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Crítica: Todo o Dinheiro do Mundo (sem spoiler)


É comum termos momentos de divagação nos quais fazemos perguntas hipotéticas do tipo: “O que você faria se tivesse todo dinheiro do mundo?”. O que isso traria? Quais seriam as consequências para a nossa vida e para a das pessoas ao redor de nós? O mais novo longa de Ridley Scott (Blade Runner - 1982) traz uma perspectiva crítica sobre essa vida que desconhecemos. O mais surpreendente, no entanto, é o fato de tal perspectiva ser baseada em um acontecimento real. 

Todo o Dinheiro do Mundo gira em torno do sequestro de John Paul Getty III, neto do magnata do petróleo mais rico da História, John Paul Getty.


Itália, 1973, um garoto hippie de apenas dezesseis anos andando descuidado pelas ruas. O que o faz especial? Ser o herdeiro da fortuna mais cobiçada do mundo. Apesar da tragédia do ocorrido, quando se tem um avô em condições mais do que suficientes para pagar o resgate - no filme, a quantia de 17 milhões de dólares - é de se esperar que a situação seja facilmente resolvida, certo? Errado. “Tenho 14 netos, se pagar resgate, terei 14 crianças sequestradas”, diz o poderoso John Getty à imprensa. A frase verídica transformou-se em uma das cenas mais icônicas do filme, fundamental para deixar clara a dimensão da vida influenciada pela ambição.

O enredo acompanha a luta de Gail Harris (Michelle Williams), mãe de Paul, com a ajuda do agente responsável pela segurança dos Getty, Fletcher Chase (Mark Wahlberg) contra dois Impérios poderosíssimos: o construído por J.P Getty e o comandado pela máfia italiana em posse do garoto. Mas a narrativa vai além: ao mostra com sutil ironia, de forma brutal, que todo dinheiro do mundo não é o suficiente.


As atuações, com destaque para a de Michelle Williams (Ilha do Medo) e Christopher Plummer (Toda Forma de Amor) - que filmou todas as cenas do personagem posteriormente às filmagens originais, no lugar de Kevin Spacey - foram essenciais para convencer o espectador sobre a dura realidade do que estavam presenciando. As reações sem exageros desnecessários de Williams, conseguiram envolver com olhares e expressões o desespero e a frustração pela luta, contra a própria família, pela vida do filho. 

Os planos e as opções fotográficas utilizadas por Scott também ajudaram a criar a atmosfera dos ambientes retratados no longa. Desde a magnitude fria das propriedades de Getty, até a precariedade calorosa dos galpões italianos, as tomadas e os ângulos foram calculados com maestria. O filme começar em preto e branco, conduzindo o espectador a uma história de outro tempo que aos poucos ganha cores em nosso contexto atual, e dispensa o uso de “cenas reais” nos créditos ou durante o desenvolvimento da trama.


Repleto de diálogos de impacto e cenas arrastadas que marcam o desespero contínuo, o único desafio de acompanhar a narrativa é a longa duração do filme, que por vezes não consegue prender a atenção e perde-se em inconclusão. Essa sensação de exaustão só tem fim com as cenas finais, que são brilhantemente conduzidas em um clímax intenso. 

Embora tais características filtrem um pouco mais o escopo do público espectador, Todo o Dinheiro do Mundo é um ótimo exemplo de filme inspirado em fatos reais, bem construído e roteirizado com dedicação; quebra estereótipos e deixa sua marca sem ter de apelar para fórmulas prontas. A experiência de assisti-lo certamente fará você sair do cinema com muitas reflexões para as futuras divagações.





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