tanto de ação quanto romântica.

Atento ao casal Sun e Mun, escrito nas estrelas.
Além dele, novos sensates surgem pelo mundo, criando vínculos de visita com os oito protagonistas, destaque humorístico para o devasso Puck (descrito por Rilye como o equivalente a uma DST do mundo sensate) e o adorável e muito útil Velho de Hoy.

Outro grande acerto dos novos episódios, também relacionado a novos rostos na trama, foi a inclusão de um novo cluster completo, um cluster adversário, o que possibilitou que o roteiro encenasse uma batalha coreograficamente perfeita e muito inventiva. A ideia em si é mesmo tão genial como parece. Dois personagens se utilizando de dezesseis corpos para lutar, e o modo como o roteiro constrói a rivalidade entre os dois grupos só deixa tudo mais interessante, mais impressionante de assistir, mais plástico na tela, já que a direção de Lana Wachowski não se interessa muito por efeitos especiais e aposta na beleza de coreografias e truques de câmera para colocar e tirar seus personagens da tela.

Olá.
Eu quis fazer uma resenha bem profissional, a coisa mais ética, bem imparcial mesmo, mas a verdade é que estou aqui para exaltar a existência de Sense8. Porque se existe uma verdade neste mundo de mentiras chamado internet é que imparcialidade não existe e que não adianta também ficar torcendo contra se o coração só quer venerar essa série linda, cheia de plasticidade de imagem e temáticas bonitas e cruciais.

A questão é que a nova temporada me tem no chão. Agora que já conhecemos nossos protagonistas, já os amamos, já queremos protegê-los, a história segue adiante de modo natural.

Embora ainda desafie qualquer classificação de gênero, Sense8 conseguiu se adequar um pouco mais à caixinha da ficção científica, o que ajudou a dar mais ritmo para trama sem, na verdade, prejudicar o lado emocional e introspectivo da história (vide o especial de Natal que, na prática, faz parte desta segunda temporada, mas mantém a linha mais dramática da primeira). Abordar a trama principal e os conceitos de seu mundo me pareceu o caminho natural e lógico. Não uma reviravolta ou uma fuga de sua proposta original. Acho, inclusive, que a nova temporada nos ajuda a olhar para os tais problemas de ritmo da primeira com outros olhos. Era tudo necessário, no fim das contas.


Em suma, Sense8 acerta ao apostar no equilíbrio entre tema, ritmo e desenvolvimento de personagens, construindo uma temporada mais sólida e aparentemente mais redonda, onde os criadores aproveitam a maturidade dos personagens para parecerem eles mesmo mais maduros na confecção da trama.

LEIA TAMBÉM