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Resenha: O ódio que você semeia


Há pouco tempo, eu e Miguel — outro integrante da nave — estivemos conhecendo a sede e a gráfica do Grupo Editorial Record, aqui no Rio de Janeiro. Olha, vou te falar... que experiência maravilhosa nós tivemos naquele dia! E você pode conferir um pouco de como foi, aqui.

Dentre os mimos e brindes que recebemos, também ganhamos livros maravilhosos e eu dei um gritinho de felicidade quando peguei “O Ódio Que Você Semeia”, e já sabia que ele seria o primeiro livro do evento a ser resenhado por aqui. 


O ano ainda não acabou e eu já posso dizer que em 2017 eu fiz boas leituras, mas sempre existem aquelas que nos causam um maior impacto, né? Dentre elas, duas dessas histórias mexeram bastante comigo, e uma foi “O ódio que você semeia”, que é o título de estreia da escritora Angie Thomas. E digo mais, essa mulher ainda vai dar o que falar! Por isso eu já começo essa resenha sem mistério algum, contando para vocês que eu simplesmente adorei esse livro e espero convencer todos vocês a lerem a história de Starr. 

O Ódio que Você Semeia vai contar a história de uma adolescente de dezesseis anos, negra, e que divide sua vida entre seu bairro — que é um lugar pobre, com conflitos de gangues — e sua escola  onde onde a maioria das pessoas é branca e rica.
Para lidar com os dois mundos, Starr age como duas pessoas diferentes. Em casa ela pode ser mais ela mesmo, mas na escola, ela assume uma postura diferente, montada para que assim fosse mais aceita no ambiente.

"A Starr da Williamson segura a língua quando as pessoas a irritam para que ninguém pense que ela é a “garota negra cheia de raiva”. A Starr da Williamson é acessível. Não faz cara feia, não olha de canto de olho, nada disso. A Starr da Williamson não gosta de confrontos. Basicamente,  a Starr da Williamson não dá motivo para que alguém a chame de garota do gueto.”

E assim ela levava sua vida, até que um dia, voltando de uma festa com seu melhor amigo de infância, Khalil, eles são parados por um policial e ela vê seu amigo sendo assassinado pela autoridade. A partir deste ponto começa a real história do livro, onde inúmeros debates são traçados pelos personagens e pelo leitor, pois apesar de ser uma ficção, infelizmente essa história está presente no dia-a-dia do mundo, muito mais do que imaginamos. No Brasil a cada 23 minutos um jovem negro é morto, ou seja, 66 vidas negras são perdidas por dia e 4.290 por ano. Isso é um absurdo! Esse assunto precisa ser debatido e, mais do que tecnologicamente, a sociedade precisa evoluir como humanidade!

"Engraçado. Os senhores de escravos também achavam que estavam fazendo a diferença na vida dos negros. Que os estavam salvando do "jeito selvagem africano". Mesma merda, século diferente. Eu queria que pessoas como eles parassem de pensar que gente como eu precisa ser salva."

Os discursos que Starr ouvia, são os mesmos que já ouvimos tantas vezes: “ah, ele era bandido”, “o policial se sentiu ameaçado”, “menos um traficante no mundo” e etc. Afinal, quem nunca ouviu que “bandido bom é bandido morto”? Mas vamos lá, em nossa história, Khalil estava desarmado e em nenhum momento ameaçou o policial, eram apenas dois adolescentes negros voltando de uma festa, obedecendo as leis de trânsito. Mesmo assim, o policial em questão atirou três vezes nas costas de Khalil. Quem é o bandido da história?

"Nós deixamos as pessoas falarem certas coisas. E eles falam tanto, que se torna normal pra eles e para nós. Qual é o sentido de ter uma voz, se ficamos calados quando não deveríamos?"

Angie Thomas usa o poder da palavra para nos fazer pensar e quebrar muitos preconceitos. Basta abrir a mente e permitir a desconstrução de conceitos induzidos pela sociedade. E eu preciso parabenizar a Record pela edição! A ideia de além do título em português manter também o título em inglês na capa foi perfeito, já que ele tem um significado na história, mas não vou contar para não estragar a experiência de vocês. Esse e outros mistérios sobre o fechamento da história, vou deixar para que vocês leiam, reflitam e sintam.

Sem dúvidas “O Ódio Que Você Semeia” foi um dos melhores do ano. Não achei perfeito, mas a sua qualidade triunfou sobre qualquer defeito. Em um país onde o candidato à presidência diz que a polícia militar deve matar mais, um livro desse é mais que necessário. E se você pensa que o mundo está virando um grande “mi-mi-mi”, saia da sua zona de conforto, abra a mente e tente enxergar alguma realidade além da sua. 

“Mas acho que vai mudar um dia. Como? Não sei. Quando? Não sei mesmo. Por quê?  Por que sempre vai existir alguém para lutar. Talvez seja a minha vez.”

Título: O Ódio Que Você Semeia
AutorAngie Thomas
Editora: Record (2017)
Páginas: 376

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