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Resenha | O Homem de Lata


O Homem de Lata. Aqui está um livro que chamou muito a minha atenção com o título em referência ao meu personagem favorito de “O Mágico de Oz”, e que após a insistente indicação da leitura por outras pessoas, resolvi ler.
Confesso que embora o título fosse instigante e as indicações fossem boas, eu não gostei da capa — eu odeio amarelo e girassóis —, por fora e nem por dentro, por isso tive uma certa resistência em iniciar a leitura.

Em “O Homem de Lata” conheceremos a história de Ellis e de Michael. Dois garotos que se tornam grandes amigos quando ainda crianças, e que, com o passar do tempo, nasce algo mais entre eles —  que muda, que se perdura e que também se vai.
Sim, aqui temos uma temática homossexual, mas que não é o grande foco do livro. Embora a autora discorra sobre alguns dos dilemas que os homossexuais enfrentam — e, principalmente, enfrentavam na época da história do livro: 1963 a 1996 —, isso não tem um alarde, um drama, preconceitos ou questionamentos grandes, apenas está ali presente, enquanto o maior núcleo da narrativa se detêm sobre nossas escolhas.

"Mas era minha humanidade que me levava a procurar, só isso. Que nos leva a todos. A simples necessidade de pertencer a algum lugar."

Dividido em duas partes, veremos a vida de Ellis, Michael e Anne pela visão dos dois rapazes. Em como eles construíram uma amizade, valores, caráter, personalidade, uma vida e um futuro. Tudo isso em poucas páginas, sim, mas nada leves.
A história de vida dos personagens possui uma carga muito grande de emoções e principalmente de melancolia — o que me incomodou um pouco —, desde o amarelo da capa, aos girassóis de Van Gogh, onde Sarah Winman levará o leitor a sentar em um banco, e olhar para trás.

"Eu me recordo de ter pensado que era muita crueldade ter os nossos planos perdidos em algum lugar por ali. Outra versão do futuro, em algum lugar por ali, perpetuamente em órbita."

Somos transportados ao passado da vida dos dois garotos e vamos nos identificar com muitos momentos de nossas próprias vidas, porque o livro é sobre as escolhas que fazemos, e como elas interferem no que nos tornamos futuramente, e onde a nossa vida irá chegar.
A cada “se” que tivemos oportunidade de escolher, a cada caminho que trilhamos, deixando outras possibilidades de lado. A cada “sim” impulsivo e a cada “não” inseguro, que dissemos um dia. A cada coração partido e a cada amor encontrado, a cada erro cometido a cada acerto conquistado. Somos convidados a olhar para trás e percebermos como cada momento de negligência e cada atitude de coragem, moldaram o que somos e onde estamos hoje, mas também o que poderíamos ter sido e onde poderíamos estar.

Eu não sou um cara tão sentimental, mas confesso que fiquei com um nó na garganta em alguns trechos. Em alguns momentos por mexer com coisas da minha própria vida, em outros por conta da vida dos personagens, e até mesmo pela maneira lírica em que a autora escreve. É algo quase poético.
Outro ponto forte que marca essa reflexão do passado de nossas vidas, está no tempo da narrativa. É impossível não ser afetado pela carga de nostalgia e saudosismo, que está presente até mesmo na espessura das páginas da edição.

Um livro que todo adulto deveria ler, porque às vezes o cotidiano nos afoga, e nós acabamos — por vezes — nos esquecendo de como tudo o que fazemos e deixamos de fazer, que a cada atenção dada ou ignorada a pequenos detalhes, interfere diretamente em nossa vida.

"Demorei um tempo para reconhecer os efeitos daquela época. Como a dormência dos meus dedos passou para o meu coração, sem que eu percebesse."


Título: O Homem de Lata
AutoraSarah Winman
EditoraFaro Editorial

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