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Universo DC Renascimento: quando os heróis renascem e a força de seu legado


Apesar de ter comemorado um impressionante sucesso comercial no início de sua jornada, a iniciativa conhecida como Os Novos 52 também amargou pesadas críticas em relação ao seu tom, em relação ao visual forçadamente modernizado e, principalmente, em relação à pouca compatibilidade de seus novos temas com os personagens que o público tinha aprendido a amar ao longo dos seus prósperos 70 anos de existência. O Superman dos Novos 52 talvez fosse mesmo um personagem mais contemporâneo e que apelasse mais amplamente para o novo público, mas muitos fãs pareciam já não o reconhecer mais como um Superman. O mundo dos Novos 52 se parecia muito mais com o nosso mundo, era mais palpável de fato, mais ligado aos problemas da realidade de nossos tempos, mas, no fim, para alcançar esse mundo, muitos dos nossos personagens preferidos pareciam ter tido que deixar para trás a capacidade de sonhar e de nos deixar imaginar outras realidades juntos com eles.

A proposta dos Novos 52 trouxe a DC de volta para o topo das listas de vendas por um tempo (embora não muito tempo), o que foi importante para a empresa, que pôde rever seus problemas financeiros, confiar de novo na capacidade lucrativa de seus quadrinhos; também nos trouxe algumas boas histórias, principalmente no primeiro ano, trouxe uma ou outra reformulação de impacto duradouro, como o Aquaman e as mudanças propostas por Johns no universo dos Lanternas Verdes, por Snyder no universo da família do Morcego e por Morrison nas origens do Superman.

Mesmo assim, o impacto financeiro, por si só, não tinha como segurar as pontas por muito tempo. Os Novos 52 realmente trouxeram um mundo de novos leitores para as páginas do Universo DC, mas o exagero das jogadas de marketing e a pouca consistência do material num nível conceitual afastou os antigos fãs também, que já não reconheciam na DC o mundo pós-Crise*.

Mas esse texto não é sobre como Os Novos 52 não deram certo, é sobre o que deu certo depois.
A impressionante capa principal deste especial traz uma reinterpretação do quadro A Criação de Adão, de Michelangelo, mostrando os heróis como os homens criados pela misteriosa mão azul do Dr. Manhattan.  
O Renascimento está finalmente chegando às bancas de todo o Brasil, heróis estão ressurgindo e o gosto pelos quadrinhos também. Nesse texto, quero falar um pouquinho sobre o especial Universo DC Renascimento e, mais a frente, destacar alguns dos melhores momentos dessa impressionante sequência de abertura do novo Universo DC.

Em Universo DC Renascimento, nós acompanhamos Wally West, o terceiro Flash (talvez o mais querido, por causa da próspera e popular fase do personagem escrita por Mark Waid e por ter sido um dos protagonistas da clássica animação Liga da Justiça/Liga da Justiça Sem Limites), está viajando através da Força de Aceleração, tentando encontrar o caminho de volta para Universo DC. Ele foi esquecido, como muitos outros aspectos do universo pós-Crise, Wally não foi escrito no mundo dos Novos 52. Há uma grande ameaça manipulando as coisas, escondendo a verdade dos heróis e enfraquecendo o mundo. Wally não sabe exatamente porquê, mas ele precisa voltar, precisa descobrir e impedir o horror que se aproxima. Ele precisa, antes de tudo, que alguém se lembre dele e o puxe de volta para a existência. Ao longo das páginas do especial, Wally visita esse novo mundo, aparecendo para diversos personagens, tentando avisar do perigo, tentando se fazer lembrado. É um apelo tanto para os personagens quanto para os leitores.    


(Os destaques a seguir não correspondem a um pódio, mas a ordem em que aparecem na revista mesmo).

1. A narração inicial e o momento em que percebemos que Wally West está vivo e que ele sentiu tanta falta de nós quanto sentimos dele

Nós fomos avisados com antecedência sobre o Renascimento. Nós sabíamos da volta de Wally West. Nós sabíamos que os personagens de Watchmen estariam envolvidos na história. Nós sabíamos, portanto, que o novo Universo DC seria uma história sobre legado e perda, sobre voltas e reencontros. Não foi uma surpresa perceber no tom da narração inicial o sentimento de saudade e nostalgia. Não precisava ser uma surpresa. Aqueles primeiros quadros são tão importantes, tão relevantes e trazem tanto impacto para o plano geral das coisas que a ideia de spoiler nem faz muito sentido aqui. Eu li este especial algumas vezes desde que ele foi lançando nos EUA e o coração disparou toda vez. Em termos de estrutura da página, vale destacar a composição tão característica do mundo de Watchmen, nove quadrados simétricos numa página inteira. O tema do relógio, do tempo correndo e atravessando todo o universo DC não deixa dúvidas também: a mão que ameaça os nossos queridos super-heróis é a mão azul do poderoso relojeiro. O texto, reproduzido abaixo, fica aberta a todo tipo de teorias e interpretações.
Página traduzida e divulgada pela Panini Comics. Você pode conferir em melhor resolução aqui.
Wally está falando sobre coisas perdidas, coisas tiradas de nós. É quase um pedido de desculpas, é o fan service que vale. Wally aparece numa página inteira depois e traz todas as memórias de volta ao reproduzir seu mais famoso jargão: Eu sou Wally West, e eu sou o homem mais rápido do mundo.

