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Crítica: Lady Bird - A Hora de Voar (sem spoilers)


No contexto artístico é muito comum recorrer à lugares e situações familiares quando se pretende contar uma história, é um ponto de partida seguro e sólido onde é possível se apoiar para seguir outras direções. Na minha primeira e única experiência como roteirista e diretora optei por fazer um curta-metragem de ficção, dentro de um exercício da faculdade com aspectos autobiográficos sobre a relação conflituosa entre duas personagens, mãe e filha, usando como plano de fundo a obesidade da filha. 

Eu tinha acabado de voltar de um longo período na casa dos meus pais e, portanto, era um assunto familiar para mim que eu gostaria, e teria facilidade, de tratar. Nem minha personagem principal era um retrato meu, nem a mãe da personagem parecia tanto assim com a minha mãe, mas as vivências de algum modo foram trabalhadas no enredo, nas situações criadas e acabou se tornando um filme muito pessoal. Independente do que os espectadores achassem depois de vê-lo.

Portanto, quando Lady Bird: A Hora de Voar, escrito e dirigido por Greta Gerwig, trazendo muito de aspectos da sua vida através do roteiro, apareceu - e já apareceu fazendo o maior estardalhaço, batendo recordes no Rotten Tomatoes com 100% de aprovação - foi amor à primeira vista. Enredos simples, e obras de gênero “coming of age”, algo traduzível como “jornada de amadurecimento” - tão recorrente na literatura e no cinema - sempre me agradaram muito, então eu já estava comprada antes mesmo do filme começar. Mesmo assim, a história protagonizada por personagens tão profundos e cativantes de uma nostalgia e uma naturalidade impressionante conseguiram superar todas as minhas expectativas.


Em Lady Bird: A Hora de Voar, acompanhamos uma garota chamada Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) nos fins de 2002 e começo de 2003, passando pelo período em que a protagonista está terminando o ensino médio e se preparando para ir para a faculdade. É isso, mas também é muito mais do que isso.

Associamos os pássaros à diversas ideias, principalmente quando queremos falar sobre liberdade e sensação de pertencimento, nos referimos à seus ninhos e às suas asas nesses momentos, mas há algo mais sobre os pássaros que também faz todo o sentido nesse filme, eles migram. É exatamente isso que Lady Bird anseia profundamente, migrar para uma cidade, segundo ela, melhor, que tenha mais cultura, onde a vida realmente acontece e sua mãe desaprova seriamente essa ideia, esse é o principal conflito entre as duas. É o primeiro do filme e também o que permeia toda sua duração. (Palmas para o subtítulo brasileiro que dessa vez acertou em cheio)


Lady Bird consegue falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo, trabalhando sem pressa com cada uma delas, carrega a mensagem de valorizar o que temos, o que conquistamos, de onde viemos e quem está ao nosso redor, consegue falar sobre gratidão e pode ser vista como uma carta de amor à cidade de Sacramento, mas no fim das contas é realmente um filme sobre o momento em que você precisa crescer e se virar sozinho.Não só isso como também é o momento em que você descobre quem é e no que acredita.

Contudo, o longa não deixa de ser um filme sobre a mãe de Lady Bird e sobre como é difícil ver os filhos partindo e aceitar que eles, de fato, cresceram e que é inevitável vê-los partir, assim como é inevitável que eles percebam que o maior tesouro que eles tem é, na verdade, o ninho que deixaram para trás e para o qual vão sempre querer voltar voando, porque encontram proteção e carinho debaixo das asas dos pais. O filme é, então, sobre esse amor entre mãe e filha, como nem sempre é fácil, nem sempre é perfeito, mas sempre permanece em nossas vidas e que com o tempo passamos a entender e aceitar.






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