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Crítica | Green Book - O Guia


A década de 60 foi marcada por profundas transformações na sociedade norte-americana. O moralismo dos anos 50 começava a ruir e os movimentos pelos direitos de grupos sociais marginalizados passou a se fortalecer. Ainda assim, essas eram apenas manifestações pontuais diante dos desafios enraizados na mentalidade da época. 

Esse é o pano de fundo sob o qual o filme Green Book: O Guia é construído. Dentro da conjuntura de segregação racial nos Estados Unidos, ele funciona como um close em um ponto de vista pessoal, mostrando uma relação de superação de preconceitos estruturais, partindo de uma esfera particular para alcançar contornos universais. 


A jornada começa em 1962, mergulhando na perspectiva do segurança de clubes noturnos Tony ‘Lip’ Vallelonga (Viggo Mortensenum ítalo-americano que vive no subúrbio com a família e se adéqua bem aos códigos típicos dos bairros de imigrantes. O apelido Tony Lip, que em português é traduzido como “bocudo”, já deixa claro desde o início a personalidade marcante do protagonista. 

O contraste começa, no entanto, quando ele se vê obrigado a colocar o sustento da família em primeiro lugar, encarando os preconceitos e aceitando o trabalho como motorista de um talentoso e refinado pianista negro, conhecido como Dtr.  Don Shirley (Mahershala Ali). Sua missão é , não apenas conduzi-lo de lugar para lugar, mas também protegê-lo durante uma turnê que seguirá  pela região mais racista e violenta dos Estados Unidos:  o deep south.

Combo de carisma!

Se até agora você achou a proposta do filme pouco original, aproximando-se muito de outros clássicos como Conduzindo Miss Daisy, que levou o Oscar de melhor filme em 1989, e  até mesmo o longa francês, Intocáveis, certamente  é porque o charme e o carisma da interpretação de Viggo Mortensen (Senhor dos Anéis) e Mahershala Ali (Moonlight) não são traduzíveis em uma mera sinopse. 


A relação de respeito que se cria entre os personagens ao longo da road trip, não é instantânea e tampouco suave em sua transição. As cenas bem humoradas apenas contribuem para demarcar a complexidade e as nuances de cada um deles na aceitação de sua própria identidade. 

Afinal, tanto Shirley quanto Tony estão à margem da sociedade americana, mas lidam com esse distanciamento de formas diferentes; enquanto o primeiro faz de tudo para se distinguir e do estereótipo do povo negro, o segundo abraça e reafirma suas origens, encarando de frente aqueles que o desrespeitam. 

Um dos pontos mais criticados do longa, entretanto,  gira em torno da falta de desenvolvimento de um ângulo mais externo sobre as questões sociais profundas que levanta . Se comparado com Infiltrado na Klan, outro filme favorito ao Oscar em 2019 e que aborda a violência da segregação,  pode de fato parecer raso. Mas a premissa da história, ao menos na minha percepção, é  mostrar as brechas de resistência e diálogo e a disposição em aceitar, ainda que representados em  escala micro. 

Baseado em fatos reais 

Outra curiosidade interessante é que os personagens e a trama foram inspirados em uma história da vida real. Inclusive, o longa conta com nada menos que Nick Vallelonga, filho do protagonista, como roteirista e co produtor ao lado de Brian Currie. 


O próprio título do filme, Green Book, faz referência à um guia turístico que de fato existiu, feito especialmente para viajantes afro-americanos, com dicas sobre estabelecimentos comerciais, hotéis e restaurantes que recebiam negros e, portanto, eram seguros.  É o mesmo que Tony recebe quando começa a trabalhar para Shirley. 

Na direção, Peter Farrelly (Débi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros),  reconhecido pelos trabalhos no gênero de comédia ( Quem Vai Ficar com Mary? Eu, eu mesmo e Irene), surpreende ao trazer para Green Book um senso de humor carismático e profundo que contrasta com os muitos momentos tocantes e reflexivos na jornada dos dois personagens centrais. 

Como é de se esperar de todo grande título que venha com essa particularidade, a relação de amizade que se cria e é apresentada no filme já foi questionada, inclusive por membros da família de Shirley. 

Seja como for, a leveza, o charme e a mensagem construída em Green Book: O Guia, encanta e tem grande probabilidade de conquistar o público geral divertindo e ao mesmo tempo provocando emoção e reflexão. 

O filme foi indicado a categoria de melhor filme no Oscar e estreia aqui no Brasil dia 24 de janeiro de 2018.



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