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Resenha: Os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater


O primeiro de uma série de quatro livros, todos escritos pela autora norte-americana Maggie Stiefvater, Os Garotos Corvos nos apresenta uma trama aparentemente complexa e intrigante sobre adolescentes envolvidos com o fascinante mundo do sobrenatural. Digo aparentemente complexa porque a profundidade e maestria do estilo de escrita da autora tem mais mérito pelo clima de tensão e segredo que a própria criatividade da coisa toda. Protagonizado por um grupo de quatro jovens mais ou menos atormentados e no geral bastante carismáticos, Os Garotos Corvos acerta facilmente no desenvolvimento e investimento emocional, mas talvez segure demais as revelações da trama, prejudicando (para os leitores menos pacientes e mais desinteressados) o interesse me relações às continuações. Aliás, toda essa insistência da literatura fantástica contemporânea em série e trilogias está me deixando cada vez mais velho e rabugento. Às vezes, tudo que eu queria era poder pagar por uma única obra e conhecer sua história até o final. Num único livro. De uma capa a outra.

Eu não me considero impaciente. Também não diria que perco o interesse muito facilmente. Mesmo assim, vou destacar ao longo dessa resenha que talvez o grande ponto de desequilíbrio de Os Garotos Corvos, obra certamente cheia de méritos de estilo e de construção de personagem, seja nadar demais num laguinho bem raso.

Na trama, somos apresentados ao universo místico que ronda a cidadezinha de Henrietta, no interior dos EUA, cujas ruazinhas parecem tumultuadas pela presença de histórias de fantasmas e energias sobrenaturais. Blue Sargent vem de uma família mediúnica, mas ela mesma nunca apresentou qualquer habilidade muito especial. Sua mãe sempre diz que a presença dela ajuda todo mundo a ver o sobrenatural mais claramente, como se ela fosse um farol, apenas guiando no escuro, mas sem ver por si só realmente. Blue soube desde muito nova que ela mataria seu primeiro amor, apesar das circunstâncias dessa morte nunca aparecerem muito claras nas cartas.

A história começa no ano em que Blue irá se apaixonar e a autora não parece muito interessada em criar qualquer mistério a respeito do alvo de seus interesses, mesmo que a silhueta de um inconveniente triângulo amoroso se desenvolva em segunda plano.

Gansey, um dos chamados Garotos Corvos do título, é o típico pobre garoto rico, que cresceu nos privilégios de uma família abastado, mas que mesmo assim meio que se sente um espírito aprisionado e incompreendido. Depois de uma experiência de quase morte, uma voz inesperada lhe guia para a missão de sua vida: desvendar os mistérios das chamadas linhas Ley, as veiais que carregam a magia do mundo e seus segredos.


Como companheiros de sua jornada, conhecemos também Ronan, grosseiro, perturbado e com tendências violentas (outro pobre menino rico com problemas familiares), e Adam, o rico menino pobre, bolsista na escola de elite da cidade, que sofre com um pai violento e uma mãe inoperante, acreditando, com certo rancor e mágoa contra seus colegas de escola, que seu esforço é ainda mais valioso porque saiu direto da lama.

Esses quatro personagens convergem em torno dos desdobramentos de um antigo assassinato, da descoberta do amor na adolescência, das crises familiares generalizadas que parecem assolar metade da população da cidade e do misticismo que une suas vidas.

A história, como propus no início do texto, parece confusa e cheia de desdobramentos, mas a autora não vai muito além de nos mostrar um bosque de árvores falantes e espelhos que ligam o mundo real a outras dimensões. Essa dependência de tramas seriadas às vezes tenta justificar falta de profundidade como se todo primeiro livro fosse só uma introdução. Apesar da proposta interessante (claro, com os clichês apropriados de crises na adolescência, do amor proibido, etc), do estilo quase poético e muito característico da autora, Os Garotos Corvos conquista com carisma e qualidade literária, mas não convence realmente com história de mistério. A força do texto de Stiefvater, que aparece principalmente não sua justa, precisa e belíssima escola de palavras, na sua construção cuidadosa de personagens carismáticos, na escalada paciente do suspense, só falha ao não costurar uma trama realmente própria para o primeiro livro, deixando tudo com um aspecto de introdução e um final que parece não ter ido de parte algum para lugar nenhum.
Já adquiri as continuações, de modo que devo continuar a leitura da saga e esperar pelo melhor.

Os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater, faz parte da nossa lista de temas do Desafio Literário, que você pode conferir aqui.

Título: A saga dos corvos – Parte I: Os Garotos Corvos;
Autora: Maggie Stiefvater;
Editora: Verus Editora;


Ano: 2016.

                                          

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