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Resenha: Atlas de Nuvens, de David Mitchell


De David Mitchell, o impressionante Atlas de Nuvens chegou finalmente ao Brasil no ano passado, mais de dez anos após sua publicação original, em 2004. A demora provavelmente se estendeu por conta do desafio de tradução que boa parte do livro impõe, já que, em diversos pontos da história, a linguagem precisou ser recriada a e adaptada para explicar o jeito diverso de viver de alguns personagens.

Numa impactante jornada cronológica pelos temas mais fundamentais da condição humana, Atlas de Nuvens explora, através dos séculos, seis histórias aparentemente desconexas, que, pouco a pouco, tocam umas nas outras, dando a nós, leitores, uma perspectiva ampla e diversificada de um mundo tanto ficcional quanto profundamente palpável.

Começando em 1850, acompanhamos algumas passagens do diário de um advogado americano chamado Adam Ewing, que parece se sentir cada vez mais doente e fraco ao longo de uma exaustiva viagem pelo Pacífico. Enquanto tenta voltar para casa, para a rotina e cuidado de seus dias em família, Adam precisa refletir sobre as relações humanas num mundo onde a escravidão, por motivos raciais, ainda é uma realidade.

Em 1931, Frobisher, um jovem músico, expulso das comodidades de sua família rica e tradicional, narra, numa série de cartas para um amigo próximo, os terríveis contratempos de sua carreira ainda começando. Atlas de Nuvens, sua obra-prima, ainda está bem no comecinho. Enquanto ele compõe, encontra, meio que por acaso, páginas dos diários perdidos de Adam Ewing.

A trama avança para 1975. A jornalista Luisa Ray investiga o assassinato de um importante cientista nuclear, Rufus Sixsmith. Não por coincidência, encontra, na cena do crime, as cartas que Rufus costumava trocar com seu grande amigo Frobisher, além dos detalhes sobre a composição de Atlas de Nuvens.

Algum tempo depois, um editor decadente de uma editora pouco expressiva está analisando os originais de um romance policial baseado na vida da jornalista Luisa Ray e suas investigações sobre energia nuclear. Por algum tipo de ironia descabida e vingança tardia de seu irmão mais velho, Timothy Cavendish acaba preso entre os cuidados forçados de uma casa de repouso. Seu objetivo final é arquitetar uma fuga dali.

Dias distantes no futuro, encontramos uma realidade de grandes corporações e hegemonia das grandes redes de fast-food. A produção de clones como mão de obra praticamente escrava é a base de toda a economia. Num mundo tomado pela tecnologia e praticidade, acompanhamos o depoimento da clone Sonmi~451, que está prestes a ser sacrificada como exemplo para extinguir uma revolução de direitos civis. Seus crimes: descobrir os prazeres da condição humana, para além do trabalho exaustivo e repetitivo da lanchonete, negar gratidão aos seus exigentes criadores, encontrar alegria num filme antigo, que narrava a cômica vida de um editor decadente de uma editora quase esquecida.

Muito tempo depois da humanidade ter caído em desgraça e esquecimento, o que sobrou da raça humana voltou as origens místicas e tribais. Sem civilização e pouquíssimos resquícios do que um dia havia sido tecnologia, os pequenos povoados vivem em guerra perpétua e violência para garantir a sobrevivência apenas do mais forte, nunca do mais civilizado. Zachary, um ancião entre esses últimos homens, narra, ao pé de uma fogueira sua juventude, sobre como sua fé na deusa Sonmi o protegeu da extinção de seu povo quando uma mulher tecnologicamente mais avançada apareceu em sua casa e mudou o panorama estabelecido das coisas.


Mudando frequentemente as estruturas narrativas e os estilos de escrita para abarcar uma poderosa e surpreendente visão de mundo, Atlas de Nuvens é uma trama de genuína sensibilidade, que exige muito do leitor, mas que compensa a paciência com sua cadência e qualidade literária. As quebras cronológicas e mudanças de foco podem parecer a princípio arriscado, mas ajudam a não cansar a leitura que se estende por mais de quinhentas páginas. Todas as seis histórias são interessantes, todos os seis protagonistas são de alguma forma cativante, de modo que as pausas não exigem demais da paciência de ninguém. As sutis e mesmo assim significativas conexões entre os pontos são um gosto a mais, que nos ajuda a não perder o contato com nenhum dos seis.

Com uma edição bem-acabada, bem traduzida e revisada, Atlas de Nuvens chega ao Brasil pela editora Companhia das Letras.


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