Swift

Crítica: Três Anúncios Para Um Crime (sem spoiler)


Indignação é um sentimento que vem ganhando mais espaço em nosso ser. Diante de tantas injustiças ao nosso redor é comum ver a propagação deste sentimento e sua transformação em algo muito mais pesado como, por exemplo, o ódio ou a raiva.

No seu mais recente filme, Martin McDonagh (Na Mira do Chefe e Sete Psicopatas e um Shih tzu)  mostra as diferentes formas que tal sentimento pode afetar o ser humano. Em Três Anúncios Para Um Crime, somos apresentados a Mildred Hayes (Frances McDormand) que inconformada com a ineficácia policial em encontrar o culpado pelo brutal assassinato da sua filha, decide chamar atenção ao caso alugando três outdoors e postando neles mensagens dirigidas ao chefe da polícia local.

Tal atitude acaba afetando a população da cidade interiorana e gerando inesperadas consequências. O que a primeira vista pode ser uma trama de vingança desabrocha em um belo estudo do ser humano. McDonagh acerta ao trazer para a tela uma história aparentemente simples mas que aos poucos se mostra densa, complexa e com boas doses de humor negro.


Os outdoors postos por Mildred são o fio condutor da história já que ao criticar o trabalho do xerife Willoughby (Woody Harrelson) - figura querida pela comunidade e um exemplo dos bons costumes - uma verdadeira batalha é iniciada. De um lado uma mãe tomada pela dor e frustração, já do outro um homem da lei indignado com tamanha atitude mas que sente o peso da incompetência em relação ao seu trabalho e a certos problemas pessoais. O embate acaba ocasionando uma grande revolta local, trazendo novos personagens para o epicentro do confronto. Sendo um deles Jason Dixon (Sam Rockwell), um policial racista com tendências violentas.

Sem a intenção de enquadrar os personagens em vilões ou mocinhos, o roteiro mostra as diferentes faces do ser humano, mostrando suas qualidades como também seus defeitos. Assim como, sinalizar que nós somos detentores de nossas ações, sejam elas consideradas certas ou erradas.

Tais ações que podem ser consideradas descontroladas são apenas uma cobertura para seus medos. Não que isso exima a responsabilidade de seus atos, mas acho que a grande mensagem deste filme é mostrar como tais sentimentos são usados para se libertar de uma fragilidade e externar uma figura ameaçadora. No entanto, isso é apenas uma fachada diante da impotência, insegurança, entre tantas outras razões que tomam conta destas pessoas.

Diante disso, o espectador é condicionado a adorar e a recrimina-los. Em Mildred questionamos certas condutas e apontamentos, ao mesmo tempo, que nos identificamos com a dor de uma mãe pela perda de sua filha. Até mesmo, o pior dos personagens, Dixon, não conseguimos odiar por completo, mostrando um das maiores mudanças ao longo da trama.

Claro que tamanho impacto não poderia ser alcançado sem o excelente trabalho dos atores que conseguem desdobrar toda a complexidade de seus personagens através de um simples olhar ou gesto, sendo o grande destaque dado a Frances McDormand que é um verdadeiro furacão em tela, dominando Mildred com brilhantismo. Outra menção honrosa é Sam Rockwellao trazer toda a fragilidade de Dixon sem nunca buscar uma redenção. 

Buscando expor a humanidade de cada um, a experiência é elevada com a trilha sonora de Carter Burwell, que em nenhum momento ofusca a história, pelo contrário, a complementa, envolvendo por completo o espectador e dando um toque western a produção.

Nessa jornada que o longa propõe, Três Anúncios Para Um Crime não possui a preocupação de apresentar uma respostas para seus questionamentos ou um final para sua trama, mas sim em mostrar as inúmeras escolhas e as respectivas consequências que pavimentam nossas vidas.




LEIA TAMBÉM