Swift

Por que adulto vê desenho e aproveita mais que o público infantil?



A nossa geração parece ter criado um certo apego pelo que nos deram quando éramos pequenos. Não pode ser coincidência a insistência quase paranoica da temática da nostalgia. A verdade é que para nós o nosso tempo de infância foi o ápice da criatividade construtiva no que concerne ao mundo da cultura pop, do cinema, dos quadrinhos e, principalmente, das animações. Para gente, nunca mais haverá nada igual.

Em termos de animações para o público infantil, encaramos uma corrida de criação e produção das mais satisfatórias, vimos um mundo quase clássico para a temática dos super-heróis nascer e depois definhar aos pouquinhos, desde os esforços de qualidade de Liga da Justiça (Sem Limites aqui inclusa), as séries dos X-men (Evolution aparecendo aqui também), do Homem-Aranha, dos Jovens Titãs.

Nós vimos a ingenuidade aparentemente boba e sem propósito de séries como As Meninas Superpoderosas, Johnny Bravo, Coragem - o Cão Covarde, O Laboratório do Dexter, Samurai Jack, A Vaca e o Frango.


Essas histórias bizarras e esquisitas, quase sem nexo, mas só na superfície, pareciam para a gente a coisa mais especial em sua obviedade e nas repetições aparentemente tão simples de seus temas e cenas e às vezes os mesmos bordões e situações. Em nossos tempos de infância, que esperneamos porquê não voltam, adoramos a programação da Cartoon Network e da Disney, mas é bem provável que a maioria de vocês, como eu, não tenham aproveitado adequadamente a sabedoria nas esquisitices.

Em retrospecto, não é difícil perceber, no entanto, que nem tudo do humor abestalhado dessas histórias foi pensado para o público-alvo, para as crianças, meio que passava despercebido alguns subtextos, como uma piscadela para nós mesmos como um público-futuro.

A gente não pensava realmente a respeito do quão fora de contexto poderia parecer às vezes o vilão Ele, a entidade maligna e hipersexualizada de As Meninas Superpoderosas. A referência ao cristianismo não passava despercebida, mas a caracterização afeminada, na voz, nos trejeitos, no salto alto e na meia arrastão, nem sempre alcançava o tipo de humor dos mais incautos de nós. Com um revirar de olhos meio debochado para família tradicional, Ele era uma contradição ambulante, cheio de ambiguidades e de subentendidos.


Igualmente descontextualizado poderia parecer A Vaca e o Frango. Na história, um núcleo familiar nada tradicional incluía o par de protagonistas como irmãos (aparentemente biológicos) com pais humanos. Nada estranho. Ninguém discutia o fato e parecia amplamente aceito para a realidade da série. Ainda insistindo na temática do capiroto, o vilão aqui também trazia em sua aparência um bocado de referências ao satanás bíblico, embora fosse continuamente referido como um humano.


Assim, para insistir que a qualidade das animações infantis não mudou muito de endereço nem de boa vontade, apesar de nossos esforços frequentes em dizer que “bons eram os desenhos de antigamente”, hoje, vamos comentar um pouquinho sobre três séries de animação atuais, oficialmente voltadas para o público infantil, mas que, como suas antecessoras aqui mencionadas, insistem em enfiar os subtextos adultos por toda parte, mas millennial nenhum botar defeito.

Steven Universe


Criado pela imaginação fértil e quase sempre transgressora de Rebeca Sugar, Steven Universe deveria narrar as aventuras de um menino com poderes meio científicos meio mágicos e sua luta para proteger o mundo de invasões alienígenas. Essas aventuras de um garoto meio bobo e ingênuo, apaixonado por bobagens cheias de açúcar e gorduras, por videogame e correr pela praia da cidade, no entanto, tomou uma curva inesperada e enfiou, com sutileza e boa intenção, questões de gênero, de violência e de papéis sociais por toda parte, mesmo nos episódios mais avulsos e inesperados.

Steven Universe é hoje em dia uma trama de guerra intergaláctica, que pensa coisas como a diáspora no mundo contemporâneo, que usa seus personagens alienígenas como alegorias de nossas questões raciais, econômicas e das distinções de gênero.

