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Crítica: Detroit em Rebelião (sem spoilers)


Conhecida por ter sido sede da indústria automobilística no século XX, Detroit, foi uma das cidades mais prósperas dos EUA. Devido sua ascensão industrial, grande parte da população negra - vinda do sul - migrou para o norte do país em busca de melhores condições de vida.

Este era apenas o início de um eventual colapso. Por volta da década de 40 a cidade já possuía inúmeros conflitos raciais, se tornando um dos lugares mais segregados dos EUA. Tais tensões, juntamente com disparidade salarial, a falta de assistência médica, educacional e a moradia, fizeram com que grande parte da população negra vivesse em completa miséria. 


Era apenas uma questão de tempo, até que tudo desmoronasse. E aconteceu. No verão de 1967, ocorria num bar ilegal - na esquina das ruas 12 e Claremont - uma festa de boas-vindas a dois combatentes do Vietnã. O local foi alvo de uma batida policial, resultando em várias prisões. Os moradores, indignados com a ação truculenta dos policiais, se rebelaram contra estes, iniciando uma verdadeira guerra pelas ruas de Detroit, que durou cinco dias.

Com está pequena introdução histórica, a diretora Kathryn Bigelow, traz seu mais novo projeto para as telas de cinema. Com data de estreia prevista para o dia 12 de outubro, o filme Detroit em Rebelião mostra de forma crua uma ferida que ainda sangra.

Mesclando cenas com fotos e vídeos reais do conflito, o primeiro ato possui um tom bastante documental, explorando todo o contexto histórico, assim como, introduzindo seus personagens a trama. Contudo, é a partir do segundo ato, que a diretora mostra sua real intenção, ao dar destaque aos eventos ocorridos no Motel Algiers.


Neste espaço, Bigelow utiliza-se de planos fechados e de sua constante câmera de mão, para criar uma tensão tangente. Aqui somos apresentados a diferentes pontos de vista da mesma situação: seja através do racismo escancarado do policial interpretado por Will Poulter, pela impotência do guarda noturno de John Boyega, ou pela visível sensação de terror do cantor interpretado por Algee Smith.

Em nenhum momento Bigelow deixa a tensão cair, muito pelo contrário, um verdadeiro terror psicológico é instaurado no decorrer da trama, fazendo com que o espectador fique cada vez mais sufocado e desconfortável pelas situações vivenciadas pelos personagens. E esse é o principal objetivo de Kathryn, escancarar a ferida e correlacioná-la com os tempos atuais. 

Tal ato é ainda enfatizado com a trilha sonora, que serve como uma voz para aqueles que têm que viver em silêncio. Como diz  It Ain't Fair, do The Roots, "Will you hear my cry?Won't you my plea, oh?Cause I'll never know how it feels ,to be Free"


As marcas que a violência e a intolerância deixaram nestas pessoas também são mencionadas, mesmo que de forma singular, no roteiro de Mark Boal. Sendo está minha única crítica a produção. Gostaria que continuasse intimista. Fomos testemunhas de toda a violência vivida por aquelas pessoas, e por isso gostaria de acompanhar suas vidas após tais eventos traumáticos. Ao focar o final em um único arco, os outros personagens acabam esquecidos.

Detroit em Rebelião é um filme visceral, que expõe toda a ferida do racismo. Não sendo seu objetivo apenas documentar um período terrível, mas sim alertar de como as coisas não mudaram tanto assim nos últimos 50 anos.




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