Swift

Um livro favorito, uma história sobre a história


Para muitos leitores, a tarefa de escolher apenas um livro favorito é muito difícil. Eu entendo como é isso e, inclusive, já passei pela mesma situação. Mas isso foi até eu encontrar o meu livro favorito. Um exemplar pequeno, mas que ganhou meu coração. O nome dele? O Menino do Pijama Listrado.

Hoje, quando me questionam sobre um livro favorito, eu levanto meu exemplar na mesma hora, não me vem outro nome à mente, senão o melhor título de John Boyne, pelo menos para mim.

Para quem não conhece o autor, 99% dos títulos de Boyne são baseados em algum fato ou período histórico. O que faz com que muita gente não goste de sua escrita, principalmente pelo detalhamento — que por vezes acaba por tornar a narrativa um pouco mais lenta. Eu, particularmente, amo. São aqueles livros perfeitos para se ler em uma tarde chuvosa com uma (duas porque sou gordinho de alma) xícara de chocolate quente. Ou então recostado naquela poltrona antiga, na sala, próximo de um abajur ou de uma lareira — para aqueles felizardos que vivem em locais frios.

Eu só pude conhecer “O Menino do Pijama Listrado” dois anos após seu lançamento aqui no Brasil, mas que eu sempre preciso voltar a exaltá-lo em recorrência, de tempos em tempos. Naquela época eu não tinha dinheiro para comprar meus próprios livros, então lia os títulos emprestados por amigos. Até que um dia, uma amiga me emprestou a história de Bruno e Shmuel, e eu quase não devolvi mais. Obrigado, Lara!

Algumas pessoas já me questionaram se sou sadista ou se gosto de sofrer, devido ao fato de eu me interessar e “gostar” muito de tudo que é relacionado ao Holocausto e à Segunda Guerra Mundial. Não, eu não sou nem um nem outro, mas esse assunto mexe bastante comigo, então eu sempre gostei de caminhar por suas memórias. Acredito, inclusive, que este é um dos motivos que fez de “O Menino do Pijama Listrado”, o meu livro favorito. Embora eu já tenha lido tantos outros com a mesma temática.

Mas, Miguel, conte um pouco mais sobre a história do livro. Tudo bem, Bruno é um garoto de oito anos, que nasceu em uma família bem-sucedida e que mora em Berlin, em uma casa muito boa, estuda em um ótimo colégio e possui amigos de sua idade. Esse nível de vida se dá à profissão de seu pai: um soldado alemão.

No entanto, a vida de Bruno muda, quando seu pai recebe uma “promoção” e eles precisam se mudar para um local isolado, remoto, e distante da capital. O que não faz sentido para Bruno, pois uma promoção deveria melhorar a vida deles e não piorar.

Bruno é uma criança de oito anos em 1940, logo ele é muito inocente, como eram as crianças daquela época. Então todo o livro possui uma linguagem muito simples, pois é narrado na visão de Bruno. Prova dessa ingenuidade, se dá à descrição do menino, quando chega na janela de sua nova — e indesejada — casa e avista, pela janela, uma “grande fazenda, com homens e crianças trabalhando, vestindo pijamas listrados”. Em nenhum momento durante a narrativa, Bruno entenderá o que está acontecendo. Para ele, o campo de concentração é realmente uma fazenda. Para ele, seu amigo Shmuel, O Menino do Pijama Listrado, é apenas um filho dos trabalhadores daquela “fazenda”.

“A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo obscuro da razão se expanda.”

Um livro que vai derrubar as certezas da vida adulta, que vai te deixar no chão com a visão simples das coisas, que só uma criança pode ter. Um livro que vai falar de amizade, e que vai te fazer suspirar em vários momentos. Um livro que vai te destruir nos pequenos detalhes que são capazes de permear os sentimentos e que vai te relembrar do que é realmente importante.

Mais do que isto que já mencionei, “O Menino do Pijama Listrado” é uma daquelas obras que fazem um sentido diferente, dependendo da idade do leitor e de seu momento de vida. É um daqueles títulos que falam de maneira ímpar a cada releitura.

O final do livro é extremamente irônico e afrontoso ao Holocausto. A última cena me deixou sem chão por muito tempo após o término da leitura e acredito que assim será com todos os que o lerem de maneira imersiva ao contexto.

Em 2008, o livro ganhou uma adaptação para o cinema. Eu costumo ser um dos haters dessas adaptações, mas “O Menino do Pijama Listrado” foi extremamente excelente! A melhor adaptação das páginas para as telas, que já vi até hoje. Com os mesmos quotes de efeito, com os mesmos sentimentos de cada momento, com as mesmas cenas das páginas! Os atores interpretaram com muita maestria e a trilha sonora complementa a emoção que rega a história.

Enquanto o livro possui uma aparência mais leve, enquanto a atuação dos demais personagens, no filme, torna a adaptação muito mais carregada e intensa. São experiências diferentes, e ambas são muito dignas de aplausos, e também de cada lágrima vertida.

O Menino do Pijama Listrado é uma história sobre a história. Uma memória que cobra seu preço por ser relembrada. Uma viagem aos tempos de outrora, para nos lembrar do que já fomos capazes. Um resgate ao passado, para que ele jamais se repita em algum tempo futuro.

LEIA TAMBÉM