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Resenha: O Adulto, Gillian Flynn


Quem conhece a escrita de Gillian Flynn sabe que a marca registrada da autora é a reviravolta. Ela é daquele tipo de escritora que faz a gente grudar no livro e só soltar quando toda a trama foi resolvida. E isso se torna mais fácil com esse livro, pois “O Adulto”, na verdade é um conto com apenas 64 páginas, desenvolvido por Flynn, a pedido do poderoso George R. R. Martin. Esse conto — inicialmente — foi publicado no livro “O Príncipe de Westeros e Outras Histórias”, que também conta com outros grandes nomes como Patrick Rothfuss e Neil Gaiman, além do próprio Martin.

Sinopse:
Vencedor de um Edgar Award, O adulto, de Gillian Flynn é uma homenagem às clássicas histórias de terror.

Uma jovem ganha a vida praticando pequenas fraudes. Seu principal talento é a capacidade de dizer às pessoas exatamente o que elas querem ouvir, e sua mais recente ocupação consiste em se passar por vidente, oferecendo o serviço de leitura de aura para donas de casa ricas e tristes. 

Certo dia, ela atende Susan Burkes, que se mudou há pouco tempo para a cidade com o marido, o filho pequeno e o enteado adolescente. Experiente observadora do comportamento humano, a falsa sensitiva logo enxerga em Susan uma mulher desesperada por injetar um pouco de emoção em sua vida monótona e planeja tirar vantagem da situação. 

No entanto, quando visita a impressionante mansão dos Burke, que Susan acredita ser a causa de seus problemas, e se depara com acontecimentos aterrorizantes, a jovem se convence de que há algo tenebroso à espreita. Agora, ela precisa descobrir onde o mal se esconde, e como escapar dele. Se é que há alguma chance. 

Em seu estilo inconfundível que arrebatou milhares de fãs, Gillian Flynn traça surpreendentes e intrigantes perfis psicológicos dos personagens e tece uma narrativa repleta de suspense ao mesmo tempo em que brinca com elementos clássicos do sobrenatural.

Este thriller psicológico nos apresenta uma protagonista que não é bem a mocinha da história e a qual não sabemos nem o nome, mas que consegue nos envolver em sua trama, a ponto de perdermos o fôlego em alguns momentos.

Nossa jovem é ensinada desde cedo a se dar bem na vida de maneiras, digamos, não convencionais. Sua mãe não era uma senhora legal e, apesar de não ter problemas com bebidas nem drogas, foi a pessoa mais preguiçosa que nossa protagonista conheceu, então ensinou a filha desde cedo a pedir esmolas. Com a prática de pedir dinheiro, essa jovem então aprende a “ler” as pessoas tornando seu “trabalho” mais fácil. 

“Sabia quem abordar e precisamente o que dizer, no tempo exato. Nunca sentia vergonha. Era uma simples transação comercial: você fazia com que uma pessoa se sentisse bem, e ela lhe dava dinheiro."

Mais tarde, em seu novo emprego, essa habilidade veio a calhar. Trabalhando em um lugar chamado Mãos Espirituais, nossa protagonista atuou durante anos nos fundos da loja, com suas mãos levando seus — muitos — clientes ao prazer. Sim, ela trabalhava masturbando homens. Mas agora, depois de três anos, e tendo atingido o número de 23.546 “serviços”, seu pulso estava semelhante ao de uma octogenária. Então, sua chefe a transfere para outra função, agora ela trabalhava na parte da frente da loja lendo auras. Agora, a maioria de seus clientes eram do sexo feminino e de classe média alta. E assim, ela conhece Susan Burke, uma mulher diferente de todas que ela já viu, que se afugenta após alguns palpites certeiros dados por nossa vidente de araque. Porém, após alguns dias ela retorna revelando que há uma mancha de sangue na parede de sua casa, e isso somado ao comportamento estranho e agressivo de seu enteado Miles, que tem tirado seu sono. A nossa protagonista vê então uma oportunidade de faturar uma graninha extra, desenrolando então a trama do livro. 

"Eu estava tentando entrar para o ramo de limpeza de aura doméstica. Basicamente, quando alguém se muda para uma nova casa, chama você. Você circula pelos cômodos queimando sálvia, salpicando sal e murmurando muito. Começar do zero, eliminar qualquer energia ruim remanescente dos donos anteriores. Com as pessoas se mudando de volta para o coração da cidade, para todas as velhas casas históricas, esse parecia ser um negócio prestes a experimentar uma grande expansão."

A casa estaria afetando o comportamento de Miles, o enteado? Este seria mesmo perigoso? Ou tudo não se passa de uma balela que irá render uma boa grana para a nossa charlatã?

É bom lembrar que por ser um conto, as coisas acontecem mais rápido que em um livro de tamanho normal. E por ser rápido, não me alongarei aqui, para não correr o risco de estragar a história. Mas se uma coisa eu posso dizer, é que com Gillian Flynn sabemos que nada é tão simples como parece e nossa protagonista precisará de mais do que sua habilidade de ler auras.

Vale comentar que a construção do enredo é maravilhosa! Gillian sabe como prender o leitor e o livro sendo narrado em primeira pessoa só facilita isso. Ela brinca com a nossa mente nos plantando dúvidas e nos envolvendo na narrativa! O conto vale a pena ser lido tanto pelos fãs da autora, quanto para aqueles que ainda não a conhecem, será um ótimo primeiro contato!

"Em todo caso, ou eu estava ferrada ou não estava ferrada, portanto escolhi acreditar que não estava. Eu tinha convencido muita gente de muitas coisas ao longo da vida, mas esse seria meu maior feito: convencer a mim mesma de que o que estava fazendo era razoável. Não decente, mas razoável."

Título: O Adulto 
Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Páginas: 64

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