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Crítica | Vice



Um ângulo diferente sobre a história da América. Muitos projetos biográficos se dedicaram a trazer essa sensação de “perspectiva intimista” sobre os fatos que conduziram a História como a conhecemos - por exemplo em  Jackie ou no recente O Destino de Uma Nação -  mas poucos o fizeram tão originalmente quanto Vice, o mais novo filme político-biográfico dirigido por Adam McKay (A Grande Aposta).

Mesmo àquele que não estiver familiarizado com os bastidores do governo dos Estados Unidos ou com a figura de Dick Cheney, ex vice-presidente e protagonista da trama, terá uma agradável surpresa ao revisitar alguns momentos históricos no período entre 1970 e 2009, recheados com o toque sarcástico de McKay.

Quem foi Dick Cheney, afinal,  e qual sua influência para a história dos EUA? Apesar de ter agido nos bastidores, o político republicano ocupou alguns cargos no governo: Chefe do Gabinete da Casa Branca, membro dos Representantes pelo Wyoming, Secretário de Defesa dos Estados Unidos e, é claro, o vice-presidente do país durante a gestão de George W. Bush.

O mais interessante, no entanto, não é a trajetória notoriamente influente de Cheney, mas sim sua personalidade reclusa e ardilosa, revelando o temperamento certo para ficar à cargo de decisões importantes do governo, como a articulação da Guerra do Iraque, a disseminação do conceito da Guerra ao Terror, entre outros eventos que mudaram o curso da história mundial.

Maneiras de contar uma história

Sem a pretensão de adivinhar exatamente como os acontecimentos sucederam na vida real, a narrativa se constrói baseada em fatos mas escolhe a licença poética quando não há registros precisos, como por exemplo, diálogos que precederam grandes decisões ou até mesmo a relação íntima entre Cheney e sua esposa.

Tal disposição, inclusive, faz com que o filme fique ainda mais interessante e mergulhe o espectador em críticas bem humoradas, ainda que não haja revelação exata do que ocorreu. Três das melhores cenas do filme fazem uso desse recurso, brincando com elementos desde “cenas pós crédito” no meio do filme, até passagens de Shakespeare em meio a uma discussão decisiva entre marido e mulher.

O que poderia vir como ponto de ressalva é extremamente relativo no caso de Vice. Para nós, brasileiros, algumas piadas internas típicas da cultura norte-americana podem exigir uma bagagem de conhecimento muito específica, o que talvez torne um tanto exaustiva a experiência de assistir ao filme.

Trabalho minucioso

Ainda assim, é impossível não se deixar contagiar pela atmosfera criada pela atuação do elenco principal: Christian Bale (Dick Chaney), Amy Adams ( Lynne Cheney), Steve Carrell (Donald Rumsfeld) e Sam Rockwell (George Bush filho). Todos eles interagem muito espontaneamente entre si, e parecem muito confortáveis na pele de seus personagens. O que é, no mínimo, surpreendente se notarmos a minuciosa caracterização da direção de arte.

Para fazer o papel de Chaney, Christian Bale teve de engordar 18 quilos e ainda contar com enchimento e maquiagem para transformá-lo à imagem do real vice-presidente. Falando em maquiagem, Sam Rockwell poderia facilmente ter saído de um retrato do ex-presidente George W. Bush em seus anos de juventude, tamanha a semelhança alcançada.

Sem dúvidas, os paralelos traçados entre a figura e o governo de Cheney, orquestrado dos bastidores, com as referências da atualidade não faltam. Mas o que realmente move o filme é a originalidade do roteiro, que conta a biografia de uma personalidade sem exaltá-la ou criticá-la meramente. O ponto forte é torná-la ácida, complexa, divertida e, acima de tudo, crítica.



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