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Crítica | Desobediência (sem spoiler)


O cinema vive um ciclo em que se encontra sempre se reinventando e quebrando tabus. Desobediência, produção dirigida de forma magistral por Sebastián Lelio é uma dessas produções que hora ou outra aparecem para criar um debate.

Lelio usa o tema da paixão entre duas mulheres judias que não podem oficializar o relacionamento por ter que manter as aparências frente à comunidade religiosa e frente aos parentes. Ele já havia discutido – de forma diferente – esse tema no belo Uma Mulher Fantástica, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2018.

Em Desobediência, a sexualidade proibida das duas mulheres é trabalhada de forma sensível pelo diretor que nos apresenta um antigo vínculo entre Esti Kuperman (Rachel McAdams) e Ronit Krushka (Rachel Weisz), ambas tiveram um relacionamento passado, mas com a ida de Ronit para outro estado tiveram que se separar. O trabalho de recriação desse vínculo afetivo é feito aos poucos, e todos na comunidade religiosa parecem saber do segredo carregado por Esti Kuperman, algo que vai sendo pincelado com o passar do tempo até chegar ao clímax em que tudo é de fato contado.


créditos: Sony Pictures
É uma história bastante atual e que já foi discutida em inúmeros longas do gênero. Me Chame Pelo Seu Nome (Luca Guadagnino) trabalhou a paixão entre um homem e um garoto que se amavam, mas não podiam firmar um compromisso por que a sociedade não iria enxergar bem aquele relacionamento. Em Desobediência o tema é mais complexo e envolve a religião, em especial a comunidade judia. Esti Kuperman é casada com um rabino e tem medo de se assumir lésbica, pois teme perder seu emprego, o status que tem na comunidade em que reside e ser isolada por está.

Nesse caso a abordagem não é apenas em relação à religião, mas também da sociedade em que vivem. O diálogo final do rabino mostra bem isso, em que ele discursa a respeito do que é o amor e do que deve ser aceito ou não entre as pessoas e a religião.

É daí que se tira o título da produção. Desobediência seria o ato de não seguir a ordem vigente da religião e da sociedade que pede para que as pessoas sigam as regras exigidas, no caso o de se relacionar com pessoas de outro sexo e não com pessoas do mesmo sexo. É um título fantástico e com um roteiro que te prende com a história de amor proibida entre as duas protagonistas.

O romance entre as duas é bem estruturado, desde o aparecimento de Ronit e a revisita dela ao seu passado na região, até o reencontro com Esti, tudo é bem montado e em nenhum momento se transforma em uma relação água com açúcar ou sem uma história por trás do passado das duas. 

créditos: Sony Pictures
Outro acerto foi quanto às cores usadas pelos personagens com a predominância da cor preta empregada na maioria das cenas, fato que se traduz por serem judeus e terem o preto como cor padrão da vestimenta, mas também para apresentar um possível luto entre as protagonistas. Há uma clara ausência de cores quentes. No ambiente externo o clima é sempre frio, gelado que reproduz bem a situação em que as duas se encontram, sem poder se assumir nem se relacionar em público. Já quando estão em casa às cores são mais quentes dando uma ideia de aconchego e de um local seguro em que ambas podem se relacionar.

Sebastián Lelio transforma uma história tão fria e inicialmente sem vida em algo sensível, realista e humano. Algo que poucos diretores conseguem trabalhar em um romance com esse tema. Ele passou todos esses sentimentos de forma precisa e teve grande ajuda das duas grandes atrizes que o protagonizaram.

Tanto Rachel McAdams quanto Rachel Weisz estão excelentes em seus respectivos papéis, sendo ótimo ver McAdams interpretando uma personagem madura e com tanta dramaticidade. Já Weisz se encontra mais séria, e particularmente mais interessante com uma protagonista que não acredita nos costumes e tende a quebrar as tradições daquela comunidade. É sem dúvida um grande filme com um olhar apurado para um romance que deve ser apreciado por todos que gostam de cinema.





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