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Resenha: Orgulho e Preconceito (HQ), de Ian Edginton e Robert Deas


Com a popularização das histórias em quadrinhos, sobretudo no que concerne aos fantasiados superpoderosos que lotam os cinemas duas, três vezes por ano, um nicho bem específico desse mercado pareceu logo ganhar mais fôlego também, uma espécie de híbrido entre o mundo cinzento e aparentemente distante da dita alta literatura e o colorido e tão presente no cotidiano contemporâneo da arte sequencial.

Há um consenso preconceituoso e muito estranho (considerando os dias em que vivemos cada vez mais focados no mundo das cores, formas e imagens) que põe a arte dos quadrinhos marginalizada em relação às outras formas de literatura, como se a junção de texto e imagem fosse menos emocionalmente poderosa, menos psicologicamente densa, por se distanciar do mundo clássico e chega mais perto dos métodos da televisão.

Nesse contexto, a editora Nemo traz para o Brasil mais uma adaptação de obra literária na forma pouco privilegiada da arte sequencial. Orgulho e preconceito, originalmente escrito por Jane Austen, e aqui adaptado por Ian Edginton e Robert Deas, é provavelmente a mais popular comédia de costumes da literatura britânica, apresentada já diversas vezes no teatro, na TV e no cinema, eternizando as páginas de amor e ódio de sal trama, protagonizada por uma dupla marcante e inesquecível.

Elizabeth Bennet, muito afoita, irônica e cínica para uma mulher de sua época, e seu interesse amoroso, Mr. Darcy, arrogante, muito ciente de sua riqueza, apesar dos poucos atributos físicos, são base para praticamente qualquer história de amor idealizada depois de sua época.

No novo formato, a história não perdeu muito de seu charme nem de sua agradável ironia, apesar da pressa e das poucas páginas. São meramente 144 páginas de texto e imagem para tentar abarcar o espírito inesgotável de um clássico que vem sobrevivendo a inexorável passagem do tempo. Apesar do texto cumprir bem seu papel nos diálogos, perde muito do interesse do leitor nos longos e redundantes recordatórios, que, embora próprias da literatura, não se encaixam nada bem no formato dos quadrinhos, feito para ser ágil e (no geral) pouco introspectivo. Esse meio caminho até que incomoda um pouco, para ser sincero, mas não tira muito do brilho da experiência.


A arte de Robert Deas funciona para o propósito da história. Consegue ser detalhista na composição dos ambientes e dar personalidade e caráter a maioria dos personagens, mas não me parece um traço muito característico nem aquele estilo de cores de encher os olhos.

Embora interessante, como proposta, a obra em quadrinhos não substitui a experiência de ler o original (nem creio que se proponha a tanto), sendo mais indicada como complemente de leitura, como uma revisita para os fãs e uma breve, porém prazerosa introdução para os marinheiros de primeira viagem.

Em suma, a adaptação funciona e cumpre bem o seu papel, mas, como acontece geralmente com adaptações, tem toda dificuldade do mundo de encontrar sua linguagem própria.

O texto original de Orgulho e Preconceito já foi resenhado aqui no blog e pode ser acessado aqui.

Agradecemos a editora Nemo por fornecer o material para nossa leitura e apreciação.

Título: Orgulho e Preconceito;
Formato: História em quadrinho;
Texto original: Jane Austen;
Texto adaptado: Ian Edginton;
Arte: Robert Deas;
Editora: Nemo;
Ano: 2016.

                                         

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