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Volta às aulas: por que você deveria dar uma chance a Merlí


A Netflix tem se esforçado para tirar a gente da zona de conforto no que concerne ao consumo de produtos culturais um pouco menos óbvios. Evidente que a maior parte de seu catálogo ainda se completa principalmente por produções em língua inglesa, sobretudo, na vertente norte-americana do idioma, mas desde que o serviço chegou ao Brasil, alguns poucos anos atrás, dá para ver que muita coisa interessante e fora do eixo mais hegemônico tem se popularizado e caído no gosto de consumidores improváveis.

Quando Merlí chegou ao catálogo da Netflix, ninguém fez muito alarde sobre mais essa história de adolescência e suas dificuldades, sobre o professor divertido e compreensivo que encontra os meios de salvar seus alunos das circunstâncias difíceis da vida. Me pareceu, a princípio, uma vontade meio equivocada e repetitiva de revisar Sociedade dos Poetas Mortos e acrescentar ainda um tempero meio enlatado ao melhor estilo Gossip Girl ou Malhação.

Vocês vão ficar felizes em saber, como também fiquei, que Merlí não é uma história sobre um professor inspirador que chega para virar a escola de cabeça para baixo e mudar a vida de seus alunos, que, como em toda história sobre educação, insistem em ser retratados como um bando de adolescentes esforçados, porém quase sempre incompreendidos. Se a história fosse mesmo sobre isso, eu não teria tido paciência para correr pelas três temporadas, de modo que não estaria aqui agora tentando convencer você a dar uma chance justa aos dramas desajeitados de Merlí.

Para tentar colocar uma perspectiva geral na história, podemos dizer que Merlí é principalmente uma série sobre como o sistema educacional é problemático e inconstante, como as coisas parecem desenhadas para que a gente faça questão de nunca aprender. Fala também sobre como adolescente nenhum precisa realmente de adulação e superproteção, sobre como adolescentes precisam na verdade tomar as rédeas da própria vida e assumir responsabilidades para conseguir mudar e crescer. Merlí talvez seja principalmente sobre como o sistema de educação do Ocidente não precisa de heróis, só de boa vontade em todas as direções.


Na trama, um professor de filosofia cheio daquelas plumas e espetáculos que fazem os jovens de repente se interessar e tentar aprender entra como substituto numa turma de Ensino Médio em Barcelona. Merlí, com seus métodos poucos ortodoxos, mas também muito eficientes, tem certa familiaridade quando precisa se envolver com seus alunos e a ajudá-los a lidar com os problemas comuns da fase, mas não faz ideia de como se comunicar de maneira minimamente agradável com os adultos, aqui inclusos os demais professores da escola e os pais de seus alunos.

Nesse sentindo, Merlí não é o herói que o mundo escolha aplaudir, só o tio de herói no qual seus alunos conseguem se reconhecer, principalmente porque ele erra um monte de vezes no caminho até fazer a coisa certa. Nada mais juvenil. A série faz questão de criar personagens complicados que se desenrolam para acompanhar a trama, que mudam e se adaptam, que não aparecem na história todos compostos, mas perpetuamente em crescimento. A empatia nessa série se cria aos pouquinhos. Às vezes, se desmancha também.

Justamente porque se estabelece através de um roteiro inteligente, Merlí se aproveita de todos os clichês de Sociedade dos Poetas Mortos, Gossip Girl e Malhação, mas faz isso tão bem que pega os pastiches e deixa tudo com uma aparência mais real. A fauna completa de problemas comuns da adolescência contemporânea aparece aqui: Pol, o garanhão convencido da escola, indisciplinado, repetente por pura insistência, que não tem exatamente nem um déficit de atenção, mas se revolta com facilidade e não consegue se entender com a maioria dos professores; Bruno, filho de Merlí, criado pela mãe e sem muito interesse nas peripécias um pouco constrangedoras armadas de vez em quando pelo pai, não se sente realmente íntimo da família e lida mal com a própria homossexualidade, tentando guardar segredo apesar dos conselhos liberais do pai; Ivan, diagnosticado com agorafobia, deixou a sala de aula e se trancou em casa, sem se interessar por falar com ninguém, para desespero de sua mãe superprotetora; Berta faz de tudo para chamar a atenção, porque em casa, sua mãe só tem olhos para irmã mais talentosa; Tania lida discretamente com suas inseguranças em relação ao corpo, porque se sente cada dia mais gorda perto das amigas um pouco mais desenvolvidas e desinibidas; Joan não sabe como se comunicar com os pais autoritários e acumula um mar de raiva dentro de si.


Dá para ver os clichês escorrendo por todo lado, não é? A série funciona porque se esforça através do lugar-comum para criar alguma coisa não exatamente nova, mas minimamente real. Dá para acreditar nos personagens (e isso é mérito tanto do roteiro quanto de um elenco competente em quase todas as facetas de seus personagens. As atuações funcionam, não vão muito além do meramente funcional, mas também nem precisam).

Apesar de cada episódio se centrar nos conceitos de um filósofo específico (os episódios têm cada um o nome de algum filósofo importante em seus títulos e desenvolvem a partir desse pensador as situações do roteiro), é impressionante como os temas se conectam entre si e ajudam a gente a entender as dificuldades dos personagens e a mais para frente a solucioná-las. A série é quase didática em seu propósito, mas nunca fica cansativa ou insistente em nos fazer aprender alguma coisa. A gente aprende porque faz sentido. Simples assim.

Merlí impressiona por saber lidar com situações simples em um roteiro que parece ficar progressivamente mais complexo, girando num ciclo de sua própria narrativa sem perder nada pelo caminho, sempre conectando as pontas soltas. Impressiona também porque coloca às vezes situações morais complicadas numa discussão dialética sem nos obrigar a tomar lado nenhum.


Como eu disse, não há muito de herói nessa história. Apesar de carismático, metade das atitudes de Merlí são reprováveis ou suspeitas. Todo mundo parece meio propenso a tomar a decisão mais irritante quando você menos espera. Isso faz a série funcionar com uma sensação de verdade, como se pudesse ser real também.

A série se encerra em sua terceira temporada, já transmitida na Espanha, mas ainda sem data para chegar pela Netflix no Brasil (vocês encontram os episódios completos da temporada final no Youtube, boa sorte ao se entender com o Catalão, essa língua nem espanhol, nem português, nem francês, nem italiano, nem inglês, mas com vocabulário de todas). Se você está lendo esse texto porque já é fã da série e não se aguenta mais de vontade enquanto o fim não chega, eu tenho uma ótima notícia: eles guardaram o melhor para o final. Se ainda não viu Merlí, eu estou implorando: um mínimo de chance já é chance o suficiente. 

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