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Resenha: Os próprios deuses, Isaac Asimov


Em termos de conceitos científicos e de estruturação narrativa, Os próprios deuses talvez seja a obra mais desafiadora do próspero e aclamado autor de ficção científica Isaac Asimov. A trama de universos paralelos proposta aqui escapa, sem grande esforço ou saltos mirabolantes de estilo, das principais armadilhas e chavões do gênero ao contar uma história superficialmente simples, mas profundamente densa por desdobrar conceitos nada óbvios de física e química, mostrando a humanidade em seu melhor (quando propõe uma solução para crise de energia) e em seu pior (quando a falta de curiosidade sobre os mundos a sua volta parece pôr tudo a perder). Nisso reside também a genialidade do curioso título da obra, uma referência à peça A donzela de Orleans, do alemão Friedrich Schiller, que argumenta que “contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão”.

Na trama, dividida em três partes, acompanhamos intercaladamente os três pedaços de uma mesma descoberta: a Bomba de Elétrons, uma máquina capaz de trocar substâncias (bem como resquícios de leis da física diferenciadas) entre universos distintos e criar uma reserva ilimitada de energia útil.

Na primeira parte, Frederick Hallam, um químico, percebe, meio que por acidente, que uma amostra de Tungstênio-186 sobre sua mesa foi misteriosamente substituída por Plutônio-186, que nem é um elemento estável possível segundo as leis da física de nosso universo.
A partir dessa estranha conclusão, Hallam percebe estar lidando com escambo entre universos paralelos e se aproveita desta descoberta para revolucionar a ciência e o mundo com uma nova forma de produzir energia.

Na segunda parte, descobrimos, então, que universo é esse capaz de gerar Plutônio-186 de maneira espontânea e percebemos que ele tem muito pouco a ver com o nosso. É aqui que Asimov traz suas ideias mais interessantes para a história. Fugindo da esperada antropoformização, o autor nos apresenta aqui uma outra e bastante diversa forma de vida, inquietante não só em suas formas (difíceis de descrever e de identificar), mas também em seus hábitos e na estrutura complexa de sua sociedade. Ao acompanhar Dua, a parte emocional de um casamento de três (Odeen, o racional, e Tritt, o paternal), desvendamos um pouco deste novo mundo, a beira da extinção, e como o sistema de troca entre os universos pode trazer de volta o equilíbrio da vida no planeta.

Na terceira parte, Asimov quebra de novo o andamento da história, volta para o mesmo universo da primeira parte, mas não se repete em nada, descrevendo agora a vida de uma colônia de humanos na Lua. Nesta parte, um cientista frustrado que caiu em desgraça durante sua vida na Terra, tenta, com a vida no espaço, encontrar de novo sentido para sua existência. Aparentemente desconexa, a trama desenvolvida aqui consegue juntar os pontos levantados ao longo do livro inteiro e propor um desfecho tão surpreendente quanto confiante, meio que batendo de frente com a desesperança do título.

Numa obra curta, sem necessidade de continuações ou prólogos, Asimov viaja pelos mais diversos conceitos do universo da ficção científica e nos entrega uma obra coesa, com aparência de simplicidade e coerência de conceito, mesmo que não se interesse em desenvolver ao nível da empatia a maioria de seus personagens.

Com uma narrativa fluida que de vez em quando se quebra de maneira proposital, Os próprios deuses se apresenta como uma obra indispensável para os fãs de ciência bem discutida e embasada, embora possa parecer confusa, no início, para quem, como eu, não saberia muito bem o que fazer com os diversos conceitos de química jogados nas primeiras páginas.

Não vou cometer o anacronismo de exigir de Asimov, numa obra publicada pela primeira vez em 1972, complexas representações femininas, mas vale apontar que Os próprios deuses repete um elemento comumente criticado nos trabalhos do autor: falta de profundidade na construção de personagens femininas. Para ser justo, devo dizer que não acho que Asimov se preocupe em dar profundidade às construções de qualquer gênero, visto que seus personagens masculinos são igualmente bidimensionais. O que tornou Asimov uns dos grandes autores do gênero nunca foi seu profundo entendimento das emoções humanas, mas sua capacidade de repensar o universo (aqui posto no sentido de todo, não do lugar no espaço), de pensar a humanidade como um panorama geral e promover experiências literárias a partir de padrões dominantes.

Nesse sentido, Os próprios deuses, apesar de mais simples que Fundação, sua obra mais famosa, talvez seja a minha preferida. Por, na simplicidade mesmo, ter tentado solucionar o mau do mundo e sua estupidez.

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Isaac Asimov escreveu muito e com muita qualidade. Essa é geralmente a principal informação sobre o autor. Com mais de 500 (entre obras escritas e editadas), Asimov, com seu conhecimento e criatividade próspera é até hoje um dos principais responsáveis pela difusão dos ideais da ficção científica. Entre seus trabalhos, podemos destacar a trilogia Fundação (e suas continuações), O fim da eternidade, além dos seus diversos trabalhos sobre robôs e vida cibernética. Asimov morreu em 1992, por falência múltipla de órgãos. O autor havia contraído o vírus da Aids numa transfusão de sangue realizada durante uma cirurgia. O bom doutor traído pela má ciência no final.

Título: Os próprios deuses;
Autor: Isaac Asimov;
Ano: 2010;
Editora: Aleph.

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