Apesar de ser um protagonista masculino, Steven Universe (esse é mesmo o sobrenome do personagem) tem pouquíssimo do estereotipo imaginado para um protagonista de séries de aventura. Ele é baixinho e gordinho (e sente muito bem com isso), pouco afoito em batalhas e extremamente empático e dedicado ao cuidado com os outros, com proteção mais do que ataque e dominação, o que se evidencia, sobretudo, em sua arma especial, um escudo rosa que se forma a partir de uma joia em sua barriga.


O desenho traz ainda todo um subtexto que reinventa o papel feminino nas histórias de aventura, já que a raça inteira de alienígenas mostrada na série é composta exclusivamente por mulheres (ou um análogo alienígena ao que seria feminino), que se relacionam entre si e que combinam suas habilidades e corpos em uma fusão (quase “sexualmente” representada em tela através de coreografias provocantes).

Essas fusões já foram inclusive mostradas de maneira forçosa ou não consentida, como uma metáfora de estupro e abuso emocional.

Hora de Aventura


Hora de Aventura se aproveita do absurdo de suas histórias e das cores berrantes de seus cenários para disfarçar a seriedade de seus temas, uma certa ironia que parte para crítica social. A trama geral acompanha Finn, o humano, e seu amigo e companheiro de aventuras, Jake, um cachorro metamorfo, enquanto eles percorrem as esquinas mágicas das Terras de Ooo.

O talvez passe despercebido, para os telespectadores um pouco mais distraídos ou só superficialmente interessados, é que as Terras de Ooo parecem ter surgido após um evento apocalíptico que substituiu o nosso mundo pelo mundo da criatividade. A Grande Guerra dos Cogumelos pode até parecer, a princípio, algo saído direto dos caminhos mágicas de Alice no País das Maravilhas, mas, logo se explicita como uma referência ao formato da explosão de uma bomba atômica, algo não muito distante de nossas preocupações geopolíticas atuais.

Além disso, mesmo que o todo da animação procure achar humor em quase tudo, alguns episódios puxam para uma carga dramática mais evidenciada, abordando temas como perda e sacrifício, dor e abandono.

No episódio The Dark Cloud, a tocante canção Everything Stays, interpretada pela personagem Marceline e sua mãe (prestes a morrer), fala da efemeridade da vida, da dor de perder um ente querido e ser deixado sozinho num mundo amplo e desconhecido, tendo que mesmo assim seguir em frente.


Para um exemplo bem prático de uma situação problema bem analisada e representada em Hora de Aventura, indico o vídeo Finn e Lars: Quando você crescer, do canal Meteoro Brasil. Confira abaixo, apesar de um pouco longo, vale cada segundo:



Gravity Falls


Em suas duas breves temporadas, Gravity Falls conta a história dos gêmeos Mabel e Dipper e suas férias de verão numa cidadezinha aparentemente assombrada e cercada por conspirações. Na cabana de seu tio trambiqueiro, os gêmeos vão descobrir o primeiro amor e o primeiro zumbi também. A história integra as mudanças da terrível e complicada passagem para vida adulta como uma sequência de pavores e assombrações. Tudo é sempre doloroso e assustador quando temos que seguir em frente, não? 

A adorável, cativante e extremamente realista relação entre os gêmeos é sem sombra de dúvida um ponto alto da série e um destaque de sua parte também, que leva a sério até demais, para uma trama infantil, o desenvolvimento de personagem e a delicadeza da construção dos relacionamentos entre cada personagem.

Com um bizarro e perigoso vilão, Bill Cipher, capaz de entrar e manipular o inconsciente de suas vítimas, Gravity Falls põe seus adoráveis protagonistas em constante e real perigo, deixando até o público mais maduro às vezes preocupado com o bem-estar dos personagens. Gravity Falls fala de nostalgia, de perda, de ter que deixar a inocência para traz e seguir em frente para uma vida adulta simples e sem as alegrias e mistérios dos dias infantis. As férias de verão mostradas durante as temporadas falam da inevitabilidade da passagem do tempo e da exigência de crescer e se arrastar pela vida adulta.

Além disso, não é todo dia que você pode ver uma versão minúscula, mais mimada e cheia de si do presidente americano como vilão secundário. Eu vos apresento: Gideãozinho.  



Para uma análise detalhada dos diversos easter eggs escondidos na série e referências às conspirações do mundo, indico o vídeo a seguir, do canal Pipocando:

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