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Cabine de Comando Indica: Love, Death & Robots



No começo deste ano quando a Netflix soltou um conjunto de imagens de sua nova série intitulada Love, Death & Robots, o que mais me deixou impressionado não foi só o visual, mas também a premissa do seriado como um todo. Os criadores Tim Miller (Deadpool) e David Fincher (Garota Exemplar, Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, Zodíaco, dentre outros) vieram com a proposta de um seriado que funcionasse como uma antologia de 18 episódios, com histórias independentes entre si na forma de animação, privilegiando diversos cineastas com estilos distintos.

Após assistir a primeira temporada de Love, Death & Robots, devo dizer que não só a ideia funciona como abre espaço para talentos mostrarem criatividade poucas vezes vista no mundo da animação. Interessante que ao assistir a série, me veio à mente o projeto “Animatrix”, uma minissérie de seis episódios com histórias distintas que expandiam o universo do filme Matrix e servia de ponte para deixar este mundo em evidência pegando carona no hype gerado por Matrix Reloaded e Matrix Revolutions lançados em 2003.

A série de Miller e Fincher segue a mesma vibe dos curtas produzidos pelas irmãs Wachowski, por assim dizer, a verdade é que são episódios que variam de cinco a dezessete minutos cercados de muita ação, violência, bastante nudez, um visual gráfico belíssimo e muita história interessante que fazem o espectador viciar em poucos segundos. Uma coisa que se pode notar é que cada episódio (ou cada curta) tem um estúdio de animação diferente por trás e com estilos variando muito entre animações 3D e 2D que privilegiam traços fortes e paletas de cores impressionantes que fariam inveja a muita animação atual.
créditos: Netflix
Outro ponto que chama atenção é como as histórias desenvolvem bem seus personagens mesmo com pouco tempo para isso, os tons são bem estabelecidos e você se pega se apaixonando pela maioria deles, como podemos destacar nos episódios “A Vantagem de Sonnie” (1x01), “Boa Caçada” (1x08) e “13, O Número da Sorte” (1x13), sem falar que até personagens não humanos como os diversos robôs e inteligências artificiais que aparecem nas narrativas se apresentam intrigantes e carismáticos o bastante para que você se pegue gostando de todos eles como ficam evidentes no engraçado “Os Três Robôs” (1x02) e no enigmático “Zima Azul” (1x14).

Infelizmente, nem tudo funciona, ao mesmo tempo em que acho as animações lindas e suas histórias bem desenvolvidas, sinto que o universo de alguns curtas exageram em alguns momentos na questão da nudez (prepare-se para uma enxurrada de genitálias masculinas na sua tela), principalmente relacionado às personagens femininas, desta forma confesso que algumas cenas em particular elas soam meio gratuitas e não acrescentam muita coisa na narrativa como aconteceu no intrigante “A Testemunha” (1x03), que no final das contas apenas serve para se aproveitar a censura 18 anos do seriado.

Assim como Love, Death & Robots é uma série sem pudores, no lado da violência o seriado também não se contém. As tramas são recheadas de muito sangue e membros mutilados que mostram que a liberdade corre solta nas narrativas demostrando que os diretores tiveram carta branca para tecer suas histórias, mas não é só isso que faz o enredo ser realmente bom, a mitologia por trás de cada mundo é incrível, a maioria se passa em um futuro distópico, um mais intrigante que o outro com um nível de complexidade e análise magnífica das ações humanas em meio ao caos, como no excelente “A Guerra Secreta” (1x18), ou no misterioso “Para Além da Fenda de Áquila” (1x07).
créditos: Netflix
Outro ponto interessante da série são suas animações em 2D que são ótimas por sinal como fica claro no sangrento “O Sugador de Almas” (1x05) ou no cartunesco “Histórias Alternativas” (1x17) e no robótico “Ponto Cego” (1x15) que mistura um pouco de 3D também. O seriado ainda tem tempo para ser experimental e brilhante, mostrando que sabe privilegiar narrativas mais filosóficas como no episódio “Noite de Pescaria” (1x12) e no engraçado “Quando O Iogurte Toma o Poder” (1x06).

O seriado ainda tem tempo para homenagear grandes filmes, como se pode notar é difícil não pensar em Alien, Tropas Estrelares e outros do gênero quando assistimos o acelerado “Proteção Contra Alienígenas” (1x04), assim como é fácil notar um tom meio Gravidade de Alfonso Cuáron, no emotivo “Ajudinha” (1x11), porém Love, Death & Robots ainda tem tempo de abraçar mitologias bizarras como no violento “Metamorfos”(1x10) e no involuntariamente engraçado “O Lixão” (1x09).

No geral a série é um achado, de longe um dos melhores conteúdos de entretenimento do ano, muito fácil de assistir, não cansa e ainda nos mostra o quão é importante apoiar projetos deste tipo, onde as mentes criativas tem liberdade para criar mundos belíssimos e de puro escapismo (o episódio “Era do Gelo” (1x16) exemplifica muito isso). Love, Death & Robots apresenta uma primeira temporada praticamente impecável, as comparações com o seriado “Black Mirror” serão inevitáveis, mas esta série é ainda mais única e grandiosa, cheia de momentos antológicos, misturando muita violência, sexo e cultura global num caldeirão de tramas memoráveis.

Meu top 6 episódios favoritos da temporada:

1 – “A Vantagem de Sonnie”
2 – “13, O Número da Sorte”
3 – “Zima Azul”
4 – “Boa Caçada”
5 – “Para Além da Fenda de Áquila”
6 – “Proteção Contra Alienígenas”

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