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Cuphead: outro ponto para a nostalgia?


Cuphead se popularizou mais rápido do que eu esperava para um suposto joguinho indie de plataforma. Na verdade, acho que estamos bem perto de entrar numa crise de significado de palavras, já que tudo que é indie parece tão mais mainstream que o resto da indústria. 

Apesar dessa popularidade tão fora da curva ser o exato oposto do que se espera de um jogo de nicho, Cuphead, tão certeiro quanto Stranger Things é a nova leva de produtos cuja matéria-prima essencial é a nostalgia. Atacando nossos corações justamente com afeto e memória, com uma reciclagem bem feita das mecânicas simples e obsoletas dos jogos de plataforma de muitas e variadas gerações atrás.

Através de uma pesquisa rápida na internet você irá encontrar um mundo de textos e vídeos, de análises diversas, todo mundo tentando identificar as reinvenções e referências que compõem e povoam o simpático e colorido mundo do jogo. Seja o traço de cartoon meio anos 1930, com seus adoráveis protagonistas que mais parecem um par de Mickeys com cabeças de caneca, seja sua mecânica tão agradável e imersiva, misturando elementos que vão de Mario, Mega Man e Donkey Kong até Street Fighter.


Num lapso de cinismo, podemos argumentar que já não há mais terreno ou espaço para uma boa dose de criatividade, que a indústria da cultura é hoje somente baseada em autorreferência. Mas Cuphead, mesmo com a muleta da nostalgia e da beleza irretocável de seu trabalhoso processo gráfico, faz tudo com um inconfundível sopro de novidade. 

De fato, jogar Cuphead é um pouco como jogar as primeiras versões de Mario, um pouco como jogar Donkey Kong, como jogar Mega Man ou Street Fighter, a mesma sensação de que algo tão bonito e estranho está acontecendo na tela e que só você pode levar os heróis adiante, caindo uma vez ou outra num buraco para fora da imagem ou sendo atingido pelos frenéticos inimigos pulando de todo lugar, mas sempre aparecendo de novo no início da fase para tentar outra vez. A sensação é mesmo muito parecida, mas a experiência é tão diferente.

Para mim, é aí que o jogo realmente se inova. Cuphead faz questão de não ser só uma experiência incrível de nostalgia, mas principalmente de ser uma experiência incrível e pronto. Apesar da nostalgia e não por causa dela. O jogo brinca o tempo todo com nossas memórias, com nossos afetos (com as memórias e os afetos dos criadores também, tenho certeza), mas nunca faz questão que a gente volte a ser criança. Cuphead é sobre evoluir essas dinâmicas e crias memórias novas.


A dificuldade frustrante que as fases do jogo propõem é, nesse sentido, um dos grandes triunfos de sua jogabilidade. Novamente, é como jogar todas aquelas coisas bonitinhas e simples da nossa infância, mas tão mais difícil, tão mais agressivo, tão mais desafiador e adequado. Vencer em Cuphead exige muito esforço e experiência, exige perder repetidamente até ser capaz de acertas e ser perfeitamente preciso. Isso não é experiência nostálgica. É quase alegoria da vida adulta, se me permitem um pequeno desvio para melancolia.

Mesmo frustrante e difícil, o jogo teima em não ser injusto e toda vez que você perde e volta para o início e sabe que tem que tentar de novo, você sabe que consegue ir mais longe. Não é uma experiência só emocional, portanto, mas também mecânica.

Se é na memória afetiva de tempos e jogos mais simples que se disfarça a desgastante dificuldade deste, dá para apontar também uma interessante relação entre o colorido e ingênuo traço e sua história, bem mais obscura e irônica.


Logo na introdução, descobrimos que Cuphead e seu amigo Mugman, um pouco inclinados demais a jogos de azar, perdem às almas para o diabo num cassino (daí o subtítulo do jogo “Don’t deal with the devil”). Toda a jornada que se segue é, portanto, uma tentativa de coletar almas e enfrentar o capiroto num duelo para pôr de volta a vida nos eixos. Um pouco demais para um jogo sobre canequinhas bonitinhas que sorriem como crianças, não?

Cuphead já é um sucesso absurdo de vendas, surpreendendo ninguém que já tenha olhado nessas carinhas adoráveis e visto que era impossível dizer um não. Olhe bem para eles e compre já sua cópia. 

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