2. Johnny Trovoada tão perdido e esquecido quanto Wally, preso em asilo e no beco sem saída de sua Alzheimer

A curta, mas muito significativa aparição de Johnny Trovoada mareja um pouco meus olhos. Apesar de nunca ter sido um personagem particularmente popular, Johnny Trovoada diz muito sobre quadrinhos de tempos mais ingênuos, quadrinhos mais coloridos, mais mágicos, sem tanta obrigação de vender muito e se tornar em seguida a próxima adaptação de sucesso no cinema. Johnny era basicamente uma criança traquina e sortuda que tinha o poder de invocar um gênio de eletricidade para fazer suas vontades.

"Encontre a Sociedade da Justiça!", insiste Wally. "É tudo que eu tenho tentado fazer", Jonnhy diz.
Em Universo DC Renascimento, encontramos Johnny já muito velho, a memória debilitada pelo Alzheimer, sendo perseguido e maltratado pelos funcionários de um asilo. É o jeito do roteiro nos avisar que nossos personagens envelheceram, que, por mais que a gente se esforce e reclame, não dá para recuperar tudo que perdemos.

3. O legado

O legado é a saída perfeita para unir novos e velhos mundos num único universo DC. Geoff Johns sabe disso. Ele cresceu lendo quadrinhos e entende esses personagens como ninguém. Ele também cresceu no mundo editorial e entende o aspecto financeiro da coisa toda muito bem. Não dá para ficar tão rigidamente ao passado, Johnny não é mais um garoto, no fim das contas, não é? Também não dá para dar as costas para tudo que esses personagens já significaram na vida de uma legião de fãs. Há um novo mundo a ser explorado em Renascimento, mas há também o legado de um mundo velho. Isso aparece em diversos momentos da história.

1. Quando Ryan encontra a gravação do Ray Palmer.


2. Quando vemos o primeiro encontro entre Ted Kord, o Besouro Azul original, e Jaime Reys, seu mais novo pupilo.


3. Quando percebemos quão semelhante o novo Robin e o velho Batman são.


4. Quando Hal Jordan deixa a proteção da Terra nas mãos dos seus recrutas, Simon Baz e Jessica Cruz.

5. Quando Aqualad assume a sexualidade para a mãe.


6. Quando a morte do Superman dos Novos 52 torna a presença do Superman pós-Crise ainda mais necessária. A morte do Superman mais jovem e inconsequente também traz novos heróis à vida.

7. Quando vemos Pandora sendo assassinada por uma força desconhecida (pelo Dr. Manhattan), deixando o plot central dos Novos 52 definitivamente para trás.


Em Universo DC, é o legado que faz as boas ideias do passado andarem para frente.

4. Wally e Barry se reencontram e a verdadeira história começa

A cena que separa meninos de homens. Depois de tentar sem sucesso ser lembrado por Batman, por Johnny Trovoada e por sua ex-namorada Linda, Wally aparece para seu tio e mentor, Barry Allen, o Flash atual. Wally aqui já não parece ter mais esperanças de se salvar, ele sente a Força de Aceleração lhe sugando cada vez mais fundo no esquecimento. Ele pode, no entanto, tentar salvar o mundo, pelo menos. Ele avisa ao Barry, avisa que os anos foram roubados, que o amor foi roubado (outro fan service gratuito ao qual somos todos gratos, o amor entre o Arqueiro Verde e a Canário Negro foi roubado, mas será muito em breve restaurado), avisa que aquele mundo está sendo enfraquecido e observado. É seu último esforço, é sua despedida também.

Barry, obrigado por uma vida maravilhosa. Obrigado por sua bondade. Pela inspiração. Por ficar do meu lado tantas vezes. E por agora. A última vez. Você estava certo, Barry. Cada segundo foi um presente. É por isso que não vou morrer sofrendo. Vou embora com amor no coração. Adeus, Barry. Adeus.

             

5. A revelação

Tem gente que acha que Alan Moore é intocável, que os brinquedos com os quais ele já brincou nunca mais podem sair da caixa. Algumas dessas pessoas talvez fechem a cara para o que Geoff Johns faz aqui. Não simplesmente trazer de volta os personagens de Watchmen, mas fazer um estudo de conceito com eles.

No final do especial, temos o Batman encontrando um dos símbolos mais icônicos do universo dos quadrinhos, o sorriso amarelo manchado de sangue, boton do Comediante.

            

O onipotente Dr. Manhattan parece ser o grande vilão por trás da coisa toda. É um confronto de conceitos, a olhos vistos. Watchmen era uma história sobre a vida real, sobre um mundo onde o otimismo e as cores extravagantes dos super-heróis já não importavam mais. Os Novos 52 tinha um pouco dessa desesperança, dessa vontade de ser realista, de se parecer com um filme de ação explosivo. Renascimento quer contar outra história, quer dizer que não esquecemos do legado, que as capas coloridas ainda importam.

Só nos resta aguardar como as coisas se desenrolam. O Renascimento veio para abraçar todo mundo, consertar tudo e fazer homem barbudo chorar de novo, veio para fazer os novos e os velhos fãs finalmente entrarem num consenso. O Renascimento é o universo DC de ontem aos moldes de hoje, como Os Novos 52 poderiam ter sido desde o início, mas não forma porque não tinha muita verdade atrelada a seu plano de vendas.

*O mundo pós-Crise corresponde a toda a cronologia do Universo DC após a revolucionário saga Crise nas Infinitas Terras.


Título: Universo DC Renascimento;
Periodicidade: Especial;
Roteiros: Geoff Johns;
Arte: Gary Frank, Ethan Van Sciver, Ivan Reis, Phil Jimenez;
Editora: Panini;
Ano: 2017.


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