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Resenha: A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil


Lançado, a princípio, de forma independente,  A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, da americana Becky Chambers, conseguiu, através de sua individualidade e da voz única de seus tão diversos personagens, atingir os meios mais tradicionais do universo das publicações literárias. Com a promessa de uma trama simples, sobre a vida humana em meio a um contexto alienígena, orientada pelas tantas e promissoras analogias sobre a diferença, a obra de Chambers conquista desde o início com um ritmo episódico, reflexivo e quase sempre crítico, que pegou emprestado muito da atmosfera e dos temas dos anos clássicos do universo de Star Trek. É ficção científica para encher os olhos e os corações.

De cara, abro essa resenha contando estrelas, com muito amor para dar e vender a essa história, que já acabei de ler faz algumas semanas, mas cujos personagens (e suas viagens tão longas) não saem mais de mim.

A história se passa quase inteira dentro da nave Andarilha, traçando o emaranhado de relações (nem sempre amistosa) de seus oito tripulantes. Eles ganham a vida meio que cavando buracos de minhoca pelo espaço, construindo rodovias que aproximam sistemas solares distantes. Acompanhando o dia-a-dia na nave, vamos pouco a pouco entendendo a realidade das vastas galáxias do lado de fora e como a raça humana, a mais frágil, pobre e pouco desenvolvida forma de vida consciente, teve que deixar seu planeta natal para sobreviver como colônias espaçadas, entre Marte e grandes naves habitacionais.

No comando da nave, Ashby, um exodoniano, isto é, um dos descendentes daqueles que migraram muitos séculos atrás dos destroços da Terra, tenta manter com um misto de autoridade e camaradagem todas as peças de sua tripulação, tão vastamente diversa em suas culturas, unidades e em perfeita harmonia. Rosemary, sua guarda-livros, veio das colônias humanas em Marte e ainda está aprendendo a lidar com a estranha e silenciosa vida cercada por estrelas. Apesar do pudor sexual muito associado aos hábitos humanos, Rosemary encontra na aandriskana Sissix, cuja cultura traz traços de poligamia e práticas de acasalamento bem pouco ortodoxas, um contraponto para ao que ela pensava conhecer sobre a própria história. Apesar de seu humor acolhedor, Sissix vive em pé de guerra com Corbin, humano responsável pelo tratamento do combustível da nave. Há ainda, Ohan, uma criatura no plural, extremamente reservada, cujo corpo, devido aos hábitos quase religiosos de seu planeta, se tornou hospedeiro, ainda na infância, de um incrível parasita que ao mesmo tempo que estimula suas faculdades mentais consome seus anos de vida. Completam a tripulação os mecânicos, ambos humanos, Kizzy e Jenks, e o médico de gênero fluido, Dr. Chef.

Mesmo que possua uma linha narrativa (a viagem até um planeta distante, cujos habitantes, pouco conhecidos pelas estrelas vizinhas, parecem basear toda sua cultura na xenofobia e na violência, para cavar um buraco de minhoca que é mais uma declaração política que qualquer outra coisa), A Viagem a um Pequeno Planeta Hostil funciona principalmente por conta de seu caráter episódico (como já dito, uma referência ao estilo procedural da série clássica de Star Trek), que nos apresenta os personagens, suas relações, seu modo de olhar para o mundo e para cultura humana, tudo tão gradativamente e bem encaixada, fazendo aquele universo rico em analogias parecer palpável e real.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil encontra elegância na simplicidade, numa escrita pouco elaborada que consegue transmitir a beleza de seu mundo otimista e próspero. Apesar da raça humana.

Título: A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil
Autora: Becky Chambers
Editora: Darkside
Ano: 2017


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