Swift

Crítica: Liga da Justiça (Sem Spoilers)


Traumatizados pelas cenas de guerra e desastres, espionados pelas ubíquas câmeras de segurança, ameaçados por vilões exóticos que confabulam em cavernas e lares subterrâneos, presas de Deuses do Medo obscuros e monumentais, estamos sendo inexoravelmente sugados para a realidade dos quadrinhos, e restam poucos segundos pra salvar o mundo, como sempre.
Grant Morrison.

Eu li uma vez que os super-heróis são a ideia mais poderosa de nossa época. Acho que foi Grant Morrison que disse algo parecido. Não tenho certeza agora, mas parece algo que Grant Morrison diria. Grant Morrison provavelmente está correto. Não só porque ele é o cara que entende os super-heróis, mas principalmente porque os super-heróis entendem e explicam quase tudo sobre nós. Você olha os uniformes coloridos e as histórias muitas vezes até simplistas e pode esquecer que, desde a mitologia grega, a gente conta história de heróis para explicar a vida e todas as partes que ainda não entendemos do mundo.

As quantias quase pornográficas que movimentam o mercado dos fantasiados talvez sejam um indício de sua popularidade, mas com certeza não contam quase nada sobre as razões de sua ascensão. Em 2016, quando Batman v. Superman chegou às telas, eu escrevi um texto aqui para o blog, tentei ser absolutamente sincero, embora não no sentido simplesmente técnico e parcial. Eu tentei escrever sobre o tanto que a gente se importa com esses personagens, porque, no fim das contas, a gente sempre vai ao cinema querendo se apaixonar, reclamar do que deu errado é só sintoma e consequência.

Mesmo o fã mais apaixonado da concorrência tem que admitir que nenhum filme do gênero poderia ser maior que Liga da Justiça. Eu realmente gostei do que fizeram com Vingadores, em 2012, mas, mesmo naquela época, enquanto robôs de espaço invadiam a Terra e eram mandados de volta pelo maior time de super-heróis da Marvel, o que a verdade do meu inconsciente gritava era: imagine se fosse a Liga da Justiça...

Bom, agora é. Estamos em 2017, a maioria dos personagens que protagonizam Liga da Justiça já passou da idade de se aposentar, mas, como eu disse no início, o tempo não fez nada para extinguir nossa vontade de se importar. Na trama simples e quase genérica, uma invasão alienígena em curso está prestes a tirar os maiores heróis da Terra de sua pacata obscuridade. Com o trágico sacrifício do Superman, no filme anterior, um mundo sem esperança olha para os heróis que sobraram e ainda sentem medo. Batman, mais velho e mais culpado do que nunca, Mulher-Maravilha, ainda olhando com pena e vontade de ajudar para a precariedade do mundo dos homens, Flash, um menino quase órfão procurando seu lugar no mundo, procurando principalmente um lugar para suas habilidades sobre-humanas, Aquaman, o soberano descompromissado de uma ancestral nação submarina, e Ciborgue, meio máquina, meio homem, meio vivo.


Notadamente mais leve e muito mais simples em desenvolvimento de trama que seu predecessor, não me parece em momento algum desconectado das narrativas anteriores. Em O Homem de Aço (2013), a origem do universo cinematográfico da DC, uma história em três partes se inicia. Dá para ver o molde clássico da Jornada do Herói (de Joseph Campbell) funcionando e dando sequência a uma estrutura bem elaborada e desenvolvida.

No primeiro ato, O Homem de Aço, acompanhamos a transição de um mundo sem Superman para o início da Era Heroica, apresentando a morte do vilão Zod no final como um berço de remorsos e consequências. Ou seja, partimos aqui do Mundo Comum (antes que haja heróis), passando pelo Chamado à Aventura e a Recusa ao Chamado (a invasão começa, Zod pede ao povo da Terra que o entregue, mas Clark não se sente pronto para lutar), o Encontro com o Mentor (a memória de seus dois pais que se sacrificaram para que um Superman pudesse salvar o mundo, salvar dois mundos) e o Cruzamento do Limiar (matar Zod foi aceitar em definitivo sua responsabilidade, tomar o peso de salvar vidas com um ato final de violência).


Quando o Superman se estabelece e se torna um herói, chegamos aos tempos sombrios de Batman v. Superman. Amado por uns, temido por tantos outros, o herói tenta assumir seu lugar no mundo. Aqui passamos por Testes, Aliados e Inimigos (todo o conflito moral entre os dois protagonistas), pela Aproximação da Caverna Profunda (o confronto físico entre Batman e Superman, o momento em que os heróis entendem que não podem vencer o conflito sozinhos), pela Provação (a morte do Superman) e pela Recompensa (o mundo parece novamente a salvo).

Nesse sentido, não acho que Liga da Justiça possa mesmo ser considerado um novo direcionamento para o universo cinematográfico da DC. É o jeito mais antigo do mundo de se contar história nas mãos hábeis e pacientes de Zack Snyder. Como terceiro ato de uma longa Jornada do Herói apontada para a origem do Superman, Liga da Justiça tinha mesmo que ser mais leve, mais tocante também, pois o terceiro ato da jornada é onde tudo se resolve para o mundo e para o estabelecimento do herói. Com a Estrada da Volta, a Ressurreição e o Retorno com o Elixir a obra se completa, um Superman se completa também e temos aqui duas horas (curtas demais) de um texto sobre esperança.



Como fãs podemos às vezes ser muito paranoicos, mas a Liga da Justiça de Snyder não perdeu a capacidade de emocionar, de parecer quase real em seus dramas humanos. O tão comentado humor adicionado ao roteiro aparece de forma pontual, mas não rouba a cena.

Em suma, Liga da Justiça faz milagre em tão pouco tempo e desenvolve bem e de maneira orgânica todos os seus seis protagonistas. A interação entre eles funciona, cria atenção e carisma e nos vende que ali está a última esperança da Terra. Você assiste com um sorriso no rosto, como se fosse mesmo uma boa revista de equipe, com os diálogos no lugar certo, com cenas de ação encantadoras e de encher os olhos. O vilão genérico de CGI não teve a menor chance.

Amamos nossos super-heróis porque eles se recusam a desistir de nós. Podemos analisá-los até acabar com sua existência, matá-los, bani-los, ridicularizá-los e ainda assim eles voltam, lembrando-nos pacientemente de quem somos e quem gostaríamos de ser.
Grant Morrison.

Liga da Justiça chegou no rastro e nos temores de uma responsabilidade gigantesca. A gente sabia que um filme mais leve, menor e mais simples viria. Batman v. Superman será sempre inesquecível para mim, muito mais denso, mais conflituoso, mais pessoal talvez. Penso, no entanto, que Liga da Justiça era mesmo o que a gente precisava agora. Zack Snyder fez o giro completo da jornada, você pode odiá-lo, você pode supor que faria tão melhor no lugar dele, mas ele pegou tudo que a gente amava nesses personagens, que ele próprio amava, e entregou, no fim, uma história tão linda, três partes de um grande épico sobre esperança. Superman vive. O universo DC está vivo e as ideias de Zack Snyder também. Não sou ingênuo de supor que as coisas ainda serão as mesmas daqui para frente. Zack Snyder foi embora, mas o pessimismo não venceu. Ele fez o que tinha que ser feito. Por enquanto, vai ter que ser o bastante. Você já prestou suas homenagens a Zack Snyder hoje?   




Obs.: Eu odeio cena pós-crédito. Acho um recurso chato, repetitivo e insuportável. Dito isso, Liga da Justiça tem a melhor cena pós-credito que já tive o prazer de esperar na poltrona do cinema. Esperem a segunda.

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