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Crítica: Blade Runner 2049 (sem spoiler)


Philip K. Dick foi um dos grandes nomes da ficção científica, sempre questionando em suas obras o conturbado relacionamento entre o homem, a máquina e a coexistência de ambos no mundo. Tendo o dom de criar universos intrigantes e proporcionar uma reflexão em suas obras, não é surpresa que seus trabalhos tenham ganhado inúmeras adaptações para o cinema e a TV.

Dentre as mais famosas, se encontra Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? que ganhou uma adaptação em 1982, chamada Blade Runner, O Caçador de Androides. Considerado um dos filmes mais cults da indústria cinematográfica e que gera diversas discussões acerca de sua narrativa. A obra nunca pôde ser vista por PKD, que morreu três meses antes do seu lançamento.

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Cercado por um ambiente noir, cyberpunk, a narrativa faz uma reflexão sobre a identidade do homem e como o mundo é altamente suscetível de manipulação, sendo difícil distinguir o que é ou não real. Com um roteiro complexo, o mundo apresentado em Blade Runner é opressor e confuso. Se escondendo através de luzes neon, vemos uma humanidade sem rumo e vazia. E agora, 35 anos depois, voltamos a este universo.

Conduzido pela direção de Dennis Villeneuve e pelo roteiro de Hampton Fancher (um dos roteiristas do original) e Michael Green, somos inseridos novamente na trama, sob a perspectiva de um novo olhar: o Blade Runner K (Ryan Gosling), cujo nome pode ser uma possível homenagem ao autor da obra.

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Trinta anos após os eventos do original, nos deparamos com uma Los Angeles ainda mais apática. Nela conhecemos K, como já mencionado, que durante uma de suas investigações acaba trazendo segredos à tona, que podem gerar uma verdadeira revolução. Em busca de respostas, velhos conhecidos do público, como Rick Deckard (Harrisson Ford), ressurgem, tornando ainda mais perigosa a procura pela verdade.

Dito isso, o primeiro ponto que devo mencionar é que o filme bebe do universo estabelecido no original, assim como, das reflexões filosóficas estabelecidas por este. Contudo, é preciso salientar que Blade Runner 2049 consegue ser um filme com brilho próprio. Ao expandir este mundo, uma nova ótica é introduzida.

Villeneuve não tem pressa, pelo contrário, o filme por inteiro é contemplativo, o que pode criar cenas desnecessariamente longas, mas é proposital. Já que o objetivo deste projeto é a reflexão, a autoanálise.

 ryan gosling blade runner 2049 GIFVemos o desejo do diretor em colocar o público como um fantasma que persegue K ao longo da trama, ao inúmeras vezes trabalhar com uma câmera fechada em seus ombros ou costas. É como se estivéssemos acompanhando tudo de perto, mas sem sermos vistos. Ao mesmo tempo, alterna em planos abertos, para salientar a imensidão deste mundo e como o personagem se encontra perdido nesteEsse sentimento, inclusive, é acentuado com a trilha de Benjamin Wallfish e Hans Zimmer, que invade as cenas nos momentos necessários para criar ainda mais tensão.

Toda essa visão é elevada a outro nível com a fotografia de Roger Deakins. Como já estamos acostumados, o cinza é predominante nesta Los Angeles distópica, contudo, Deakins traz cores quentes para acentuar ainda mais a Terra árida.

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Ryan Gosling, faz um belo trabalho ao desnudar da redoma de neutralidade que cerca seu personagem conforme emoções invadem o seu ser. De maneira orgânica, o ator faz com perfeição essa transição, sem parecer forçada. Outro destaque, fica por conta de Sylvia Hoeks, intérprete de Luv. A atriz rouba a atenção toda vez que aparece em cena, tomando para si o grande papel de antagonista, originalmente de Jared Leto, que se perde diante da poderosa presença desta.

Importante também mencionar Harrison Ford, que traz um Rick Deckard ácido. Apresentando uma ótima química com Gosling, o personagem demonstra uma faceta mais vulnerável.

Não obstante, a decisão de produzir este filme poderia ter sido totalmente desastrosa, visto que o clássico marcou a história cinematográfica influenciando os sucessores do gênero até hoje. Porém, Denis Villeneuve assumiu a responsabilidade com maestria.





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