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Crítica: Sem Amor (sem spoiler)


Diante de um divórcio conturbado, duas pessoas tentam seguir suas vidas. Em meio a tudo isso, esquecido pelo ex-casal, se encontra o filho de 12 anos – consequência de uma relação cheia de ressentimentos – que aparenta ser mais um fardo do que uma preocupação. É assim que Andrey Zyagintsev apresenta ao público, os primeiros minutos de Sem Amor.

Muito mais do que uma perspectiva sobre uma relação interpessoal que chegou ao fim e o eventual desaparecimento do filho – que vive em um completo desamparo – Sem Amor tem como objetivo pontuar um escopo maior. Sua história se traduz como uma grande crítica à sociedade atual e sua auto-absorção, resultante de atitudes egoístas e obsessivas do ser humano, cujo maior prazer é o foco nele e somente ele.

O roteiro de Zyagintsev e Oleg Negin, ao longo da narrativa, demonstra, por meio do ex-casal, os diversos fatores que culminam uma sociedade indiferente e em completa negação social. Através de Boris (Alexey Rozin), vemos o medo de perder o emprego por trabalhar em uma empresa com normas conservadoras, onde todos os funcionários devem possuir uma “família”, já que isto é o esperado de qualquer ser humano.  Vivendo em um ambiente sufocante, o personagem tenta conciliar a dissolução de seu casamento com a gravidez de sua amante, que nada mais é do que uma válvula de escape para o prazer e os conflitos existentes em sua vida.


Já em Zhenya (Maryana Spivak), vemos o afastamento da conexão humana causada pela tecnologia. Vivendo em um mundo onde admiração se baseia em likes e visualizações, a personagem se deixa levar por este universo fictício, pois acha que tal caminho criará um magnetismo para suas necessidades como status e poder. Outro fator bem interessante, abordado em seu arco, é como os conceitos da sociedade patriarcal recaem em sua personagem. Ao revelar a falta de conexão e amor pelo filho, Zhenya se questiona se é um monstro por não se adequar ao conceito de mãe.

Por ter tido uma gravidez não planejada, a personagem menciona que seu relacionamento com seu ex-marido foi uma saída para uma vida de dificuldades e julgamentos. Nunca houve a vontade de ser mãe, mas sim uma imposição para se tornar uma.

Contudo o segundo ato da trama foca no desaparecimento do filho e a  “união” de forças desses personagens em busca do paradeiro do menino, seja por conta da pressão social imposta ao demonstrar dois pais preocupados ou um tardio arrependimento pelo tratamento dado a esta. No entanto, no meio desta metáfora criada por Zyagintsev, quem é Alyosha ? E qual o significado de seu desaparecimento?


Diante de uma complexa narrativa, Alyosha é a afeição, o amparo, o amor perante ao próximo, que desaparece, transformando o mundo em um lugar desolado – e tão bem captado pela  fotografia de Mikhail Krichman, ao mostrar uma Rússia vazia e austera.

Dentre tantos conceitos, o diretor ainda se permite, em uma cena, mostrar a protagonista correndo em uma esteira com uma jaqueta escrita Rússia.

Além da visível crítica aos sistemas burocráticos e hierárquicos que contribuem para situação, Zyagintsev revela que, por mais que certos acontecimentos possam abrir momentaneamente nossos olhos, ainda estamos estagnados em uma autofascinação.




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